Quanto mede uma légua? Depende.

A medida de uma légua varia: depende do local, da época – e do dicionário que a define:

Segundo o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, de Caldas Aulete, de 1881, légua é “medida itinerária cuja extensão varia segundo as épocas e países:
4 km (França, atualmente);
4,24 km (Espanha, época colonial);
4,33 km (Paraguai);
4,83 km (países de língua inglesa);
5 km (pelo sistema métrico);
5,2 (Argentina);
5,555 km (légua marítima)
5,60 (Bolívia);
5,96 (légua marítima usada por Cristóvão Colombo);
6 km (Brasil, atualmente)
6,179 km (Portugal e Brasil, antigamente);
6,6 km (Brasil, antigamente, chamada légua de sesmaria) ;
7,06 km (Espanha, chamada légua real de Espanha).”

Um belo resumo de todo o dito acima é a atual definição do Priberam: “Medida itinerária antiga cujo valor é variável segundo as épocas e os países, geralmente com valores entre os 4 e os 7 quilômetros“.

Os demais dicionários portugueses, porém, são precisos: segundo o Dicionário Universal (da Texto Editores) e o dicionário da Porto Editora, a légua equivale, taxativamente, “a cinco quilómetros”.

Segundo o dicionário da Academia Brasileira de Letras (1988), “equivale a 6 mil metros”. Já Aurélio discorda: diz que, “no Brasil, vale 6,6 km”.

Michaelis fica com ambas as opções: “no Brasil, tem de 6.000 a 6.600 metros“.

Já para Houaiss (2015), os números seriam precisos: a légua, “no Brasil, vale aproximadamente 6.600 metros; em Portugal, 5.572 metros”.

Ogã, autoridade na umbanda e no candomblé

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No Correio Braziliense de hoje: “Representantes de religiões de matrizes africanas denunciaram mais um ataque de intolerância contra símbolos sagrados. Um grupo de três pessoas tentou arrancar o cajado da estátua de Oxalá na Praça dos Orixás. O ato de vandalismo acontece dias antes de uma das mais importantes comemorações dos praticantes.
Na reportagem, o jornalista conversa com uma autoridade religiosa local, usando duas grafias diferentes para o cargo do entrevistado – ambas grafias errôneas (oganógan).
Ogã, substantivo masculino, era definido já meio século atrás, por Aurélio, como “título honorífico de protetores de candomblés, de templos umbandistas, etc.“. Segundo Houaiss, os ogãs são aqueles que “protege a casa de culto” e presta serviços relevantes à comunidade religiosa, na umbanda, no candomblé e em outras religiões de matriz africana.
A palavra ogã (que vem das línguas jeje e ioruba, onde significa “chefe”) deve ser escrita, naturalmente, com “-ã”, e não “ogan” – porque a terminação “-an” não ocorre em português. A esse respeito, vide a resposta anterior sobre as grafias de Butantã, Bataclã, cancã, Irã, clã, etc.
Houaiss traz ainda várias locuções que incluem a palavra ogã:

ogã beré: o último ogã a ganhar esse título, entre os seus pares

ogã colofé: na umbanda, título e cargo imediatamente abaixo do chefe da casa; tem a função de dirigir cerimônias, sacrificar animais, etc.

ogã de atabaque (ou ogã de calofé, ou ogã de tambor, ou ogã ilu): chefe dos tocadores de atabaque

ogã de altar: peji-gã (auxiliar do chefe do terreiro de candomblé ou rito afim, responsável pela conservação, limpeza e ornamentação do peji (altar) e do barracão, assim como pela organização das festas públicas)

ogã de faca:  axogum (ogã que sacrifica ritualmente os animais votivos)

ogã de terreiro: no candomblé, título e cargo de auxiliar do chefe do terreiro na realização das festas públicas

Sélfie, em português, tem de ter acento

sélfie (sél.fie) (do inglês selfie)
substantivo feminino
: autorretrato digital; foto (em geral digital) que uma pessoa tira de si mesma (plural: sélfies)
                                                                 (Definição do DicionárioeGramática.com)

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A infame “Infopédia” (que mistura conteúdos do Dicionário de Português da Porto Editora, tradicional e de boa reputação, com invencionices e absurdos sem fontes, que revelam a completa ignorância de regras básicas de ortografia portuguesa de parte da amadora “equipa” que nela enfia novidades diariamente) está tentando emplacar “bastão de selfie” como “palavra do ano” – assim mesmo, em grafia que não é nem inglês nem, certamente, português.

Há vários exemplos na infame Infopédia que mostram que aqueles que vêm gerindo o projeto, posto que entendidos de marketing, não têm nenhuma noção de linguística e gramática. Mas, ainda assim, a inépcia surpreende, quando deparamos com a incompetência diante de um caso tão, tão simples: não bastava, pois, colocar um acento agudo em “sélfie”, para trazer a palavra à nossa língua, sem violar a grafia original, a pronúncia (dando-lhe a mesma terminação átona de “série”, “imundície”, “planície”) nem as regras ortográficas portuguesas?

Alguns aportuguesamentos são mais difíceis que outros: no caso de iceberg, por exemplo, não bastava trocar o berg por bergue, pois “ice-” não poderá nunca, em português, ser pronunciada “aiss” – apesar do que absurdamente propõe a Infopédia (vide aqui). O aportuguesamento correto, é claro, foi aicebergue.

Em outros casos, porém, basta colocar um acento para que um estrangeirismo deixe de violar nossa ortografia – foi simples, por exemplo, a solução quanto a tsunâmi.

No mesmíssimo caso está, é claro, a mundialmente famosa sélfie, “fotografia que a pessoa tira de si mesma”: com um simples acento agudo, colocam-se as sélfies no mesmo grupo de palavras que série e séries, espécie e espécies, superfície(s), planície(s), etc. Simples assim.

Os compostos seriam, assim, bastão de sélfie (plural: bastões de sélfie), forma mais elegante, como querem os adeptos; e pau de sélfie (plural: paus de sélfie), que parece ter caído nas graças do povo.

 

Abaia: vestido árabe

Mais uma para a série “palavras que faltam em dicionários“: abaia, substantivo feminino.

O Aulete registra “abaia” como uma “espécie de gabão ou manto árabe”, e só. Aurélio é igualmente lacônico. O Houaiss e outros sequer trazem a palavra.

A abaia é uma vestimenta feminina árabe – é, mais que isso, o traje feminino tradicional, quase universal, nos países árabes do Golfo: Arábia Saudita, Dubai e os demais Emirados Árabes Unidos, Catar, Omã, etcétera. A abaia é um longo vestido negro, que se estende até os pés, e que é vestimenta obrigatória para mulheres adultas em público em alguns países muçulmanos, como a Arábia Saudita.

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A abaia é a túnica ou vestido longo, quase sempre preto, usado por mulheres muçulmanas em países árabes do Golfo. Além da abaia, que é apenas o vestido, as mulheres também cobrem a cabeça – seja apenas com um véu (cobrindo apenas o cabelo, como na foto abaixo), seja combinado com o uso do nicabe, peça que cobre todo o rosto, com exceção dos olhos. 

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É importante notar que a abaia não é o mesmo que o xador (manto negro, que se usa sobre o restante da roupa, precisando ser segurado pela usuária – em geral preto, é mais usado no Irã) nem que a burca (vestimenta completa, que cobre todo o corpo, inclusive a cabeça e o rosto; deixando apenas os olhos à mostra – ou às vezes nem os olhos, que são encobertos por um tecido rendado).

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À esquerda, duas mulheres usando o xador, no Irã. À direita, três mulheres usando burcas, no Afeganistão.

A abaia também é peça de vestimenta de uso obrigatórios nos territórios atualmente dominada pelo Daexe (o autointitulado “Estado Islâmico”, havendo relatos de mãe e filha que foram condenadas por suas abaias terem sido consideradas “justas demais“.

Doença zica (não Zika) já está no Dicionário

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É zica ou zika? É zika ou zica? Após o DicionarioeGramatica.com ter explicado por que o nome da doença chamada em inglês “Zika” só poderia ser escrito, em português, zica (com letra minúscula e com “c” – veja explicação abaixo), o sempre ágil Dicionário Priberam da Língua Portuguesa incluiu, hoje, o nome da nova doença:

zi·ca
substantivo feminino
[Medicina]  Doença infecciosa febril, acompanhada de sintomas semelhantes aos da dengue, mas mais suaves, como erupções cutâneas, dores articulares, febre baixa e dores de cabeça, causada por um vírus e transmitida ao homem pelo mosquito do género Aedes.

“zica”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/zica [consultado em 28-12-2015].

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Zika virus“, em inglês = o vírus da zica, em português. Da mesma forma que em português se chama “vírus da dengue” àquele que em inglês é o “Dengue virus” – ou que se diz em português “vírus do ebola”, “vírus da herpes”, “vírus da gripe”, “vírus da hepatite”, e não, como em inglês, “Ebola virus“, “Herpes virus“, etc. –, em português, o nome correto do novo vírus só pode ser o vírus da zica.

Em português, os nomes das doenças se escrevem com minúscula (a malária, a dengue, a gripe, o câncer, o vitiligo). Da mesma forma, deve-se escrever, em português, “a zica“.

Por pura e direta influência do inglês (em que se escreve “the Flu” para a gripe, “Ebola”, “Zika”, com maiúsculas), alguns meios de comunicação brasileiros têm escrito o nome da doença com maiúscula (o que não faz sentido em português).

Outro erro comum é chamar a doença (cujo nome em português é simplesmente zica) de “febre Zika” ou “febre zica” – novamente por influência do inglês, em que, por exemplo, se chama “Dengue fever” à doença que, em português, é simplesmente “a dengue”.

Quanto ao uso do “c” no lugar de “k”, ressalte-se que, ao contrário do que muitos pensam, o novo Acordo Ortográfico não permite que qualquer palavra nova da língua portuguesa possa agora ser escrita com “k”, “w” ou “y”. O que o Acordo Ortográfico fez (e seu texto pode ser lido aqui) foi admitir que essas três letras existem, mas que seu uso, em português, é limitado à escrita de nomes próprios estrangeiros (como “Kant” ou “Kuwait”) e seus derivados (como “kantismo” e “kuwaitiano”), mas, como explica o próprio texto do Acordo, “Apesar da inclusão no alfabeto das letras k, w e y, mantiveram-se, no entanto, as regras já fixadas anteriormente, quanto ao seu uso restritivo, pois existem outros grafemas com o mesmo valor fônico daquelas. Se, de fato, se abolisse o uso restritivo daquelas letras, introduzir-se-ia no sistema ortográfico do português mais um fator de perturbação, ou seja, a possibilidade de representar, indiscriminadamente, por aquelas letras fonemas que já são transcritos por outras“.

Entre os poucos jornais que têm usado corretamente o nome da doença e do vírus, destacam-se o tradicional Jornal do Commercio, do Recife, e O Tempo, de Belo Horizonte; em pronunciamento oficial na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, o vereador e médico Eduardo Moura também usa corretamente as formas portuguesas “a zica” e “o vírus da zica”.

vírus da zica

O tagine (e não a tajine): prato marroquino

Em francês, chama-se tajine ou tagine a um prato tradicional do Marrocos, bem como ao tipo de panela de barro em que o prato é preparado e servido. É palavra masculina: un tagine, não “une“. Em português, pela etimologia, deve ser escrito com a letra “g” (e não com jota): o correto em português será “o tagine“, “um tagine“.

Como ensina Rebelo Gonçalves – considerado um dos “pais” da moderna ortografia da língua portuguesa – já em seu clássico “Tratado de Ortografia da Língua Portuguesa”: em português, “em palavras de origem arábica se não faz uso de j, mas de g, antes de e ou i– enquanto o jota, por sua vez, é de rigor nas palavras de origem ameríndia (tupi, guarani, etc.) e nas palavras de origem latina (por isso “majestade” e “jeito”, e não *magestade ou *geito). A mesma observação já se encontra na mais antiga gramática da língua portuguesa que se conhece: na Orthografia da Lingoa Portuguesa, publicada em 1576, Duarte Nunez do Lião afirma que o uso do “g” com som de jota (de “i consoante”) antes das vogais e & i é “alheia dos gregos e latinos, e própria dos mouros, de quem a recebemos”.

Eis exemplos de palavras de origem americana (indígena), em que se usa a letra j): ajeru (papagaio), canjerê, canjica, jecoral, jenipapo, jequitibá, jerimum, jiboia, jiquipanga, jiquiró, jiquitaia, jirau, jiriti, jitirana, mucujê, pajé.

É o contrário do que ocorre com as palavras de origem árabe ingressadas na língua portuguesa – em que sempre se usou, para representar o mesmo fonema, a letra g: alfageme, álgebra, algema, algeroz, algibebe, algibeira, álgido, almargem, Argel, Argélia, auge, gengibre, gergelim, geringonça, gesso, Gibraltar, Gidá, ginete, girafa, gíria, hégira, Tânger…

O nome do cozido marroquino feito em geral com carne de frango ou de cordeiro e com legumes, bem como o nome do recipiente de terracota em que o referido cozido é preparado e em geral servido, pode ser escrito, em francês ou inglês, indiferentemente “tagine” ou “tajine” – neste caso, devendo-se grafar, num texto em português, a palavra em itálico, sublinhada ou entre aspas, para se deixar claro estar-se usando um estrangeirismo. Aportuguesada, a palavra só poderá ser escrita tagine, substantivo masculino.

Tsunâmi: em português, com acento

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O Dicionário Aulete é o mais recente dicionário a incorporar a palavra “tsunâmi”, substantivo masculino, em sua versão aportuguesada, com acento. A versão portuguesa do nome japonês para uma onda gigante e destrutiva foi a única grafia da palavra incluída no recém-lançado dicionário ilustrado Caldas Aulete (foto acima). A palavra tsunâmi, aportuguesada, já fora incluída nos dicionários mais vendidos respectivamente em Portugal (o da Porto Editora, conforme link aqui) e o do Brasil – o Aurélio, conforme foto a seguir:

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As palavras portuguesas ou aportuguesadas terminadas em “i” são, via de regra, oxítonas: caqui, vivi, comi, aqui, ali, frenesi, sambaqui, tucupi, bebi, fugi. Para indicar que a palavra não é oxítona, portanto, as regras ortográficas do português obrigam a colocação de um acento – por exemplo em táxi, cáqui, suázi, beribéri. Por essa razão, a palavra tsunâmi obrigatoriamente levará acento em português.

Pode-se, naturalmente, usar a palavra em sua versão estrangeira, “tsunami” – mas, nesse caso, as regras da língua recomendam destacar a palavra, seja com aspas, seja pelo uso de letras em itálico (ou, ainda, sublinhadas):

“Governo alerta para possibilidade de tsunâmi após terremoto desta madrugada.”, ou:

“Governo alerta para possibilidade de tsunami após terremoto desta madrugada.”, ou ainda:

Governo alerta para possibilidade de tsunami após terremoto desta madrugada.

Atualização: menos de três horas após termos publicado o texto acima, o sempre ágil Dicionário Priberam também incluiu a palavra “tsunâmi“, aportuguesada e com acento.