“Um grande etcétera”, “etcétera e tal” – o aportuguesamento de “etc.”

Sans titre.png[Atualização: uma semana após a publicação deste artigo, o dicionário Priberam adicionou a palavra etcétera]

Bem é verdade que não existe dicionário perfeito (e que há e sempre haverá  palavras que não estão nos dicionários), mas sempre surpreende constatar a ausência, de todos os principais dicionários brasileiros e portugueses, de certas palavras absolutamente correntes e corretas: é o caso, por exemplo, de etcétera.

É claro que a palavra etcétera – escrita assim, à portuguesa – existe: é usada sem qualquer ressalva em livros de ortografia, em revistas sobre gramática, em páginas com dicas de português ou de revisão para vestibulares, em letra (de 1981!) de Chico Buarque, em livros vencedores de prêmios internacionais (como “Macau”, vencedor do Prêmio Telecom Portugal de 2003), no Grande Manual de Ortografia de Celso Luft, além, é claro, de em toda nossa imprensa – e até mesmo em decisões judiciais sobre acusações de plágio envolvendo a Xuxa.

Mais interessante ainda é notar que, ao contrário do et cētera original – locução latina formada pela conjunção “et” (“e”) e pelo substantivo “[o] resto” (no sentido de “as demais coisas”) -, o etcétera português virou já um substantivo comum, com uso diferente do da própria abreviatura “etc.“: a palavra aportuguesada é usada em expressões em que a locução original jamais caberia – como na já gasta expressão “etcétera e tal”, mas mesmo acompanhada de adjetivos, como em “um longo etcétera” (na Folha de S.Paulo e n’O Globo“), “um vasto etcétera” (Veja) ou “um interminável etcétera” (Tribuna do Norte).

A diferenciação entre o substantivo aportuguesado etcétera e sua versão original latina reflete-se ainda no fato de que, embora as normas da língua rejeitem veementemente o uso da conjunção “e” antes de “etc.” (pelo fato de a expressão original já trazer o “e” latino em seu corpo), não há a mesma censura ao uso da conjunção “e” antes do “etcétera” aportuguesado e substantivado. É o que demonstra o uso inconteste de “e etcétera” na imprensa e mesmo em títulos de livros – tanto do Brasil (“Amazônia e etcétera“) quanto de Portugal (“Mentiras, elefantes e etcétera“).

[Atualização: menos de uma semana após esta publicação, o dicionário Priberam acolheu a palavra etcétera.]

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Estado membro, estados-membros, país membro, países membros: com hífen ou sem?

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“País-membro” tem hífen? O certo é “países membros” ou “países-membros”? “Estados membros da ONU” ou “estados-membros da ONU”? 

O hífen nos compostos “estado membro”, “país membro” e “países membros” é desnecessário. Não há regra gramatical que obrigue o uso de hífen nesses casos.

Por isso, é preferível escrever “país membro“, países membros“, “estado membro” e “estados membros da ONU“.

O uso de um hífen em “os países membros da ONU” não teria nenhum propósito nem utilidade: “países-membros da ONU” significa exatamente o mesmo que “países membros da ONU“.

O propósito gramatical do hífen não é enfeitar, mas, sim, marcar o surgimento de uma expressão nova, com sentido diferente da mera soma dos termos originais: é por essa razão que ano-luz, medida de distância, tem hífen, mas “ano passado”, não; ou por que tio-avô, peixe-espada, porta-vozsegunda-feira têm hifens, mas “pai adotivo”, “peixe cru”, “porta traseira” e “segunda esposa” não. Assim, não há por que usar hífen em “países membros“.

É o entendimento, entre outros, da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, em cuja Declaração Constitutiva e em cujo Estatuto aparecem mais de 30 vezes as expressões “Estados membros” e “países membros” – em todas as vezes, sem exceção, sem hifens.

Também o Manual de Redação e Estilo d’O Estado de S. Paulo, de Eduardo Martins, expressamente enfatiza que não se deve usar hifens em “país membro” e “estados membros”.

Há, é claro, vozes dissonantes – a gramática e as regras ortográficas não são, afinal, taxativas a esse respeito. Acaba-se caindo, como em muitos casos da língua, no campo da estilística: assim como estão corretas as formas sem hifens, também não se pode dizer que “países-membros” ou “estados-membros” sejam erros gramaticais.


Especificamente no contexto da União Europeia, a questão do uso (e do não uso) de hifens em “estados membros”  já foi inclusive motivo de debates acadêmicos.

Como explicou Miguel Magalhães, da Direção-Geral de Traduções da UE, em texto publicado em 2004, os responsáveis pela tradução à língua portuguesa dos documentos da União Europeia (UE) haviam cunhado em 1986 a expressão “Estados-membros“, em maiúsculas e com hífen, com o sentido específico de “países que são membros da União Europeia”.

Como o próprio traduro argumenta, essa decisão de seus antecessores (que ele, em 2004, propunha revogar) fora excludente (“Ficámos assim na estranha situação de Portugal ser Estado-membro, com hífen, da UE, mas Estado membro, sem hífen, da ONU, da OCDE, do FMI, da OMC, da CPLP”) e exclusiva (“Optou-se assim por introduzir uma bizantinice linguística por meros motivos ideológicos, pois o que se pretendia com o hífen era sublinhar o carácter «especial e único» da nossa participação na construção europeia. Sublinhe-se que nem em espanhol, nem em francês, nem em italiano, línguas latinas com regras semelhantes em matéria de hífenes, se optou por tal originalidade“). Com efeito, nas demais línguas da União Europeia não se usa o hífen: escreve-se Estados miembros, em espanhol; Stati membri, em italiano; Member States, em inglês; États membres, em francês.

Em 2011, o tradutor Paulo Correia, da mesma Direção-Geral de Traduções da UE, levantou outra curiosidade: apesar da “bizantinice linguística” criada por seus antecessores, o governo de Portugal nunca adotou a “novidade”, continuando até hoje a grafar “estado membro” e “estados membros”, sem hifens, nas publicações oficiais – inclusive de atos da União Europeia – no Diário Oficial português.

Não caiu o acento de papéis, fiéis, herói, heróis, chapéu, troféus (oxítonas abertas continuam com acento)

Papéis“, “herói“, “chapéu“, “fiéis“, continuam a ter acento agudo, tanto na velha quanto na nova ortografia.

A hesitação é um dos “efeitos colaterais” da nova ortografia. A reforma ortográfica cortou os acentos que, em palavras paroxítonas, só serviam para indicar uma pronúncia aberta: idéia virou ideia, européia virou europeia, heróico virou heroico, nucléico ou nuclêico viraram nucleico, bóia, bóias, jibóia e jibóias viraram boiaboiasjiboiajiboias. Não houve qualquer alteração, porém, nas palavras oxítonas: continuam a ser acentuadas, como sempre, herói (apesar de heróico ter virado heroico), heróischapéuchapéustroféutroféuspapéis (plural de papel), fiéis (plural de fiel), véu, réucéucéus, Montevidéu, lençóis, anzóis, o verbo dói, etc.

A atenção deve ser dobrada no caso de palavras como papéisfiéis (plurais, respectivamente, de papel e de fiel), porque, diferentemente de quase todos os outros casos, nestes o corretor automático do Word ou de outros programas não funcionará: isso porque também existem as formas “papeis” e “fieis” (flexões verbais de “vós” com os verbos “papar” e “fiar”, respectivamente).

Vale recordar, ainda: continuam obrigatórios, também, os acentos diferenciais no verbo pôr (Vou pôr isto aqui) e no passado pôde (para diferenciá-lo do presente: Ela não pôde vir ontem, mas acho que hoje ela já pode.)

Pronúncia e significado de daiquiri (e não daikiri)

daiquiri é uma bebida cubana, feita de suco de limão, rum e açúcar. O nome desse drinque provém da localidade cubana de Daiquirí, próxima à cidade de Santiago de Cuba, onde esse drinque teria sido inventado. Assim como o nome da localidade, o nome do drinque é oxítono em português (a sílaba tônica é a última, -ri). Em português, porém, o nome da bebida não leva acento, pois nesse quesito as regras de acentuação do português diferem das do espanhol, que acentua suas oxítonas terminadas em “i”: assim, da mesma forma que em português escrevemos “tupi”, “guarani”, ou os verbos no passado “bebi”, “comi” e “vivi” sem acento (diferentemente das mesmas palavras em espanhol: tupí, guaraní, bebí, comí, viví), o nome da bebida deve ser escrito sem acento em português: daiquiri.

Sendo um nome de origem cubana, e escrito com “q” em Cuba e oficialmente em espanhol, não faz sentido a escrita “daikiri” que usam alguns (talvez por acharem se tratar de nome japonês, inglês ou de outra procedência).

A esse propósito: um drinque (aportuguesamento de drink) é sinônimo de “aperitivo” ou de “trago”: é uma bebida alcoólica (pura ou coquetel) que se toma socialmente.

O aracuã ou a aracuã (ou araquã): ave semelhante ao jacu

Essa ave de porte médio, da mesma família do jacu e facilmente encontrada em diferentes cidades do Brasil, mesmo em algumas grandes cidades, é chamada aracuã – única forma atestada no Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras (o VOLP), embora os dicionários também registrem a grafia araquã (além ainda de variantes como arancuã). Como ensinam o VOLP, o Aurélio e o Houaiss, o nome pode ser usado indistintamente no masculino e no feminino: o aracuã ou a aracuã (um aracuã, uma aracuã, os aracuãs, as aracuãs).

A grafia com “cu” em vez de “qu” enfatiza que, na pronúncia recomendada pela Academia Brasileira de Letras, o “u” é uma vogal plena, que faz hiato com a vogal seguinte. A palavra tem, assim, quatro sílabas: a-ra-cu-ã. Na opção escrita com “q”, o “u” deveria ser pronunciado como uma semivogal, resultando na pronúncia trissílaba a-ra-quã (como bem mostra o Priberam, que registra ambas).

O nome vem diretamente do tupi – língua que (como já explicamos na resposta sobre panapanã) já tinha (e usava muito) a vogal nasal ã, que portanto não é, como muitos pensam, uma exclusividade da língua portuguesa.

Bom senso não leva hífen, e é de muito bom senso que assim seja

Bom senso não tem hífen; escreve-se: o bom senso, sempre sem hífen. É assim que está registrado nos dicionários (AurélioHouaissMichaelis, etc.) e vocabulários.

A 5ª edição do Vocabulário da Academia Brasileira de Letras (o VOLP) chegou a ser impressa, em 2009, com “bom-senso”, absurdamente, com hífen; mas, tão logo lhes apontamos o erro, rapidamente sumiram com a falsa “palavra” de seu banco de dados e do corpo do dicionário que publicaram no ano seguinte.

Por não se tratar de uma palavra, mas sim de duas (“bom” e “senso”), a expressão desapareceu por completo do site da Academia – corretamente, diga-se; por se tratar não de uma palavra composta, mas de uma expressão, só se achará “bom senso” em dicionários, e ainda assim não como entrada própria, mas, sim, ao fim do verbete correspondente ao núcleo da expressão (neste caso, a palavra “senso”), junto de outras expressões que usam a palavra.

É o que ocorre ao consultarmos os bons dicionários da língua, como o Houaiss, o Aurélio e o Priberam, em cuja excelente busca o termo “bom senso” remete o consulente, corretamente, para a palavra “senso”, abaixo da qual figura a procurada expressão “bom senso”, acima de “senso comum” (ambas sem hífen).

“Bom senso” não tem e nem poderia levar hífen porque não é uma única palavra, composta; são duas palavras independentes, que não têm motivo para serem ligadas por hífen.

Há, é certo, entre muitos brasileiros e portugueses, uma certa “mania hifenizadora”, uma tendência a colocar hifens em toda e qualquer expressão feita – com frequência equivocadamente: há quem escreva fim-de-semana, décimo-segundo, assembleia-geral, etc. O certo é “fim de semana”, “décimo segundo”, “senso comum”: todos sem hífen.

O hífen tem um propósito específico, porém – o de marcar o surgimento de um novo termo, formado pela junção de duas ou mais outras palavras, mas – é importante – desde que o novo termo tenha de fato um sentido novo, diferente da simples soma dos sentidos originais das palavras que o compõem. É por essa razão que a palavra ano-luz, nome de uma medida de distância, leva hífen, mas “ano passado” não; ou por que tio-avô, peixe-espada, porta-vozsegunda-feira têm hifens, mas “pai adotivo” ou “pai dedicado”, “peixe cru” ou “peixe frito”, “porta secreta” ou “porta traseira” e “segunda esposa” ou “segundas núpcias” não levam hífen.

O significado de meganha: policial

Em diversas partes de norte a sul do Brasil, meganha é um sinônimo informal (em geral com conotação depreciativa) para um policial. Originalmente, meganha designava especificamente os antigos “soldados de polícia”, membros das guardas provinciais na época do Brasil Império, que ganhavam a metade dos soldos dos militares oficiais, membros do Exército – daí o nome de “meia-ganhas”, que rapidamente evoluiu para “meganha” e, menos rapidamente, passou a designar qualquer policial ou guarda (militar, civil, guarda municipal, agente de trânsito, etc.).

Originalmente, o substantivo meganha aplicava-se aos chamados “soldados de polícia”, membros das antigas “forças públicas”, brigadas paramilitares provinciais, responsáveis pela segurança pública nas então províncias (posteriormente Estados) do País até a institucionalização, já durante o regime militar, da atual Polícia Militar.

Com a mudança das próprias instituições policiais brasileiras e a extinção das antigas “forças públicas” e dos “soldados de polícia”, o termo meganha teve seu sentido expandido até abranger todo e qualquer policial ou guarda (militar, civil, guarda municipal, agente de trânsito, etc.).

Em São Paulo, é difundida a tese de que a palavra viria de “me ganha”, do verbo “ganhar” – como numa frase supostamente dita por um delinquente: “me ganha” (no sentido de “me pega (se conseguir)”. No entanto, a palavra é muito anterior a esse sentido novo de “ganhar”, e muito mais espalhada geograficamente; “meganha”, aplicada aos membros das antigas forças públicas, remonta aos tempos da Guerra do Paraguai (1864 a 1870), em que se permitiu aos membros dessas forças provinciais lutarem junto aos militares.

Esses “soldados de polícia” ganhavam, porém, apenas a metade do soldo que era pago aos membros efetivos do Exército de cargo ou posição hierárquica equivalente; por essa razão, teriam passado a ser chamados “meia ganha”, que resultou na forma “meganha”.

Ademais dos registros históricos que comprovam o uso de “meia ganha” já dois séculos atrás, nota-se, por fim, que o substantivo “meganha”, com a pronúncia hoje observada no Brasil (em que o “e” tem som próprio, de “e”, e não de “i”) não poderia vir da expressão “me ganha”, que obrigatoriamente teria entrado na língua informal dos brasileiras com a pronúncia “miganha”, em consonância com a pronúncia geral do pronome “me” átono.

Campi ou câmpus? O aportuguesamento de campus é câmpus, com acento (o câmpus, os câmpus)

Deve-se escrever “o campus” ou “o câmpus”, com acento? O plural é “os câmpus” ou “os campi”?

A grafia aportuguesada câmpus, idêntica para o singular e o plural, está já incluída no Dicionário Houaiss, no Vocabulário Ortográfico Atualizado da Língua Portuguesa, e é recomendada oficialmente, desde 2011, pelo Ministério da Educação brasileira, em substituição às formas latinas campuscampi. O aportuguesamento câmpus, ademais, está legitimado pelo uso feito pelas principais universidades brasileiras, como a USP, a UnB, a UNESP, entre outras, bem como pela imprensa.

Campus” é uma palavra estrangeira – originalmente do latim, embora o uso que há décadas se faz em português, de “conjunto de prédios e terrenos de uma universidade”, provenha do inglês americano.

Em latim, o substantivo campus tinha o plural campi – da mesma forma que a palavra latina forum tinha o plural fora, e memorandum curriculum tinham como plurais memorandacurricula.

Na medida em que cresceu seu uso na língua portuguesa, porém, essas palavras acabaram aportuguesadas: forum virou fórum, com acento para indicar a pronúncia paroxítona de uma palavra terminada em “um”; ao passo que memorandum curriculum viraram memorando e currículo, com a terminação “-o”.

No momento em que se tornam palavras portuguesas, fórum, memorando e currículo, ganham também, naturalmente, plurais regulares: o fórum, os fóruns; o memorando, os memorandos; o currículo, os currículos.

O mesmo processo ocorre com campus: por ser palavra paroxítona terminada em “us”, a palavra exige acento em português: câmpus. No plural, desaparece o latinismo campi, em favor de um plural legitimamente português: o câmpus, os câmpus.

A grafia aportuguesada de câmpus está já incluída no Vocabulário Ortográfico Atualizado da Língua Portuguesa da Academia das Ciências de Lisboa, a homóloga lusitana da Academia Brasileira de Letras. No Brasil, a forma aportuguesada câmpus, com acento e sem variação no plural, é também recomendada oficialmente, desde 2011, pelo próprio Ministério da Educação, e está legitimado pelo uso feito pelas principais universidades brasileiras, como a USP (Universidade de São Paulo), a UnB (Universidade de Brasília, que “ensina: o correto é sem itálico e com circunflexo no a“), a UNESP, entre outras, bem como pela imprensa (Estado de S. PauloO Globo, Correio Braziliense, etc.).

A palavra constava, também, já da primeira edição do Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa, de Domingos Paschoal Cegalla, autor de uma das mais vendidas gramáticas da língua portuguesa (a Novíssima Gramática da Língua Portuguesa). Já em 1996, o Dicionário de Paschoal Cegalla trazia “câmpus: conjunto de terrenos e prédios de uma universidade. Plural: os câmpus.

Se se usar, em português, as formas latinas originais, campuscampi, a recomendação é grafá-las preferivelmente em itálico ou entre aspas, como deve ser feito com todo termo estrangeiro. O mais recomendado, porém, é mesmo usar as formas já plenamente aportuguesadas: o câmpus, os câmpus.

Uma jinguba = um amendoim (no português africano, jinguba é amendoim)

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Uma leitora pergunta-nos o que seria uma ginguba, palavra que leu em uma receita. A palavra encontrada deve, provavelmente, ter sido escrita errada, em lugar de jinguba, com j: em português africano – especificamente em Angola e em São Tomé e Príncipe – jinguba (substantivo feminino) é um sinônimo de amendoim.

A palavra jinguba (que admite também a variante jiguba) provém do quimbundo (kimbundu), língua africana em que ngûba significa amendoim. Na língua quimbunda, como em outras línguas africanas bantus, o plural é feito não pela adição de uma terminação à palavra (como o “-s” do português), mas pela adição de um prefixo – neste caso, o prefixo adicionado é “ji”, de modo que jinguba, em quimbundo, era originalmente o plural de amendoim – amendoins. Em português, o plural quimbundo virou singular: nos países africanos, fala-se “uma jinguba” – palavra já acolhida por todos os dicionários de português, brasileiros e portugueses.

O fenômeno de tomar uma palavra estrangeira no plural e torná-la um singular nada tem de inusitado ou incomum: em português, temos ravióli, singular, tomado do italiano – língua em que, na verdade, ravioli é o plural de um raviolo. Da mesma forma, no Brasil usa-se “brócolis” como singular daquilo que em italiano é, no singular, um broccolo.

Finalmente, há que se apontar que a grafia ginguba, que por vezes se vê, é errada. A forma dicionarizada é jinguba, com j, que é como registram registrada Houaiss, Aurélio, o Priberam e o dicionário da Porto Editora – este último , o melhor dicionário existente no que concerne à acolhida de termos do português africano. O dicionário da Porto admite também jiguba, sem o “n”. Ambas as grafias – com jota, e não com gê – estão em consonância com as regras ortográficas da língua portuguesa que, por convenção e com fins de padronização, mandam usar exclusivamente o jota, e nunca a letra g com som de jota, na grafia portuguesa das palavras de origem bantu (é o contrário, como já vimos, do caso das palavras árabes, em que é o “g”, e não o “j”, que deve ser usado – como vimos na publicação sobre tagine).

Musseque em Angola: favela no Brasil, bairro de lata em Portugal, caniço em Moçambique

Cacuaco
Musseque, em Angola, é um sinônimo de favela (no Brasil), bairro de lata (em Portugal) e caniço (em Moçambique).

No português de Angola, um musseque é um bairro ou uma aglomeração de residência pobres; os musseques correspondem, portanto, às favelas brasileiras, aos bairros de lata de Portugal e aos caniços de Moçambique.

O substantivo musseque (por vezes escrito, equivocadamente, muceque) está devidamente registrado em dicionários brasileiros, como o Aurélio e o Houaiss, e portugueses, como o Priberam e os da Texto Editores, mas a primazia de seu registro é da Porto Editora, que, por meio de sua subsidiária na África (a Plural Editores), tem sido a principal entidade a dicionarizar – e, em consequência, a normatizar – o vocabulário típico do português africano.