Prato árabe: tagine ou tajine? O tipo de comida (e panela) marroquina é o tagine, a tagine, o tajine ou a tajine?

Resposta rápida: em francês, chama-se tajine ou tagine a um prato tradicional do Marrocos, bem como ao tipo de panela de barro em que o prato é preparado e servido; é palavra masculina. Em português, pela etimologia, deve ser escrito preferencialmente com “g”: “o tagine“, “um tagine“.

Como ensina Rebelo Gonçalves – considerado um dos “pais” da moderna ortografia da língua portuguesa – já em seu clássico “Tratado de Ortografia da Língua Portuguesa”, de 1947: em português, “em palavras de origem arábica se não faz uso de j, mas de g, antes de e ou – enquanto o jota, por sua vez, é preferido em palavras de origem ameríndia (por exemplo, tupi), além do latim.

Exemplos de palavras de origem árabe em português (em que se usa a letra g): alfageme, álgebra, algema, algeroz, algibebe, algibeira, álgido, almargem, Argel, Argélia, auge, gengibre, gergelim, geringonça, gesso, Gibraltar, Gidá, ginete, girafa, gíria, hégira, Tânger…

Exemplos de palavras de origem americana (indígena) (em que se usa a letra j): ajeru (papagaio), canjerê, canjica, jecoral, jenipapo, jequitibá, jerimum, jiboia, jiquipanga, jiquiró, jiquitaia, jirau, jiriti, jitirana, mucujê, pajé..

Assim, o nome do cozido marroquino feito em geral com carne de frango ou de cordeiro e legumes, bem como o nome do recipiente de terracota em que o referido cozido é preparado e em geral servido, pode ser escrito, em francês ou inglês, indiferentemente tagine ou tajine – nesse caso, devendo-se grafar, num texto em português, a palavra em itálico, sublinhada ou entre aspas, para se deixar claro estar-se usando um estrangeirismo. Aportuguesada, a palavra deverá ser grafada tagine, substantivo masculino.

Qual a tradução de tamazight? Como se chama a língua tamazight em português?

Resposta rápida: A tradução de tamazight é amazigue. A língua tamazight, em português, chama-se amazigue.

Resposta completa: O amazigue, língua berbere, é uma das duas línguas oficiais do Marrocos e uma das línguas nacionais da Argélia. O amazigue é a língua dos povos berberes ou amazigues (que chamam a si mesmos Amazigh).

Já na edição original do Dicionário de Caldas Aulete, publicado em 1881, encontra-se a definição de amazigues – “denominação das populações de origem semítica que falam línguas berberes” – como substantivo e adjetivo, e do substantivo masculino amazigue: “língua berbere da região do Atlas”.

Ademais do Caldas Aulete, a palavra amazigue também consta do Dicionário de Morais e do Aurélio.

Em sua língua, o povo amazigue (ou berbere) chama a si mesmo “Amazigh“, de onde vem a forma portuguesa amazigue. À sua língua, propriamente, chamam Tamazight – que é simplesmente o feminino de Amazigh. Em português, a palavra amazigue é comum de dois gêneros, e refere-se tanto ao povo quanto a sua língua (como em inglês, francês, etc, em que se usa a forma amazigh invariavelmente para ambos – embora também se venha registrando, nessas línguas, o uso da palavra “Tamazight” – que nada mais é que o nome da língua amazigue na própria língua amazigue).

“Franco-atirador” ou “francoatirador”? Com hífen ou sem hífen? Caiu o hífen com a nova ortografia?

Resposta: Não, nada mudou: franco-atirador (plural: franco-atiradores; feminino: franco-atiradora e franco-atiradoras) continua a ser escrito com hífen, tanto em Portugal quanto no Brasil. É como está grafada a palavra (“franco-atirador”, com hífen) tanto no Vocabulário Ortográfico online da Academia Brasileira de Letras (o VOLP) quanto na edição mais recente (2014) do Vocabulário Ortográfico Atualizado da Academia das Ciências de Lisboa – e assim está grafada a palavra, corretamente, no Houaiss, no Aurélio, no Priberam, etc.

(A primeira edição imprensa do VOLP brasileiro pós-Acordo Ortográfico chegou a sair com a forma “francoatirador” sem hífen, o que foi em seguida corrigido em uma errata pública da Academia Brasileira de Letras (disponível aqui), que em seguida retirou a palavra “francoatirador” do sistema de busca digital (disponível gratuitamente aqui) do VOLP, que já traz novamente apenas “franco-atirador”, com hífen, como grafia correta, exatamente como o VOALP de Portugal.)

Qual foi o primeiro dicionário da língua portuguesa?

Qual é o dicionário mais antigo da língua portuguesa? Qual foi o primeiro dicionário de português?IMG_0632

O primeiro dicionário da língua portuguesa foi o Dicionário de Moraes (Diccionario da Lingua Portugueza), cuja primeira edição, publicada em 1789 por Antonio de Moraes Silva, natural do Rio de Janeiro (à época, ainda parte de Portugal), usou como base o “Vocabulário Português e Latino“, obra publicada entre 1712 e 1728 pelo padre francês Raphael Bluteau.

[Estamos falando de dicionários monolíngues. Se se considerarem os dicionários bilíngues, o mais antigo dicionário português que sobrevive até hoje é “Dicionário Latino-Lusitânico”, de 1569, de Jerónimo Cardoso; era um dicionário português (no sentido de que feito em Portugal), mas não “de português” – não era monolíngue, e sequer era o português sua língua principal; suas entradas eram em latim – não passavam de seis mil, acompanhadas da tradução ao português (“lusitânico”).]

Vocabulário Português e Latino de Raphael Bluteau já não era, apesar do nome, um simples vocabulário: à diferença dos vocabulários propriamente ditos, não trazia apenas palavras em lista, mas já as definia, como um verdadeiro dicionário. Também apesar do nome, tampouco era um simples dicionário bilíngue português-latim (como haviam sido todos os dicionários “portugueses” que lhe tinham antecedido): Bluteau já trazia as entradas apenas em português, com definições também em português, acompanhadas ao final de sua tradução ao latim. Quanto ao número de entradas (ou verbetes – isto é, de palavras definidas pelo dicionário), o Vocabulário tinha 43.664 verbetes, distribuídas em oito volumes.

Seu título completo, como se pode ver na folha de rosto, acima, era (na ortografia original): Vocabulario portuguez e latino, aulico, anatomico, architectonico, bellico, botanico, brasilico, comico, critico, chimico, dogmatico, dialectico, dendrologico, ecclesiastico, etymologico, economico, florifero, forense, fructifero, geographico, geometrico, gnomonico, hydrographico, homonymico, hierologico, ichtyologico, indico, isagogico, laconico, liturgico, lithologico, medico, musico, meteorologico, nautico, numerico, neoterico, ortographico, optico, ornithologico, poetico, philologico, pharmaceutico, quidditativo, qualitativo, quantitativo, rethorico, rustico, romano, symbolico, synonimico, syllabico, theologico, terapeutico, technologico, uranologico, xenophonico, zoologico, autorizado com exemplos dos melhores escritores portuguezes, e latinos.

Seu autor, o padre Raphael Bluteau (nascido em 1638, falecido em 1734) era filho de franceses, nascido em Londres, e desde jovem poliglota. Mudou-se para Portugal apenas aos 30 anos, o que não o impediu de, com sua colossal obra, de ter seu nome associado à fundação da dicionarística (lexicologia) da língua portuguesa.

Décadas após a morte de Bluteau, o carioca Antonio de Moraes Silva, reaproveitaria o conteúdo do “Vocabulário Latino e Português” para dar forma ao primeiro “Dicionário da Língua Portuguesa” a trazer esse nome, publicado em 1789 (o “Diccionario da lingua portugueza composto pelo padre D. Rafael Bluteau, reformado e accrescentado por Antonio de Moraes Silva“).

Apesar do título, já era obra completamente diferente do Vocabulário, de modo que, embora tenha atribuído, com certa justiça, a primazia no título ao padre Bluteau, foi o carioca Antonio de Moraes Silva o verdadeiro autor do primeiro “Dicionário da Língua Portuguesa”. Na segunda edição, publicada em 1813, Moraes assumiria a autoria plena da obra – cuja qualidade seria reconhecida tanto em Portugal quanto no Brasil, rapidamente fixando-se o Dicionário de Moraes como “o” dicionário da língua portuguesa.

O dicionário de Moraes viria a ser reeditado numerosas vezes ao longo dos dois séculos seguintes, tornando-se o nome Moraes (por vezes grafado “Morais“, em uma grafia “atualizada”) sinônimo de “dicionário” em português. Até Machado de Assis chegou a usar “o Moraes” com o sentido de “o dicionário” em crônicas suas.

A décima edição do Dicionário de Moraes, publicada entre 1948 e 1958, consiste de doze grossos volumes, com um total de 12 319 páginas em que são definidas 306 949 palavras – o que faz da obra de Moraes até hoje o maior dicionário da língua portuguesa já publicado.

Leia também: Quantas palavras têm os dicionários?

Enciclopédia Brasileira Mérito (1959, São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Recife)

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A Enciclopédia Brasileira Mérito, da Editora Mérito, foi publicada em 1959, simultaneamente em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Porto Alegre e no Recife. Foi a primeira enciclopédia autodeclarada brasileira. Mais que isso, era por si uma biblioteca: 20 volumes grandes e pesados (que hoje podem ser encontrados à venda na internet por 500 reais), com a característica de ser extremamente zelosa da “pureza” da língua, recusando qualquer estrangeirismo – no que discrepava da maioria das enciclopédias até então (e na verdade, até hoje) existentes.

Enquanto a maioria das enciclopédias no Brasil e em Portugal apenas traduzia conteúdo, mas mantendo nomes de cidades, línguas, povos, etc., em inglês ou francês, os editores da Enciclopédia Mérito praticamente não deixaram passar um nome sem aportuguesá-los: estão lá, já na edição de 1959, formas corretíssimas como Abcásia e abcásios (para a região – e o povo da região – que a imprensa brasileira insiste em chamar, à inglesa, de Abkhazia); e Bacu, Camerum, Campala, Cuaite, Ierevã e Marraquexe (para as cidades que nossos jornais no século XXI continuam a chamar, à inglesa, Baku, Cameroon, Kampala, Kuwait, Yerevan e Marrakesh / Marrakech).

Até mesmo o tão esquecido e ignorado – porém absolutamente necessário – acento no primeiro “i” de Fíji está lá, presente em todas as menções à ilha, em todos os 20 volumes.

Como se diz “tifinagh” em português? Como se traduz tifinagh?

Olá, estou escrevendo um trabalho sobre os tuaregues, e achei as palavras em português para “tuaregue”, “berbere”, etc, mas não encontro em nenhum dicionário a tradução ao português do nome do alfabeto dos tuaregues, o “tifinagh”. Já procurei no Houaiss, Porto, Michaelis, Priberam, nada, nada. A palavra não tem  tradução para o português?

Resposta: Tifinagh, em português, é tifinague. A palavra tifinague está assim registrada no Dicionário Aurélio (como adjetivo e substantivo masculino, com a definição de “escrita dos tuaregues”). A palavra tifinague está igualmente grafada, assim, na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, publicada em Portugal na década de 1950, em que se afirma que o alfabeto “tifinague dos tuaregues” era, à época, ainda usado “por 40 a 50% dos marroquinos”.

Atualmente, o tifinague já não é mais identificado como “alfabeto das tuaregues” tão somente, sendo usado pelos povos berberes em geral (os tuaregues são apenas um dos vários povos berberes). Uma versão moderna do tifinague foi recentemente oficializada como um dos alfabetos oficiais do Marrocos.

“Assembleia-Geral” ou “Assembleia Geral”? Assembleia Geral tem hífen?

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“Secretário-geral” escreve-se com hífen; mas “assembleia geral” escreve-se sem hífen.

“Assembleia Geral” se escreve sem hífen (e, desde o novo Acordo Ortográfico, sem acento). Quando a palavra “geral” é um simples adjetivo que acompanha um substantivo, sem alterar-lhe o sentido original, não haverá hífen. Por isso, não têm hifens formas como assembleia geral, reunião geral, comissão geral, ensaio geral, faxina geral.

O adjetivo “geral” liga-se com hífen apenas nos nomes de cargos e profissões, e nos nomes das divisões e órgãos administrativos a eles relacionados: assim, diz-se cônsul-geral (e consulado-geral); Procuradoria-Geral e procurador-geral; secretário-geral das Nações Unidas (e Secretaria-Geral); subsecretário-geral; ouvidoria-geral, diretor-geral, etc.

Como se pode ver no dicionário Houaiss, no dicionário Aurélio, no dicionário Priberam, no dicionário Aulete, no dicionário da Academia Brasileira de Letras ou no Vocabulário Ortográfico, “assembleia geral” escreve-se sem hífen, mas “secretário-geral” leva hífen.

Não custa recordar, por fim, que “assembléia” perdeu o acento que tinha, no Brasil, até o atual acordo ortográfico, tornando-se “assembleia” – como ocorreu com as antigas “idéia”, “européia” (agora “ideia”, “europeia”), etc.

O certo é fotinho ou fotinha? Segundo a Academia Brasileira de Letras, é fotinho

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O diminutivo de uma foto é “uma fotinho”; o certo é “a fotinho”. As palavras terminadas em “a” e “o”, independentemente de serem masculinas ou femininas, mantêm a vogal final quando fazem o diminutivo em “-inh-“. O diminutivo de cinema, por exemplo, é cineminhA, mesmo sendo masculino; da mesma forma, uma tribo pequena é uma tribinho, mesmo sendo palavra feminina – e uma foto pequena é uma fotinho. A palavra “fotinha” está errada.

Existem duas formas mais comuns de formar diminutivos em português: uma palavra pode ir para o diminutivo por meio da inserção de “-inh-” (menininho, estrelinha, moderninho) ou pela adição dos sufixos “-zinho” e “-zinha” (meninozinho, estrelazinha, modernozinho, devagarzinho). Mas as regras de utilização dos dois tipos de terminação são diferentes, o que causa alguma confusão.

No caso dos diminutivos sem “z” – isto é, o que usam o “-inh-” -, pode-se usar como regra (para as palavras terminadas em “o” ou “a”) simplesmente incluir as letras “-inh-” entre a última letra da palavra original e as anteriores: assim, o diminutivo de cinema é cinem+inh+a = um cineminha; o “a” de cinema é mantido intacto.

Não importa que a palavra “cinema” seja masculina: a terminação da palavra manterá o “a”, que já era o “a” final de cinema.

Da mesma forma, uma tribo pequena é uma “tribinho” – assim como se diz “uma tribo”, diz-se uma “tribinho”.

Igualmente, o diminutivo de “um cinema” é “um cineminha”, o de “uma moto” é “uma motinho”, o de “um motorista” é “um motoristinha”… e o diminutivo de foto é “fotinho”.

Eventuais confusões devem vir da tradição – comum a todas as gramáticas de português à venda – de mencionar o sufixo “-inho” como sinônimo de “-zinho”, quando não, pior, como o mesmo sufixo, ao qual apenas se adicionaria ou omitiria a consoante “z” por pura eufonia.

A confusão que existe quanto ao uso do diminutivo (que faz que por vezes se ouçam formas erradas como “fotinha” ou “motinha”) deve-se ao fato de que regra completamente diferente da acima resposta, referente ao “-inh-“, é a que rege outro tipo de terminação também usada para formar diminutivos: a forma “-zinho” (e seu feminino, “-zinha”). Ao contrário da forma “-inh-“, as formas “-zinho” e “-zinha” não separam a vogal final da palavra original entrando no meio da palavra (como em cinem+inh+a), mas deixam a palavra original intacta, apenas colocando-se as formas “-zinho” (se a palavra for masculina) ou “-zinha” (se a palavra for feminina) grudadas ao fim da palavra: um cinema+zinho.

Assim, compare:

  • Diminutivo de moto: estão corretas “a motinho ou “a motozinha
  • Diminutivo de foto: estão corretas “a fotinho” ou “a fotozinha
  • Diminutivo de tribo: estão corretas “a tribinho” ou “a tribozinha
  • Diminutivo de motorista (homem): pode-se dizer “ele é um motoristinha” ou “ele é um motoristazinho
  • Diminutivo de pijama: pode-se dizer “o pijaminha” ou “o pijamazinho
  • Diminutivo de problema: estão corretas “o probleminha” ou “o problemazinho
  • Diminutivo de problema: estão corretas “o probleminha” ou “o problemazinho
  • Diminutivo de programa: pode-se dizer “o programinha” ou “o programazinho

Essa importante e fundamental diferença entre as terminações “-inho” e “-zinho” não parece, porém, ter ainda atraído a atenção dos autores de gramáticas da língua, que, de forma equivocada, limitam-se a citar “-zinho” como variante de “-inho” – quando não como o mesmo sufixo, acrescido de um “z” puramente eufônico.

Tal omissão por parte da maioria das gramáticas tradicionais, ao não abordar a formação dos diminutivos em “inho”/”inha” no caso das raras palavras femininas terminadas em “o” (como foto, moto e tribo) e masculinas terminadas em “a” (como pijama, cinema, motorista) certamente em muito contribuiu para permitir a disseminação em certas regiões (por exemplo no Rio de Janeiro) de formas irregulares como “fotinha” e “motinha”.

A quem pergunta, porém, a Academia Brasileira de Letras responde taxativamente: o diminutivo de foto é fotinho ou fotozinha – mas não fotinha:

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É essa a mesma opinião de professores de português famosos, como o professor Pasquale (ver aqui) e o professor Cláudio Moreno (ver aqui).

Como se escreve em português o nome do salgado árabe? Esfirra, esfiha, sfiha, isfirra…?

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Resposta rápida: em português é esfirra o nome do salgado de origem árabe. A palavra já está plenamente aportuguesada: está escrita, nessa forma (“esfirra”) em todos os grandes dicionários brasileiros – Aurélio, Houaiss, Michaelis, Aulete, etc, e está também no Priberam, de Portugal. Ademais, já está até registrada no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), da Academia Brasileira de Letras.

Resposta completa: A esfirra é um salgado feito de massa de farinha de trigo, com recheio (no caso das esfirras fechadas) ou cobertura (no caso das esfirras abertas) que pode ser carne, queijo, etc. Trazidas pelo grande contingente de imigrantes sírios e libaneses que chegaram ao Brasil no século XX, as esfirras tornaram-se parte da gastronomia do Brasil, onde são mais conhecidas e consumidas do que em partes do mundo árabe. Em países de língua espanhola e inglesa, usa-se a transliteração sfiha, mais próxima do árabe, em que o “h” representa uma aspiração, como em inglês (ou alemão). No futuro, poder-se-á notar que a palavra esfirra terá entrado no português tardiamente, apenas no fim do século XX, como de fato o foi, devido ao fato de, no aportuguesamento, ter-se trocado o som aspirado do “h” árabe por dois “rr” – que de fato são pronunciados como o som aspirado do “h” inglês pela maior parte dos jovens cultos da maior parte das cidades brasileiras.

Esse fenômeno, porém – o de substituir por “rr” o som do “h” aspirado de outras línguas – é quase inédito na história do português, uma vez que historicamente o “r” português e brasileiro era vibrante, como é o “r” espanhol até hoje, de modo que não faria sentido aportuguesar como “-irra” uma terminação pronunciada “-iha”, uma vez que, em árabe, também existe o “r” vibrante, que representa, porém, som que nenhum árabe confundiria com seu próprio “h” (diferença tão nítida e perceptível para os árabes, por exemplo, quanto o são para os falantes do espanhol as duas consoantes da palavra rojo (vermelho), ou, para os alemães, as duas primeiras consoantes de Haaren (cabelos)).

A inexistência em português antigo do som da aspiração representada pelo “h” em inglês, alemão etc fez que várias palavras estrangeiras que continham esse som fossem aportuguesadas simplesmente descartando a letra: assim, por exemplo, o deserto do “Sahara” virou entre nós “Saara”; o “nihilisme” dos franceses, de nihil, “nada” em latim, deu entre nós “niilismo”; o alcohol, que as demais línguas ocidentais derivaram do árabe, mas que em português virou “álcool”; ou ainda o nome da língua e do povo swahili, da costa oriental da África, que deram no aportuguesamento “suaíli” (existindo ainda a variante “suaíle”, devido ao fato de o “e” no final, tanto no Brasil quanto em Portugal, em geral soar como “i”).

Apenas posteriormente o erre vibrante (“à espanhola”) deixou de ser a forma dominante da pronúncia do “r” em início de palavras ou entre vogais no dialeto de Lisboa e das principais cidades do Brasil, tendo sido substituído, no Brasil, pelo som aspirado semelhante ao do “h” inglês, o que faz que hoje tenha sido aceito sem polêmicas um aportuguesamento como “esfirra”, em contradição com a tradição da língua e representando uma mudança importante na história da entrada de novas palavras na língua portuguesa, provenientes de outras línguas.

Foi por essa razão que, inicialmente, os “puristas” da língua portuguesa condenaram a ideia de transliterar o “h” aspirado árabe como dois “rr” em português – e, diziam eles, o único aportuguesamento possível de “esfiha” seria “esfia“. A rejeição popular a essa forma, porém, tornou inevitável a aceitação, hoje consensual entre dicionaristas brasileiros e mesmo portugueses, da forma “esfirra“.

Para se aprofundar mais sobre esse tema (o da equiparação do som dos “rr” ao som do “h” aspirado “internacional” no português brasileiro, e os desafios que esse fenômeno implica para o sistema ortográfico unificado da língua, vide a resposta “O “h” não mudo (ou h aspirado) em português: handebol, jihadista, bahamense, Hanói, bahaísmo, etc.“.

Existe a palavra “empratar”? Existe a palavra “empratamento”?

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Resposta rápida: Sim, existe a palavra “empratar”, e sim, a palavra “empratamento” também existe. Ambas estão registradas em dicionários, inclusive no Dicionário Houaiss, com o sentido de “dispor (alimentos) num prato individual com o objetivo de tornar sua aparência agradável e apetecível”.

Resposta completa: Na esteira da pergunta anterior, sobre a crocância, tão mencionada no Masterchef  e demais problemas de competições gastronômicas que ora se proliferam pelo País, outra pergunta que se tem feito muito nas redes sociais é: “empratamento” e “empratar” – existem essas duas palavra?

No mundo da gastronomia e da alta cozinha, diz-se que “o empratamento é tão importante quanto qualquer outra fase da confecção de um prato”. Saber empratar bem, dizem – isto é, saber dispor os alimentos no prato de forma harmônica e visualmente atraente – é algo que todo bom cozinheiro deve aprender.

Mas, afinal, essas palavras foram inventadas agora, por causa dos programas de gastronomia? Não, senhores, podem ficar tranquilos: tanto o verbo “empratar” quanto o substantivo “empratamento” têm registro formal na língua desde o século passado, e as palavras empratar e empratamento já estão na base de dados do Grande Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, que define empratamento como “ato ou efeito de empratar”, e “empratar” como “pôr (alimento) num prato”.

O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora (Portugal), por sua vez, classifica “empratar” como termo da área da culinária, descrevendo-o como o ato de “dispor (os alimentos) num prato individual, de forma a tornar a sua aparência agradável e apetecível”.

E prova de que as duas palavras têm uso oficial desde – pelo menos – o fim do século passado são os usos de formas do verbo “empratar” e/ou do substantivo “empratamento” na legislação portuguesa, como neste Decreto-Lei nacional de 1999 sobre a carreira de ajudante (“emprata os alimentos… […] …empratando as refeições”) ou neste regulamento, de 1998, que define que, entre suas atribuições, o cozinheiro “prepara os legumes e as carnes e procede à execução das operações culinárias, emprata-os, guarnece-os, e confecciona os doces”, etc.