Sim, está correto dizer “Tinha salvo”, “ter salvo” (ou salvado): os duplos particípios e as falsas regras de cursinhos

Está correto dizer “Eu tinha salvo o arquivo” ou o certo seria dizer “Eu tinha salvado o arquivo”?

A resposta a essa pergunta é basicamente a mesma que a dada anteriormente à questão sobre a correção gramatical de formas como “ter aceito” ou “ter aceitado”, “tinha aceito” ou tinha “aceitado”. A única resposta correta é que é perfeitamente correta a expressão “ter salvo” e que, gramaticalmente, é absolutamente correto dizer que se “tinha salvo” algo. Como já prevenimos na publicação anterior, porém, de poucos anos para cá, a proliferação e a popularização de “esquemas” simplificadores de matérias para concursos e vestibulares foram responsáveis pela disseminação de supostas regras e “regrinhas” sem nenhum respaldo científico ou histórico.

É esse o caso, por exemplo, da “fórmula mágica”, simplesmente equivocada e falsa, segundo a qual, nos verbos com duplo particípio, a forma longa seria usada com os verbos “ter” e “haver”, e o particípio curto, com os verbos “ser” e “estar”. Segundo cegamente esse “esquema”, tem-se enfiado anualmente em milhares de vestibulandos e concurseiros brasileiros as falsas premissas de que é gramaticalmente errado dizer “Tinha aceito o convite” ou “A cidade já tinha eleito um novo prefeito”, ou de que, em pares como “Haviam pagado” e “Haviam pago”, “ganho” e “ganhado”, “gasto” e “gastado”, etc., apenas uma das opções é correta, e a outra, um erro gramatical.

Essa “regra” absurda, hoje encontrada na maioria dos “esquemas” de gramática de cursinhos, nunca teve nem tem respaldo nas boas gramáticas da língua – desde Moraes Silva até Rocha Lima; de Napoleão Mendes de Almeida a Bechara; de Said Ali a Paschoal Cegalla.

Em sua campeão de vendas Novíssima Gramática da Língua Portuguesa (fotos abaixo), Paschoal Cegalla é taxativo ao afirmar: há “numerosas formas irregulares” que se usam tanto com “ser” e “estar” quanto com “ter” e “haver” – e dá, como exemplos, aceitoeleitoexpulso, extinto, impressoganhogastopegopago, etc. O gramática abona sua afirmação com exemplos históricos e contemporâneos de bons autores: “Podia ter salvo a rapariga” (Érico Verissimo); “Anda, abraça Brígida. É quem tem salvo teu pai.” (Geraldo Vieira); “Um dos rapazes que o havia salvo era…” (Antônio Calado); “…ganhou uma medalha de ouro por haver salvo duas criancinhas num incêndio…” (Austregésilo de Ataíde, ex-Presidente da Academia Brasileira de Letras).

É vexaminosamente equivocada, portanto, a falsa “regrinha” que, originária de materiais de baixa qualidade produzidos para cursinhos, vem se disseminando em anos recentes, segundo a qual seria incorreto dizer “Tínhamos aceito”, “Fomos envolvidos”, “Eu havia salvo o texto”, “As velas eram acendidas”, “Eles já tinham pago”, “Já haviam gastado”, etc.


Não confie em “dicas” e “macetes” de cursinhos,
apostilas ou “esquemas” para vestibulares ou concursos;
confie em boas gramáticas, como a de Cegalla.

Um comentário sobre “Sim, está correto dizer “Tinha salvo”, “ter salvo” (ou salvado): os duplos particípios e as falsas regras de cursinhos

  1. Interessante.
    Mas não acho que seja de poucos anos pra cá.
    Não vou revelar minha idade (risos) mas aprendi a “regra” das formas regulares quando na forma ativa nos anos 80 em uma gramática bastante conceituada, que obviamente não me recordo o autor.
    Abraços

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