Qual foi o primeiro dicionário da língua portuguesa?

Qual é o dicionário mais antigo da língua portuguesa? Qual foi o primeiro dicionário de português?IMG_0632

O primeiro dicionário da língua portuguesa foi o Dicionário de Moraes (Diccionario da Lingua Portugueza), cuja primeira edição, publicada em 1789 por Antonio de Moraes Silva, natural do Rio de Janeiro (à época, ainda parte de Portugal), usou como base o “Vocabulário Português e Latino“, obra publicada entre 1712 e 1728 pelo padre francês Raphael Bluteau.

[Estamos falando de dicionários monolíngues. Se se considerarem os dicionários bilíngues, o mais antigo dicionário português que sobrevive até hoje é “Dicionário Latino-Lusitânico”, de 1569, de Jerónimo Cardoso; era um dicionário português (no sentido de que feito em Portugal), mas não “de português” – não era monolíngue, e sequer era o português sua língua principal; suas entradas eram em latim – não passavam de seis mil, acompanhadas da tradução ao português (“lusitânico”).]

Vocabulário Português e Latino de Raphael Bluteau já não era, apesar do nome, um simples vocabulário: à diferença dos vocabulários propriamente ditos, não trazia apenas palavras em lista, mas já as definia, como um verdadeiro dicionário. Também apesar do nome, tampouco era um simples dicionário bilíngue português-latim (como haviam sido todos os dicionários “portugueses” que lhe tinham antecedido): Bluteau já trazia as entradas apenas em português, com definições também em português, acompanhadas ao final de sua tradução ao latim. Quanto ao número de entradas (ou verbetes – isto é, de palavras definidas pelo dicionário), o Vocabulário tinha 43.664 verbetes, distribuídas em oito volumes.

Seu título completo, como se pode ver na folha de rosto, acima, era (na ortografia original): Vocabulario portuguez e latino, aulico, anatomico, architectonico, bellico, botanico, brasilico, comico, critico, chimico, dogmatico, dialectico, dendrologico, ecclesiastico, etymologico, economico, florifero, forense, fructifero, geographico, geometrico, gnomonico, hydrographico, homonymico, hierologico, ichtyologico, indico, isagogico, laconico, liturgico, lithologico, medico, musico, meteorologico, nautico, numerico, neoterico, ortographico, optico, ornithologico, poetico, philologico, pharmaceutico, quidditativo, qualitativo, quantitativo, rethorico, rustico, romano, symbolico, synonimico, syllabico, theologico, terapeutico, technologico, uranologico, xenophonico, zoologico, autorizado com exemplos dos melhores escritores portuguezes, e latinos.

Seu autor, o padre Raphael Bluteau (nascido em 1638, falecido em 1734) era filho de franceses, nascido em Londres, e desde jovem poliglota. Mudou-se para Portugal apenas aos 30 anos, o que não o impediu de, com sua colossal obra, de ter seu nome associado à fundação da dicionarística (lexicologia) da língua portuguesa.

Décadas após a morte de Bluteau, o carioca Antonio de Moraes Silva, reaproveitaria o conteúdo do “Vocabulário Latino e Português” para dar forma ao primeiro “Dicionário da Língua Portuguesa” a trazer esse nome, publicado em 1789 (o “Diccionario da lingua portugueza composto pelo padre D. Rafael Bluteau, reformado e accrescentado por Antonio de Moraes Silva“).

Apesar do título, já era obra completamente diferente do Vocabulário, de modo que, embora tenha atribuído, com certa justiça, a primazia no título ao padre Bluteau, foi o carioca Antonio de Moraes Silva o verdadeiro autor do primeiro “Dicionário da Língua Portuguesa”. Na segunda edição, publicada em 1813, Moraes assumiria a autoria plena da obra – cuja qualidade seria reconhecida tanto em Portugal quanto no Brasil, rapidamente fixando-se o Dicionário de Moraes como “o” dicionário da língua portuguesa.

O dicionário de Moraes viria a ser reeditado numerosas vezes ao longo dos dois séculos seguintes, tornando-se o nome Moraes (por vezes grafado “Morais“, em uma grafia “atualizada”) sinônimo de “dicionário” em português. Até Machado de Assis chegou a usar “o Moraes” com o sentido de “o dicionário” em crônicas suas.

A décima edição do Dicionário de Moraes, publicada entre 1948 e 1958, consiste de doze grossos volumes, com um total de 12 319 páginas em que são definidas 306 949 palavras – o que faz da obra de Moraes até hoje o maior dicionário da língua portuguesa já publicado.

Leia também: Quantas palavras têm os dicionários?

19 comentários sobre “Qual foi o primeiro dicionário da língua portuguesa?

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