A palavra “Maláui”, em português, precisaria de acento? Não poderia ser “Malaui”, sem acento?

Bandeiras dos Paises

Após ter lido a resposta em que explicamos por que o melhor aportuguesamento possível para o nome do Malawi, país africano vizinho a Moçambique, é Maláui (e não Malavi, Malávi ou Malauí, etc.), um leitor pergunta-nos: “Pelas regras de acentuação do português, a palavra “Maláui” em português precisaria mesmo de acento? Se fosse “Malaui”, sem acento, não se pronunciaria igual?

Para que se leia em português “Maláui”, a palavra precisa de acento agudo no “a”. A grafia Malaui, sem qualquer acento, não representaria a pronúncia “Maláui”, mas sim a pronúncia (incorreta) Malaúi.

A grafia Malaui não pode corresponder à pronúncia “Maláui” com base nas regras que determinam a acentuação gráfica da língua portuguesa – e é importante frisar: isso vale tanto para a “velha ortografia” usada em Portugal, Timor e nos países africanos (Acordo de 1945, não ratificado pelo Brasil), quanto para a “velha ortografia” brasileira (Formulário de 1943) e, ainda, para a “nova ortografia” comum a todos os países de língua portuguesa (Acordo de 1990, em vigor desde 2009).

Tanto nas regras ortográficas “velhas” quanto nas novas há a obrigatoriedade de acentuar as palavras paroxítonas terminadas em “-i” formando hiato; acentuar todas as palavras proparoxítonas; e acentuar as palavras paroxítonas terminadas em ditongo.

O Acordo de 1990 admite existirem palavras cuja divisão silábica difere de país a país ou mesmo de pessoa a pessoa – é esse o caso de “Malaui“; o importante, porém, é notar que, independentemente da divisão silábica que se faça, a palavra “Malaui” obrigatoriamente terá de levar acento gráfico na vogal “a” para que essa seja a vogal tônica da palavra:

  • se se considera que a correta divisão silábica da palavra Malaui é Ma-lau-i, estamos diante de uma palavra paroxítona terminada em “-i”, o que obriga acento; estaríamos ainda diante de um hiato, o que também obriga o acento;
  • se se considerasse que a correta divisão silábica da palavra é Ma-la-u-i, estaremos diante de (além de um hiato) uma palavra proparoxítona, que deve ser acentuada pela regra expressa no Acordo Ortográfico de acentuar todas as palavras “proparoxítonas, reais ou aparentes” (o texto do Acordo define como “proparoxítonas aparentes” as palavras terminadas em ditongos crescentes, e dá, como exemplos de proparoxítonas aparentes, as palavras Islândia, Mântua e serôdio).
  • se, por fim, se considerasse que a correta divisão silábica de Malaui é Ma-lá-ui, estaríamos diante de uma palavra paroxítona terminada por ditongo (como tênue, calúnia, órgão, jóquei).

A obrigatoriedade do acento poderia ter sido, ademais, constatada pela simples lógica da complementaridade da acentuação da língua portuguesa: as palavras “palavra” ou “portuguesa” não precisam de acentos porque, mesmo sem os acentos, só podem ser lidas com a sílaba tônica correta: palávra, portuguêsa. Já as palavras “lógica”, “língua”, “porém” e “português” precisam levar acentos, pois, sem eles, a pronúncia natural dos quatro vocábulos seria “logíca“, “lingúa“, “pôrem” e “portúgues“.

Assim, “Maláui” precisa ser acentuada porque, sem o acento, a pronúncia automática (ditada pelas regras da ortografia portuguesa) da palavra “Malaui” seria Malaúi. A inexistente pronúncia Malaúi é que, pelas regras ortográficas da língua portuguesa, dispensaria o acento; a Base X do Acordo Ortográfico de 1990, especificamente intitulada “Da acentuação das vogais tônicas grafadas i e u das palavras oxítonas e paroxítonas“, traz, em seu parágrafo 6º, instrução clara: “Prescinde-se do acento agudo nos ditongos tônicos grafados iu e ui, quando precedidos de vogal: distraiu, instruiu, pauis (plural de paul).

É ainda com base nessas regras que o Acordo enfatiza que não se deve acentuar, por exemplo, a palavra “argui”, pronunciada argúi, pois mesmo sem acento a pronúncia obrigatória da grafia “argui” já é “argúi” (assim como a pronúncia de pauis – sinônimo raro de “pântanos” – já é paúis, e assim como a pronúncia da eventual grafia malaui, portanto, seria “malaúi”).

A menos que se tencione, portanto, que a pronúncia do nome do país seja “malaúi“, é obrigatório, na grafia aportuguesada do nome do país africano, acentuar  o segundo “a”:  Maláui, a República do Maláui (que é como está nos Dicionários Aurélio – foto a seguir -, Priberam Aulete).

Vale frisar, por fim, que também é lícito em português manter a grafia “original” estrangeira, Malawi, como está expressamente mencionado no texto do Acordo Ortográfico de 1990, na seção sobre o uso de nomes próprios estrangeiros (de pessoas e países).

Dicionário Aurélio:IMG_9944

6 comentários sobre “A palavra “Maláui”, em português, precisaria de acento? Não poderia ser “Malaui”, sem acento?

  1. Pingback: Malawi: Maláui, Malaui, Malauí, Malavi ou Malávi? | DicionarioeGramatica.com.br

    • Você está certíssimo, Luciano. Também nós temos ciência desse erro do Houaiss. Felizmente, o Aurélio, o Aulete, o Sacconi, o Luft, etc., trazem Maláui corretamente, com acento, exatamente como o fazem os dicionários portugueses. A única exceção é o Houaiss.

      Como todo dicionário, o Houaiss tem erros. Basta ver, para citar alguns específicos da edição a que o consulente alude (a de 2009): “gandhismo” é ali definido como algo referente a “Ghandi”; Alca, como uma organização internacional “criada em 1994” (como se sabe, a Alca nunca chegou a ser criada); joinvilense seria o gentílico de uma tal “Joinvile”; misturam-se “broxa” e “brocha” (na contramão, como já mostramos aqui, de toda a história da língua e de todos os demais dicionários, inclusive o da Academia Brasileira de Letras); incluíram como portuguesa a forma pachto, embora, se tivessem ido ao excelente Dicionário Inglês-Português publicado em vida pelo próprio Houaiss, teriam visto que em português a língua se chama, há séculos, pastó; e ainda definem a tal língua como a falada em um certo “Emirado Islâmico do Afeganistão”.

      Mas nenhum dos vários lapsos do dicionário (e há centenas de outros) em nada tira o mérito do Houaiss, que é de longe o maior dicionário contemporâneo da língua portuguesa e se diferencia de todos os concorrentes pela qualidade das definições, quase enciclopédicas. Mas mesmo o Houaiss só faz confirmar a velha máxima de que “os dicionários são como relógios”: mesmo o pior deles é melhor do que nenhum; mas mesmo o melhor deles não é nem nunca será 100% preciso.

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  2. Pingback: “Malawi” é português, sim | DicionarioeGramatica.com

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