“Tendo aceito”, “tinha aceito”, “ter aceito”: formas corretas em português

É errado dizer “tinham aceito” (em vez de “tinham aceitado”)? E “tendo aceito”? “Ter aceito”? Não, todas estão corretas: não há erro gramatical no uso do particípio irregular (“aceito”) no lugar do particípio regular (“aceitado”), mesmo com o verbo “ter”.

Ao contrário do que “ensinam”, equivocadamente, certos “resumões” de gramática feitos para concurseiros, não existe nenhuma regra gramatical que proíba o uso de “ter aceito”, expressão absolutamente correta gramaticalmente e abonada por gramáticos como Said Ali, Paschoal Cegalla e Rocha Lima, e fartamente usado por autores desde o Padre Antonio Vieira até os melhores de nossos dias.

Há anos ocorre com força um processo de padronização e sistematização de todo o conteúdo escolar, todo ele – da química e matemática até as línguas – destrinchado em “esquemas”, “regrinhas” e decoreba. O problema maior é que muitas dessas regrinhas e esquemas enfiados goela abaixo dos alunos, inventados por cursinhos ou por autores de livros de cursinhos, não têm qualquer amparo na realidade da matéria sobre a qual supostamente versam.

É o caso de várias “regras” gramaticais inventadas em anos recentes por autores de apostilas para concursos e vestibulares, que, em seu afã por encontrar “esquemas” simplificadores e fórmulas prontas, decretaram uma regra, inexistente na gramática normativa, segundo a qual os particípios regulares (ou longos), como “elegido”, “imprimido” e “aceitado”, seriam as únicas corretas em compostos com os verbos “ter” e “haver”, enquanto os particípios irregulares (ou curtos), como “eleito”, “impresso” e “aceito”, seriam os únicos permitidos em compostos com os verbos “ser” ou “estar”.

Segundo essa “regra”, as expressões “Tinham aceito” ou “Tendo aceito” estariam gramaticalmente erradas, devendo obrigatoriamente ser corrigidas, na linguagem formal, para “Tinham aceitado” ou “Tendo aceitado”. Criaram esses falsos gramáticos uma suposta regra com base no que não era sequer uma recomendação, mas uma constatação histórica feita por bons gramáticos da língua: que existem verbos com dois particípios, um regular e um irregular (como salvado e salvo, enxugado e enxuto) e que, de modo geral, os falantes da língua naturalmente tenderiam a preferir o uso da forma longa em compostos com os verbos “ter” ou “haver”, e o das formas curtas com “ser” e “estar”.

Em sua sempre atual Novíssima Gramática da Língua Portuguesa, Paschoal Cegalla ensina: “As formas participais regulares usam-se, em regra, com os auxiliares terhaver, na voz ativa, e as irregulares com os auxiliares serestar, na voz passiva”. O brilhante gramático, porém,  emenda imediatamente: “Essa regra, no entanto, não é seguida rigorosamente, havendo numerosas formas irregulares que se usam tanto na voz ativa como na passiva, e algumas formas regulares também empregadas na voz passiva. Exemplos: Tinha aceitado ou aceito o convite”, e continua com dezenas de outros exemplos, antes de concluir que “As formas irregulares, sem dúvida por serem mais breves, gozam de franca preferência, na língua atual, e algumas tanto se impuseram que acabaram por suplantar as concorrentes. É o caso de ganho e pago, que vêm tornando obsoletos os particípios ganhado e pagado.”

Na Gramática Normativa da Língua Portuguesa, Rocha Lima assim ensina o tema: “O particípio regular de alguns destes verbos emprega-se junto do verbo ter; e o particípio irregular, não só ao lado de ter, mas também de ser. Exemplo: Tenho aceitado (ou aceito) trabalhos demais este ano.” Novamente, o verbo aceitar foi literalmente o primeiro mencionado por um dos maiores gramáticos da língua portuguesa ao discorrer sobre a possibilidade de uso seja da forma regular, seja da forma irregular, em locuções com o verbo ter.

Em sua célebre Gramática Histórica da Língua Portuguesa, Said Ali afirma que já no século XVI, “conjuntamente com o particípio aceitado, andava em uso o vocábulo aceito”, tendo “em português hodierno a forma aceito concorrência com aceitado“. Como exemplo do uso de “aceito” com o verbo “ter”, destaca partes dos Sermões do Padre Antonio Vieira, como: “A mesma lançada que recebeu depois de morto, já a tinha antevisto e aceito, estando vivo.

Em seu “Guia de Usos do Português – Confrontando Regras e Usos”, de 2003, Maria Helena de Moura Neves constata que, quatrocentos anos depois de Vieira, a alternância segue a mesma: “A forma de particípio aceitado é usada com os auxiliares ter haver. A forma aceito é mais usada com ser estar. Aceito também se usa, porém, com ter e haver.”

3 comentários sobre ““Tendo aceito”, “tinha aceito”, “ter aceito”: formas corretas em português

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