Miliardário (e não milhardário), assim como biliardário (e milionário, bilionário, trilionário)

Após entrevistar o presidente da Câmara dos Deputados (de novo ele), a Folha de S.Paulo escreve que o parlamentar contesta a versão da “gente dizendo que tenho bilhão de dólar, que sou milhardário“. A palavra “milhardário“, constante da reportagem, está errada: a grafia correta é miliardário.

Um miliardário é, segundo todos os principais dicionários (Aulete, Aurélio, Houaiss, Michaelis, Porto, Priberam), alguém “com muito dinheiro“, “muitíssimo rico“.

O dicionário original de Caldas Aulete, publicado dois séculos atrás, já trazia o adjetivo e substantivo miliardário como sinônimo de bilionário.

Os dicionários brasileiros incluem ainda a variante biliardário, que pode ser tanto sinônima de bilionário (alguém que tem bilhões) quanto de multimilionário (alguém que tem muitos milhões – seja de dólares, euros, reais, etc.).

Apesar de o número 1.000.000 ser escrito milhão e de seu plural ser milhões (ambos com “lh”), os derivados da palavra “milhão” se escrevem não com “lh”, mas com “li”: milionário (e não milhonário), multimilionário, miliardáriotrilionário, milionésimo, “a milionésima vez”, milionarismo, bilionésima, bilionáriobilionáriabiliardário, biliardária, etc. A única palavra que oferece alternativa é bilião, que também pode ser escrita bilhão.

Uma característica marcante do português modernamente falado em grande parte do Brasil (incluído o Rio de Janeiro, de onde procede o deputado) é a palatalização de consoantes precedidas da letra “i” – não apenas nos casos, já amplamente estudados e analisados,  do “d” e do “t” (que fazem, por exemplo, que a palavra “diurno”, na maior parte do Brasil, possa ser pronunciada “djurno“, ou que a palavra “tiara” possa ser pronunciada “tchara“), mas também no caso do L: embora nenhum dos nossos grandes gramáticos e foneticistas o tenha analisado, é fato que, em grande parte do Brasil (incluindo o RJ), não se faz diferença na pronúncia entre “bilhão” ou “bilião” – ou entre uma “velhinha” (uma mulher velha) e uma “velinha” (uma vela pequena).

Por essa razão, e por ter se tratado de entrevista oral (e não por escrito), não se pode atribuir ao parlamentar erro de pronúncia; o jornal é que, nesse caso, escorregou na grafia da palavra miliardário.

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