Como se escreve em português o nome do salgado árabe? Esfirra, esfiha, sfiha, isfirra…?

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Resposta rápida: em português é esfirra o nome do salgado de origem árabe. A palavra já está plenamente aportuguesada: está escrita, nessa forma (“esfirra”) em todos os grandes dicionários brasileiros – Aurélio, Houaiss, Michaelis, Aulete, etc, e está também no Priberam, de Portugal. Ademais, já está até registrada no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), da Academia Brasileira de Letras.

Resposta completa: A esfirra é um salgado feito de massa de farinha de trigo, com recheio (no caso das esfirras fechadas) ou cobertura (no caso das esfirras abertas) que pode ser carne, queijo, etc. Trazidas pelo grande contingente de imigrantes sírios e libaneses que chegaram ao Brasil no século XX, as esfirras tornaram-se parte da gastronomia do Brasil, onde são mais conhecidas e consumidas do que em partes do mundo árabe. Em países de língua espanhola e inglesa, usa-se a transliteração sfiha, mais próxima do árabe, em que o “h” representa uma aspiração, como em inglês (ou alemão). No futuro, poder-se-á notar que a palavra esfirra terá entrado no português tardiamente, apenas no fim do século XX, como de fato o foi, devido ao fato de, no aportuguesamento, ter-se trocado o som aspirado do “h” árabe por dois “rr” – que de fato são pronunciados como o som aspirado do “h” inglês pela maior parte dos jovens cultos da maior parte das cidades brasileiras.

Esse fenômeno, porém – o de substituir por “rr” o som do “h” aspirado de outras línguas – é quase inédito na história do português, uma vez que historicamente o “r” português e brasileiro era vibrante, como é o “r” espanhol até hoje, de modo que não faria sentido aportuguesar como “-irra” uma terminação pronunciada “-iha”, uma vez que, em árabe, também existe o “r” vibrante, que representa, porém, som que nenhum árabe confundiria com seu próprio “h” (diferença tão nítida e perceptível para os árabes, por exemplo, quanto o são para os falantes do espanhol as duas consoantes da palavra rojo (vermelho), ou, para os alemães, as duas primeiras consoantes de Haaren (cabelos)).

A inexistência em português antigo do som da aspiração representada pelo “h” em inglês, alemão etc fez que várias palavras estrangeiras que continham esse som fossem aportuguesadas simplesmente descartando a letra: assim, por exemplo, o deserto do “Sahara” virou entre nós “Saara”; o “nihilisme” dos franceses, de nihil, “nada” em latim, deu entre nós “niilismo”; o alcohol, que as demais línguas ocidentais derivaram do árabe, mas que em português virou “álcool”; ou ainda o nome da língua e do povo swahili, da costa oriental da África, que deram no aportuguesamento “suaíli” (existindo ainda a variante “suaíle”, devido ao fato de o “e” no final, tanto no Brasil quanto em Portugal, em geral soar como “i”).

Apenas posteriormente o erre vibrante (“à espanhola”) deixou de ser a forma dominante da pronúncia do “r” em início de palavras ou entre vogais no dialeto de Lisboa e das principais cidades do Brasil, tendo sido substituído, no Brasil, pelo som aspirado semelhante ao do “h” inglês, o que faz que hoje tenha sido aceito sem polêmicas um aportuguesamento como “esfirra”, em contradição com a tradição da língua e representando uma mudança importante na história da entrada de novas palavras na língua portuguesa, provenientes de outras línguas.

Foi por essa razão que, inicialmente, os “puristas” da língua portuguesa condenaram a ideia de transliterar o “h” aspirado árabe como dois “rr” em português – e, diziam eles, o único aportuguesamento possível de “esfiha” seria “esfia“. A rejeição popular a essa forma, porém, tornou inevitável a aceitação, hoje consensual entre dicionaristas brasileiros e mesmo portugueses, da forma “esfirra“.

Para se aprofundar mais sobre esse tema (o da equiparação do som dos “rr” ao som do “h” aspirado “internacional” no português brasileiro, e os desafios que esse fenômeno implica para o sistema ortográfico unificado da língua, vide a resposta “O “h” não mudo (ou h aspirado) em português: handebol, jihadista, bahamense, Hanói, bahaísmo, etc.“.

4 comentários sobre “Como se escreve em português o nome do salgado árabe? Esfirra, esfiha, sfiha, isfirra…?

  1. Pingback: O “h” não mudo (ou h aspirado) em português: handebol, bahamiano, jihadista, saheliano, bahaísmo, etc. | DicionarioeGramatica.com.br

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  3. Pronunciar rr com som de h é frescura. Rato é rato, não hato…. e o carro é caro… o S por exemplo tem sua pronúncia acentuada quando duplicado. Passarinho, passeio… assim como, por exemplo o r tem som pronunciado mais longamente quando duplicado.

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