Qual é o certo: Cavalo de Przewalski, cavalo-de-Przewalski, cavalo-de-przewalski, cavalo de przewalski?

A Folha de S.Paulo de hoje dá a ótima notícia de que os cavalos-de-przewalski – a única espécie ainda viva de cavalos que nunca foi domesticada pelo homem – está voltando a se reproduzir e a se espalhar pelas estepes da Mongólia, de onde são nativos, depois de terem chegado à extinção em seu meio natural: chegaram a restar não mais que doze cavalos-de-przewalski em todo o mundo na década de 1960; após décadas de um muito bem-sucedido (e não bensucedido) programa de reprodução assistida, hoje são cerca de 2.000 os exemplares vivos dos cavalos selvagens mongóis.

Os cientistas discutem se se trata de uma espécie propriamente ou de uma subespécie (palavra que deve ser escrita sem hífen, e não sub-espécie), mas em todo caso o nome da (sub)espécie vem do russo de origem polonesa Nikolai Przewalski – cujo sobrenome é pronunciado “pcheválski” (o “prz” polonês soa como o “psh” usado para pedir silêncio).

E por que cavalo-de-przewalski, com hifens, e não cavalo de Przewalski? Embora não tenha resolvido a grande bagunça que é a questão do uso do hífen em português, o Acordo Ortográfico de 1990 trouxe pelo menos uma regra bastante clara a respeito das palavras compostas: os nomes compostos de espécies de animais e plantas levarão hífen. Embora totalmente arbitrária, a regra ao menos serve para dirimir as incertezas que existem quanto ao uso (ou não) do hífen em ao menos grande parte dos nomes compostos. Assim, conhecendo essa regra, saber-se-á que o certo é escrever estrela-do-mar, erva-doce, feijão-verde, porco-espinho. Assim, o nome do cavalo efetivamente só pode ser cavalo-de-przewalski. Mas, por se tratar de nome próprio, o nome da espécie não teria de ser cavalo-de-Przewalski? Não; também nesse ponto o Acordo Ortográfico foi claro: os nomes próprios (de pessoas, locais, etc) que fazem parte de nomes de espécies botânicas ou zoológicas perderão a maiúscula, sendo tratados como nomes comuns: rosa-do-japão, erva-de-santa-maria, castanha-do-pará (também chamada de castanha-do-acre, castanha-da-amazônia ou castanha-do-brasil), porquinho-da-índia, louva-a-deus, mico-de-goeldi… e cavalo-de-przewalski. O plural, naturalmente, é cavalos-de-przewalski (e não cavalos-de-przewalskis).

2 comentários sobre “Qual é o certo: Cavalo de Przewalski, cavalo-de-Przewalski, cavalo-de-przewalski, cavalo de przewalski?

    • O que achamos disso? Ora, achamos que o artigo inteiro acaba sendo inútil, por uma falha básica: não diz a fonte, ou o embasamento, o que é que faz que o jeito dele de escrever os números seja “o jeito certo”. Ao mencionar, como faz, um método tão específico de escrita de números, e que contraria todo o uso do Brasil, sem dizer o que as legitima, o autor acaba se saindo como um “caga-regras” – e, pior, como um caga-regras que não sabe sequer a diferença entre o que é língua, português, gramática, e o que são convenções científicas e matemática. Erro, aliás, bem recorrente no Ciberdúvidas, que todo mês faz alguma publicação tosca recriminando quem escreve “1ª” em vez de “1.ª”, porque, dizem eles, em português tem de ser “1.ª”. Estão errados, e ridículos ao serem pedantes em seu erro: o que falam não é sequer questão de português, mas de padronização – e padronização, no máximo, de Portugal. No Brasil, TODOS os gramáticos (Cunha, Luft, Bechara), todos os dicionários (Houaiss, Aurélio, etc.) e todas as publicações da Academia Brasileira de Letras e da imprensa usam os ordinais na forma 1ª, 2º (muito mais agradável que 2.º – e sequer o argumento “lógico” deles tem sentido, pois não se pode dizer que “2.” é a abreviação de “segund-” – no máximo, seria de “dois”). É só ver a capa das gramáticas e livros: o do Bechara vai pela “46ª” edição, o VOLP está em sua “5ª” e tem “381.000” vocábulos, etc. Respondida esta primeira parte (nossa opinião a respeito), vamos aos fatos: nós fomos, sim, atrás daquilo em que esse autor do Ciberdúvidas falhara: a fonte. E existe de fato uma convenção internacional recente, da qual o Brasil foi signatário, que prescreveria o uso de pontos e vírgulas para separar os numerais. Nesse caso, faz todo sentido advogar o fim da grafia “381.000” em prol de uma padronização mundial. Faremos inclusive uma publicação sobre isso – pois, afinal, as pessoas precisam conhecer o texto internacional assinado, o que justificaria uma mudança da praxe secular brasileira; o que não daria seria pra esperar que as pessoas mudassem só porque alguém diz que é assim – ainda mais quando o site em que o autor escreveu é tão conhecido por “cagar regras” – de resto, como a do “1.ª” – que, essa sim, não está regulada por instrumento internacional nenhum, nem tem, como já dissemos, qualquer razão de ser. É, essa sim, pura cagação de regra.

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