“Jogo duplo” não tem hífen

A Folha de S.Paulo publicou hoje que “filho de Cerveró buscou Procuradoria Geral da República após desconfiar de ‘jogo-duplo’ de advogado.

Só em uma manchete, dois erros da Folha – e ambos, erros de mau uso do hífen. “Procuradoria-Geral” (assim como Procurador-Geral, e, via de regra, todo nome de cargo ou função com um substantivo seguido do adjetivo “Geral”) leva hífen, como já escrevemos aqui.

Por outro lado, “jogo duplo” simplesmente não leva nem nunca levou nem teria por que levar hífen. É “jogo duplo”, sem hífen, sempre, desde sempre e para sempre.

Como já dizemos em publicação sobre “senso comum”, o hífen não aparece simplesmente porque queremos, ou de enfeite. O uso original do hífen tem um propósito bem delimitado: marcar o surgimento de um novo termo, formado pela junção de duas ou mais palavras que, quando unidas, ganham um sentido completamente novo, necessariamente diferente da simples soma dos sentidos originais das palavras que o compõem. É por essa razão que a palavra ano-luz, nome de uma medida de distância, leva hífen, mas “ano passado” não; ou por que tio-avô, peixe-espadaporta-vozsegunda-feira têm hifens, mas “pai adotivo” ou “pai dedicado”, “peixe cru” ou “peixe frito”, “porta secreta” ou “porta traseira” e “segunda esposa” ou “segundas núpcias” não levam hífen.

Em “jogo duplo” – assim como em “senso comum”, ou em “greve geral” (tema de outra publicação passada), ou em “hora extra” (idem) não temos uma única palavra, mas duas – “jogo” e “duplo” -, que não têm qualquer motivo para serem ligadas por hífen.

Há, é certo, entre muitos brasileiros e portugueses, uma verdadeira “mania hifenizadora”: uma tendência a colocar hifens em toda e qualquer expressão feita. Há quem escreva, por exemplo, fim-de-semana, décimo-segundo, assembleia-geral – todo errados. O certo é “fim de semana”, “décimo segundo”, “senso comum”: todos sem hífen.

É por essa mesma razão que “jogo duplo” se escreve sem hífen. Por não se tratar de uma palavra, não aparece nos dicionários e vocabulários – mas o sempre excepcional Houaiss traz a expressão, dentro das definições e exemplos do substantivo “jogo”:

jogo duplo  fig.
ato de fingir simultaneamente para dois oponentes estar servindo apenas à sua causa ou aos seus interesses

(Retirado do Grande Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, versão online)

O feminino de membro é membra: a membra, as membras

Na contracapa de um livro de Direito Penal da Editora Saraiva, diz-se que a autora é “membra” do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais. Membra está certo? Existe mesmo a palavra membra?

Sim, existe em português a palavra membra. A palavra membra está devidamente registrada no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) da Academia Brasileira de Letras (quem quiser, pode clicar aqui para conferir) e também no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (fotos a seguir):

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Houaiss define membro apenas como substantivo masculino, e traz, como feminino de membro, a palavra membra. Além disso, o Dicionário Houaiss traz também a palavra membra – substantivo feminino – com definição própria, como “mulher que participa de um grupo ou organização”, e afirma que a palavra já tinha uso em textos e livros portugueses publicados no século retrasado.

Hoje, a palavra “membra”, outrora “pouco usada”, ganha cada vez mais espaço: o recente “Dicionário de formas de tratamento – Guia para o uso das formas de tratamento do português em correspondência formal“, por exemplo, recomenda expressamente que, ao se dirigir a membros da Academia Brasileira de Letras ou da Academia Brasileira de Ciências, a forma correta de tratamento formal a ser utilizada é “Senhor Membro”, apenas para homens; e “Senhora Membra” para as mulheres que integram as referidas Academias.

O feminino membra também aparece em todas as nossas principais editoras e veículos de imprensa: por exemplo, n’O Globo: “…a doutora, membra da Sociedade Brasileira de Dermatologia.; na Revista Veja: “A comentarista independente Anne Gombel, professora francesa e membra da Sociedade Internacional da Menopausa…; no Estado de S. Paulo: “Guga também participou das homenagens a Jennifer Capriati, também nova membra do Hall da Fama“.

Também usam membra, entre outros, jornais e revistas como o Correio Braziliense, O Tempo, Revista Globo Rural, Revista Marie Claire, G1.com (Portal de Notícias da Globo), Revista GalileuRevista CriativaGazetaElPaísRevista Rolling Stone, Revista Leitura, etc.

Numerosos livros também trazem, exatamente como a obra que motivou a pergunta com que iniciamos este texto, a informação de que sua autora é membra de uma ou mais organizações relevantes para o tema tratado – não apenas no Brasil, mas também em Portugal: uma das autoras do Código do IVA e RITI descreve-se como “Doutora pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e membra do VAT Expert Group da União Europeia.”

A palavra membra também ocorre em outras publicações de Portugal, Angola e Moçambique.

Há ainda ocorrências de menções a “deputada membra do parlamento sueco“, ou a que “a Dinamarca é membra da União Europeia“, ou a que “a Caixa Econômica Federal é instituição membra da Administração Pública”, ou a que (neste caso há milhares de ocorrências) uma mulher é membra de uma igreja ou de uma congregação.

Encontramos ainda a palavra em publicações da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ (“…é membra efetiva da Academia Brasileira de Letras (ABL)” e da Universidade de São Paulo – USP (“Membra da Academia Brasileira de Letras, foi eleita em 27 de julho de 1989, na sucessão de Aurélio Buarque de Holanda…”), bem como na Revista Acadêmica da Faculdade de Ciências do Recife.

Tudo isso – ainda que já não estivesse a palavra membra devidamente registrada no Vocabulário da Academia Brasileira de Letras e no Dicionário Houaiss – seria já suficiente para declarar que, obviamente, estará errado qualquer um que, em 2015, afirme que “não existe a palavra membra”.

“Vale a pena”, sempre sem crase (e não “vale à pena”)

O certo é que algo “vale a pena” ou “vale à pena” – com crase ou sem: Vale a pena tem crase

Não, vale a pena não leva crase. Pode anotar: “vale a pena” é sempre sem crase; não há qualquer acento na expressão “vale a pena”.

O motivo, muito simples, é que o “a”, nesse caso, é simplesmente o artigo feminino (“a pena”, “as penas”). Não há preposição nesse caso (e a crase – “à” – é o somatório de um “a” artigo com um “a” preposição).

Basta fazer a analogia com o masculino: questionar-se se algo “vale a pena” é o mesmo que questionar se algo “vale o esforço”. Como se diz que algo vale (ou valeu, ou valerá) “o esforço” (e não “ao esforço”), deve-se dizer que algo vale ou não a pena.

Serve, igualmente, a ideologia com outras línguas: em espanhol, dizemos que “algo vale la pena”  (e não “a la pena“), e em francês, que algo “vaut la peine” – e ainda, em inglês, que algo “is worth the pain”. Em todos os casos, há apenas o artigo feminino: “vale la pena“, “ça vaut la peine”, “it’s worth the pain”, sem preposição – exatamente como em português, razão pela qual se deve escrever, sempre sem crase: “Vale a pena”; “Vai valer a pena”; “Não vale a pena”; “Valeu a pena”; “Não valerá a pena” (e não “à pena”).

Tudo vale a pena se a alma não é pequena
Fernando Pessoa

ISIS, Estado Islâmico, Daesh ou Daexe?

O grupo terrorista “Estado Islâmico” tem muitos nomes: na imprensa brasileira, há uma salada de siglas – os jornais usam EI; EII; EIIL; ou EIIS. Telejornais brasileiros (e a presidente Dilma Rousseff) dizem “ISIS“. Barack Obama chama-os “ISIL” (pronunciado “Áicel”), mas seu secretário de Estado usa “Daesh” – em sintonia com o presidente da França, que usa exclusivamente “Daech”. Afinal, por que tantos nomes e siglas para um mesmo grupo terrorista?

O grupo radical foi fundado com o longo nome (em árabe) “O Estado Islâmico no Iraque e na Síria”.

Assim, num primeiro momento, a maioria dos meios de comunicação usaram a tradução “Estado Islâmico no Iraque e na Síria” – em inglês, Islamic State in Iraq and Syria, abreviada como ISIS (pronunciada aproximadamente, em inglês, “Áices”). A tradução letra a letra ao português (assim como ao francês ou ao espanhol) resultaria na sigla EIIS, que, por não ter a mesma sonoridade que ISIS, acabou não ganhando popularidade. No Brasil, consagrou-se mesmo a pronúncia “Ísis” (idêntica à do nome feminino).

Logo houve, porém, vozes a apontar que a tradução que vinha sendo usada em inglês podia não ser a mais apropriada, uma vez que a última palavra do nome do grupo, “Síria” (Xam, em árabe) podia não significar aquilo que a maioria da população ocidental supunha.

A rigor, Xam de fato significa literalmente “Síria”. A questão é que “Síria” pode significar (não apenas em árabe, mas mesmo em português) tanto o país atual, cuja capital é Damasco, quanto toda a chamada região da “Síria histórica” ou da “Grande Síria” – região que abrange não apenas a atual Síria, mas países ao redor, como Jordânia, Líbano, Israel e Palestina.

Como logo ficou claro que o grupo terrorista não planejava se limitar aos territórios do Iraque e da Síria moderna – e com vistas a tentar “facilitar as coisas” para seus espectadores e evitar possíveis ambiguidades -, alguns jornalistas e analistas tomaram a liberdade de começar a traduzir o Xam do nome do grupo não mais como “Síria” (ou “Grande Síria”), mas como “Levante” – termo que, embora não seja tradução correta de Xam, tem significado próximo o suficiente para “quebrar o galho”, com a vantagem de ser mais conhecido do público ocidental.

Ganhou, assim, popularidade a tradução “Estado Islâmico no Iraque e no Levante” – em inglês, Islamic State in Iraq and the Levant (abreviado como ISIL – ou, em português, espanhol e francês, EIIL).

No início de 2015, o próprio grupo terrorista mudou oficialmente de nome: segundo anunciado pelos próprios criminosos, o grupo passava a chamar-se apenas “Estado Islâmico”, sem qualquer complemento – numa clara evidência das aspirações universalistas do grupo.

Desde logo, muitas vozes em todo o mundo árabe (e em todo o mundo) se opuseram ao uso do nome “Estado Islâmico” – adotá-lo, diziam, seria atender a um pedido dos próprios terroristas; e, ademais, seria legitimá-los, ao tratá-los como um “Estado” de fato (algo que nenhum país do mundo reconhece). Ademais, estar-se-ia corroborando uma associação incorreta entre os terroristas e a religião islâmica (ou muçulmana), ao chamar “islâmico” ao grupo terrorista, rejeitado pela grande maioria dos muçulmanos do mundo.

No lugar de “Estado Islâmico”, vem ganhando então popularidade a alternativa “Daesh” – transliteração inglesa da sigla pela qual o grupo terrorista é chamado em árabe. O presidente da França, François Hollande, e o equivalente a ministro das Relações Exteriores dos EUA, o Secretário de Estado John Kerry, passaram a referir-se oficialmente aos terroristas como “Daesh” ou “Daech”.

Daesh” nada mais é, porém, que “ISIS” em árabe – ou seja, a sigla formada pelas quatro iniciais das quatro palavras principais do nome “Estado Islâmico no Iraque e na Síria (ou no Levante)”.

A sigla, na verdade, é “D.A.E.Sh“: “Estado” em árabe é “Dawla” (de onde vem o “D”);  o adjetivo “islâmico” no nome é escrito “al-islāmiya” (do qual vem o “A”); em árabe, “Iraque” pode ser pronunciado com “I” ou com “E” inicial – donde vem a letra “E” da sigla; e do nosso já mencionado Xam, que significa Síria (seja a Síria moderna, seja a Grande Síria histórica) em árabe, vem a última letra – em inglês representada por duas letras (sh), razão pela qual a sigla, que, só tem quatro letras em árabe, acaba transliterada em inglês com cinco: DAESH. Em francês, da mesma forma, o som representado em inglês por “sh” é escrito com um dígrafo: “ch” – razão pela qual os franceses escrevem Daech, com ch em vez de sh.

Por não existir um método oficial ou único de escrever, com o alfabeto latino, palavras árabes, é comum encontrar várias outras grafias tanto em francês quanto em inglês – Daish, Daich, Da’ich, Da’ish, Da’es, etc.

Da mesma forma, não faria sentido adotar em português a transliteração da língua inglesa (Daesh), ou a francesa (Daech), ou a alemã (Daesch), etc. Em português, a letra que inicia a palavra Xam sempre foi grafada com o nosso “x”. Pela mesma razão que em inglês se escreve sheikh e em francês, cheikh, o título árabe chamado xeique ou xeque em português – ou pela qual escrevemos xiitas, enquanto franceses escrevem chiites e os ingleses, Shias – é que a adaptação, ao português, do nome árabe do grupo Estado Islâmico (Daesh em inglês, Daech em francês) é, em português, Daexe.

É essa, aliás, a forma corretamente usada pela União Europeia, que, ao traduzir para cada uma de suas suas 23 línguas oficiais uma “Proposta de resolução do Parlamento Europeu sobre o perigo do Daexe na Turquia” usou, corretamente, o aportuguesmento Daexe.

A questão, porém, é: por que é melhor (ou mais “politicamente correto”) chamar os terroristas pelo nome de Daexe ou Daesh, e não de “Estado Islâmico”?

Não há diferença entre “Daexe” e a já popular “ISIS” em termos de significado: ambas significam exatamente o mesmo, sendo ambas siglas que usam o nome original do autointitulado “Estado Islâmico” – com a diferença de que esta é o aportuguesamento, já popularizado, da sigla inglesa, enquanto aquela seria um aportuguesamento, ainda a ser divulgado, da forma árabe.

Nos EUA e na Europa vem ganhando, porém, força o argumento de que convém usar as formas Daesh/Daech/etc. porque os próprios terroristas supostamente detestariam o nome – e porque a palavra, em árabe, seria um trocadilho, uma vez que “Daexe” soaria similar à palavra árabe Daes, com sentido pejorativo.

De fato, a palavra árabe Daes significa “pisotear”, “esmagar ou triturar pisando em cima”. “Daesh“, assim, soaria parecido com “pisoteador(es)”, “esmagador(es)”. Ainda assim, diz a imprensa internacional, o próprio grupo terrorista “detestaria” a sigla, e teria ameaçado “cortar a língua” de quem o utilizasse.

A verdade, porém, é que todos os artigos e notícias que defendem o uso de “Daesh” com base na teoria de que os terroristas “detestaria” esse nome remetem a uma mesma fonte com a história da suposta ameaça dos terroristas de cortar línguas de quem o usasse – sem que exista, porém, qualquer comprovação ou sequer evidência de que a história seja real (até porque, sejamos honestos: ser conhecidos como “esmagadores” não parece ser algo realmente pejorativo para um grupo famoso por decapitar, queimar ou jogar do alto de edifícios suas vítimas).

O que sim é provável é que os terroristas não gostem de ser chamados de Daesh/Daech/Daexe – tanto quanto não devem gostar de ser chamados de ISIL, EIIL, etc. -, por duas razões muito mais simples.

Em primeiro lugar, porque qualquer uma dessas siglas – Daexe ou Daech, ISIS ou ISIL – se referem ao nome antigo, que ainda fazia referência à limitação gegráfica do grupo ao Iraque e à Síria, e seu uso mesmo após o grupo ter dito que seu nome atual é apenas “Estado Islâmico” pode ser interpretado como um rechaço ao novo nome pelo qual querem ser chamados e um desafio a sua autoridade.

E em segundo lugar porque – esse é um fato que a maioria dos jornalistas e articulistas ocidentais têm falhado em explicar – o fato é que a língua árabe, diferentemente das línguas ocidentail, normalmente não usa siglas – em inglês, português, francês, etc., é normal chamar os EUA de “os EUA”, e  a ONU de “a ONU”; em árabe, não há essa tradição – não há, na língua, a tradição de se criar palavras novas (como “ONU”), com sons próprios, de modo que toda e qualquer sigla usada como uma palavra simplesmente “soa” mal aos ouvidos tradicionalistas árabes. Ser chamado por uma “palavra inventada”, que não significa nada, é o que mais provavelmente desagrada aos terroristas.

É importante notar, porém, que, por essa lógica, absolutamente nenhuma diferença faz que o termo usado seja Daesh/Daexe ou ISIL/EIIL.

De fato, não há qualquer razão para que Barack Obama pare de usar ISIL ou ISIS e passe a usar Daesh, para que François Hollande pare de usar as siglas em favor de Daech, nem para que qualquer falante de português passe a falar e escrever Daexe apenas por achar que essa é uma forma que desagrada aos próprios terroristas. O que os terroristas querem é ser chamados de “Estado Islâmico” – qualquer sigla que se use é considerada desrespeitosa por eles, inclusive pela falta de tradição de uso de siglas na cultura árabe. Se a sigla Daexe ou Daesh significa, porém, exatamente o mesmo que ISIS, não há por que deixar de usar, no Brasil e em Portugal, a forma com a qual já nos habituamos: “o  ISIS” (pronunciado “Ísis”) – além de já ser a forma popularizada, ISIS tem ainda um “extra” – afinal, não há como negar que “pisoteadores” deve desagradar menos a um grupo de terroristas que subjugam mulheres e odeiam todas as outras religiões do que serem chamados pelo nome de uma antiga deusa egípcia.

Assim que, ao menos por aqui, continuaremos a usar ISIS.

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Ísis, deusa dos antigos egípcios

 

Quórum: em português, com acento (quórum, não quorum)

A reunião foi adiada por falta de quórum – com acento. Vem da palavra em latim “quorum“, que significava “número mínimo necessário”. Em português, leva obrigatoriamente acento,  por ser paroxítona terminada em “-um”:  o quórum. É o mesmo caso de fórum, álbum, etc. Está assim, com acento, nos principais dicionários, como o Aurélio, o novo Houaiss, o Aulete e o Priberam. Eis a definição de quórum no Dicionário Aurélio:

quórum
[Do lat. quorum, ‘(o número) dos quais (é necessário)’.]
Substantivo masculino.

1. 
Número mínimo de pessoas presentes exigido por lei ou estatuto para que um órgão coletivo funcione.

O plural em português, raramente usado, é quóruns, também com acento agudo obrigatório.

 

 

Um tapa ou “uma tapa” na cara?

Em resposta de ontem, sobre palavras que podem ser indistintamente usadas com artigo feminino ou masculino (como “uma lhama” ou “um lhama”, a diabetes ou o diabetes, o avestruz ou a avestruz, o personagem ou a personagem, o sabiá ou a sabiá, o sentinela ou a sentinela), demos também, como exemplo, a palavra “tapa”. Um leitor escreveu-nos então para questionar a afirmação, dizendo que “nesse caso é diferente: a tapa é outra coisa; o tapa (palmada com a mão), por exemplo ‘tapa na cara’, é sempre no masculino: um tapa, o tapa, não é?”

Não, não é: exatamente como os demais exemplos dados, uma palmada pode ser chamada de “um tapa” ou de “uma tapa”. Estamos, nos dois casos, referindo-nos apenas a tapa como sentido de “palmada”, golpe ou contato que se faz com a mão aberta, com a palma da mão (não estamos, portanto, considerando a palavra espanhola tapa, cada vez mais usada em português – embora essa, sempre no feminino – para designar pequenas porções de comida).

Focando-nos, portanto, na língua portuguesa, nas palmadas: embora no Sul e no Sudeste do Brasil (o que inclui nossas duas maiores cidades, São Paulo e Rio de Janeiro) se fale em “uns tapas”, “o tapa”(“um tapinha nas costas”, “dar um tapa”), em grande parte do Brasil, sobretudo (mas não apenas) no Norte e no Nordeste, assim como em Portugal, diz-se”uma tapa”: “deu uma tapinha no braço do filho”, “levou umas tapas”, “ganhei umas tapinhas nas costas”.

Exemplos disso são a expressão “umas tapinhas nas costas”, nesta reportagem da Folha de Pernambuco, ou esta manchete do Correio Braziliense (principal jornal da capital, Brasília): OLP diz que projeto de colônias em Jerusalém é uma “tapa na cara” nos EUA.

Interessante também é o relato do professor Pasquale, consultor de língua portuguesa da carioca Rede Globo e do jornal Folha de S.Paulo, que relatou certa vez que, ao viajar a Belém do Pará, parado numa fila, ouviu uma mulher falando a outra que alguém dera “uma tapa” em outro alguém. “E eu, que sempre ensinara que ‘tapa’ podia ser palavra masculina ou feminina – como está nos dicionários! – finalmente descobria que aquilo era real, e não mera maluquice de gramáticos”, concluiu o professor à época.

Quem nasce em Macau é macaense

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Quem nasce em Macau é o quê? Macau, como se sabe, é uma região administrativa da China, antiga colônia portuguesa, onde o português é língua oficial. Mas quem nasce em Macau é chamado como? Qual o gentílico de Macau?

Numa resposta rápida, o gentílico de Macau é macaense – única forma usada pelos próprios macaenses e pelo governo macaense (ver exemplos abaixo).

Uma consulta a muitos dicionários, porém, não responderia isso: a maioria dos dicionários traz, com o mesmo destaque (ou às vezes até mais) que a macaense, os “sinônimos” macaísta, macauenho, macauês, macauense; nenhuma dessas formas, porém, tem uso de fato.

Erram, nesse ponto, os dicionários: colocar essas opções todas como sinônimas seria o mesmo que colocar num dicionário que o gentílico referente ao Brasil pode ser indistintamente “brasiliano”, “brasilês”, “brasílico”, “brasilíada”, “brasílio”, “brasil”, “brasilense” ou “brasiliense” – sim, originalmente, “brasiliense” referia-se a todo o país – e, a rigor, ainda pode ser usado nesse sentido, mas todo brasileiro sabe que brasiliense, hoje, é usado quase exclusivamente apenas como gentílico de Brasília, a capital do país.

Como se pode ver, a língua portuguesa é riquíssima em sufixos que podem formar gentílicos, sendo exemplos: –ense (singapurense), –ês (neozelandês), –ano (moçambicano), –ão (afegão), –enho (panamenho), –ino (argentino), –ita (iemenita), -o (turco, líbio), –ol (mongol), –ota (cipriota), além de empréstimos como a terminação árabe -i (omani, somali, saarauí).

Assim, é comum que a um mesmo topônimo correspondam múltiplas formas gentílicas dicionarizadas – Houaiss, por exemplo, registra, como formas possíveis para o Vietnã “vietnamense”, “vietnamês”, “vietnamiano” e “vietnamita” – mas é esta última a única de uso efetivamente corrente em português. A abundância de formas atestadas em vocabulários e dicionários não implica haver o mesmo número de formas em uso prático e corrente.

Em regra, independentemente dos registros, uma única forma acaba por consolidar-se no uso geral da língua – como, em outro exemplo, acabou por ocorrer com “brasileiro”, que substituiu as demais opções acima listadas; ou com “português”, que substituiu variantes como portucalense; ou com “angolano”, em detrimento da hoje obsoleta “angolense”, ou “guineense” em lugar de “guinéu”, etc.

Da mesma forma, resulta no mínimo enganoso ensinar (como ensinam alguns livros, dicionários e gramáticas) que macaísta é gentílico de Macau – uma vez que, na prática, essa forma não é usada (sobretudo não em Macau). O gentílico consagrado referente a Macau, na China, é macaense (sem o “u”), forma invariável no feminino; e é a única forma usada (em português, é claro) pelo próprio governo macaense (como se pode ver aqui,  aqui, aqui, aqui ou aqui).