Em português é vírus zica ou vírus da zica, não “Zika virus”

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Como chamar em português o tal Zika virusVírus da zica, vírus zica ou simplesmente o zica são as formas corretas em português para chamar esse vírus.

Pelas regras ortográficas da língua portuguesa, o nome da doença e do vírus da zica não pode ser escrito Zika em português.

Também não se pode falar em português “Zika vírus“, “Zika-vírus” ou “Zica vírus“, formas que só fazem sentido em inglês. É em inglês que se diz, por exemplo, “Herpes virus“, “Dengue virus” e “Ebola virus“: em português, diz-se “o vírus da herpes”, “o vírus da dengue”, “o vírus do ebola”. Logo, em português só poderia ser “o vírus da zica“, “o vírus zica” ou ainda “o zica” (como está no dicionário Priberam e no dicionário da Porto Editora).

É também por influência do inglês que alguns meios de comunicação têm escrito o nome da doença em letra maiúscula. É em inglês que os nomes de doenças começam com letra maiúscula: EbolaHerpes, Hepatitis e até mesmo the Flu (a gripe). Em português, as doenças se escrevem com inicial minúscula: a gripe, a herpes, a hepatite, o câncer, o vitiligo, a malária… Logo, deve-se escrever com letras minúsculas: a doença é a zica, o vírus é o zica.

Outro erro comum é chamar a doença (cujo nome em português é simplesmente zica) de “febre Zika” – novamente por influência do inglês, em que, por exemplo, se chama “Dengue fever” à doença que em português se chama simplesmente “a dengue”.

Quanto ao uso do “c” no lugar de “k”, ressalte-se que, ao contrário do que muitos pensam, o novo Acordo Ortográfico não permite que qualquer palavra nova da língua portuguesa possa agora ser escrita com “k”, “w” ou “y”. O que o Acordo Ortográfico fez foi incluir essa três letras no alfabeto português – mas foi mantida a limitação de seu uso à escrita de nomes próprios estrangeiros (como “Kant” ou “Kuwait”) e dos derivados próprios desses nomes (como “kantismo” e “kuwaitiano”). Como explica o próprio texto do Acordo (que pode ser lido aqui): “Apesar da inclusão no alfabeto das letras k, w e y, mantiveram-se as regras quanto ao seu uso restritivo, pois existem outras letras com os mesmos sons daquelas. Se de fato se abolisse o uso restritivo dessas letras, introduzir-se-ia no sistema ortográfico do português mais um fator de perturbação, ou seja, a possibilidade de representar, indiscriminadamente, por aquelas letras fonemas que já são transcritos por outras”. Como o Acordo Ortográfico deixa bastante claro, nada mudou: com exceção desses derivados cultos, as palavras aportuguesadas recebem uma grafia “portuguesa”: é por isso que whisky, em português, ainda deve ser escrito uísque; e é por isso também que escrevemos caraoquê (e não karaoke), caratê (e não karate), ioga (e não yoga), coala (e não koala)… E, portanto, zica, e não zika.

Apenas os derivados próprios de nomes estrangeiros têm o “direito” de manter o “k”, o “w” e o “y” – na verdade, mais até que que isso: os derivados próprios de nomes estrangeiros recebem o direito exclusivo de manter qualquer outra sequência de letras ou sons estranha à ortografia portuguesa – é o caso, entre tantos outros, de: comtista, substantivo relativo a Comte; washingtoniano, referente a Washington; kantista, referente a Kant; kuwaitianos, cidadãos do Kuwait; etc.

Esses derivados, propriamente, são isso: substantivos e adjetivos (e há até verbos) cujo radical é o próprio nome estrangeiro, ao qual é adicionada um sufixo, resultando num vocábulo derivado, numa palavra nova. De acordo com o Dicionário Aurélio, com o Dicionário Houaiss e com o Priberam, derivados são “palavras criadas a partir de outras palavras, mediante a inserção ou extração de afixos”.

Não é o mesmo, porém, que ocorreu no nome da doença zica: embora o nome venha de uma floresta africana, não se adicionou qualquer sufixo, nem a nova palavra tem, em seu significado, a obrigatória relação com o nome próprio (diferentemente do que ocorre nos pares anteriores, em que o significado das “novas palavras” é propriamente relacionado com o nome próprio, como Comte/comtista, Kiev/kievense, etc.).

O caso da zica (que não é um derivado, mas é, sim, o próprio nome, aportuguesado e substantivado, sem qualquer derivação por adição de sufixo) é outro, assim como são outras as regras ortográficas que regem seu aportuguesamento. Não são os derivados de nomes próprios com “carta branca” para manter quaisquer sequências de letras estranhas ao português: são, antes, o próprio nome próprio que, perdendo qualquer ligação de sentido com o nome original, se tornam nomes comuns, com inicial minúscula – e com as necessárias “adaptações” gráficas a que são submetidos todas as demais palavras tradicionais da língua portuguesa. Há um sem-número de exemplos de vocábulos desse tipo – que, como “zica”, ao perder a ligação com o termo original, perderam o “direito” de manter letras estranhas, sendo 100% aportuguesados: é o caso do substantivo brasileiro gari (profissão de limpador de rua), que se escreve assim, com “i”, e não gary, embora venha do nome do francês chamado Gary; é o caso também do sanduíche, que, apesar de vir do nome inglês Sandwich, perdeu o “w” (e ganhou letras e um acento, para virar português legítimo); ou do biquíni (que, embora vindo do nome do Atol de Bikini, teve seu “k” substituído por “qu”); ou ainda caracul (nome em português de uma raça de carneiros, cujo nome vem de Karakul, localidade de proveniência da raça); ou crupe (tipo de canhão batizado em homenagem ao alemão Krupp); ou cavanhaque (batizado em homenagem ao francês Cavaignac); ou braile (apesar de seu criador se chamar Braille, com dois -ll-), ou boicote (com “i”, embora venha do nome inglês Boycott), etc.

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9 comentários sobre “Em português é vírus zica ou vírus da zica, não “Zika virus”

  1. Pingback: Zika ou zica? Yoga ou ioga? Karatê ou caratê? Kibe ou quibe? | DicionarioeGramatica.com

  2. Entendi e concordei que “Zika vírus” é a ordem inglesa e não faz sentido, e entendi e concordei que “vírus Zika” também não, pois escrevemos nomes de doença e de vírus com minúscula. Mas não me convenci de pq ter de ser ziCa com c, e não pode ficar zika – já que, como vcs mesmos disseram, k,w e y podem ser usados em derivados de nomes próprios, e zica, como diz o próprio Priberam, vem do nome de uma floresta em Uganda.

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    • Excelente pergunta! A questão reside, porém, em entender o que são os tais “derivados” que, tanto pelo novo acordo ortográfico quanto pelas regras antigas, gozam desse “direito” de manter o “k”, o “w” e o “y” – na verdade, mais até que que isso: os derivados próprios de nomes estrangeiros recebem o direito exclusivo de manter qualquer outra sequência de letras ou sons estranha à ortografia portuguesa – é o caso, entre tantos outros, de: comtista, substantivo relativo a Comte; washingtoniano, referente a Washington; kantista, referente a Kant; kuwaitianos, cidadãos do Kuwait; etc. Repare nesses exemplos, porém: esses é que são derivados próprios: substantivos e adjetivos (e há até verbos) cujo radical é o próprio nome próprio estrangeiro, ao qual é adicionada um sufixo, resultando num vocábulo derivado, numa palavra nova.

      Não é o mesmo, porém, que ocorreu no nome da doença zica: não se adicionou qualquer sufixo, nem a nova palavra tem, em seu significado, a obrigatória relação com o nome próprio (diferentemente do que ocorre nos pares anteriores, em que o significado das “novas palavras” é propriamente relacionado com o nome próprio, como Comte/comtista, Kiev/kievense, etc.).

      O caso da zica (que não é um derivado, mas é, sim, o próprio nome, aportuguesado e substantivado, sem qualquer derivação por adição de sufixo) é outro, assim como são outras as regras ortográficas que regem seu aportuguesamento. Não são os derivados de nomes próprios com “carta branca” para manter quaisquer sequências de letras estranhas ao português: são, antes, o próprio nome próprio que, perdendo qualquer ligação de sentido com o nome original, se tornam nomes comuns, com inicial minúscula – e com as necessárias “adaptações” gráficas a que são submetidos todas as demais palavras tradicionais da língua portuguesa. Há um sem-número de exemplos de vocábulos desse tipo – que, como “zica”, ao perder a ligação com o termo original, perderam o “direito” de manter letras estranhas, sendo 100% aportuguesados: é o caso do substantivo brasileiro gari (profissão de limpador de rua), que se escreve assim, com “i”, e não gary, embora venha do nome do francês chamado Gary; é o caso também do sanduíche, que, apesar de vir do nome inglês Sandwich, perdeu o “w” (e ganhou letras e um acento, para virar português legítimo); ou do biquíni (que, embora vindo do nome do Atol de Bikini, teve seu “k” substituído por “qu”); ou ainda caracul (nome em português de uma raça de carneiros, cujo nome vem de Karakul, localidade de proveniência da raça); ou crupe (tipo de canhão batizado em homenagem ao alemão Krupp); ou cavanhaque (batizado em homenagem ao francês Cavaignac); ou braile (apesar de seu criador se chamar Braille, com dois -ll-), ou boicote (com “i”, embora venha do nome inglês Boycott), etc.

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  3. Pingback: Fumacê: | DicionarioeGramatica.com

  4. O Ciberdúvidas da Língua Portuguesa (de Portugal) parece também ter gostado muito dessa explicação tão completa, dada por vocês anteontem, sobre por que zica não pode ficar Zika mesmo vindo de nome próprio – tanto que hoje copiaram-na inteirinha na página inicial deles (mas sem dar créditos, como de costume), parafraseando-a todinha (e contrariando o que eles mesmo tinham respondido a consulta similar uma semana antes): https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/correio/virus-de-zika-o-zika-ou-o-zica/33514 Parabéns pelo trabalho, brasucas, tão bom que digno de plágio!

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