Nem superavit, nem superávit: em português é superávite

Uma economia que arrecada mais do que gasta (ou exporta mais do que importa) terá um superávite – aportuguesamento do latim superavit. 

Alertada poucas semanas atrás pela equipe do DicionarioeGramatica.com, a diligente equipe do Dicionário Priberam acolheu oficialmente o substantivo superávite (SUPERÁVITE: Excesso das receitas sobre as despesasDÉFICE).

Quase todas as línguas ocidentais usam essa palavra latina (superavit, pronunciada superávit), assim como seu antônimo, deficit (pronunciada déficit).

Para indicar corretamente a sílabas tônicas e evitar leituras incorretas, autores brasileiros tradicionalmente acentuavam ambas as palavras (“déficit” e “superávit”), apesar da inexistência de regra gramatical que autorizasse esse acento (até porque, a bem da verdade, o sistema ortográfico da língua sequer contempla a possibilidade de palavras portuguesas terminarem em “-t”).

Pelo fato de os acentos de “déficit” e “superávit” não encontrarem abrigo à luz do novo Acordo Ortográfico, a Academia Brasileira de Letras (ABL), que até 2009 registrava “déficit” e “superávit”, ambas acentuadas, excluiu ambos os termos de suas obras publicadas após a entrada em vigor da nova ortografia. Deficit e superavit, sem acentos, foram deslocados para o apêndice dos estrangeirismos não adaptados (junto com marketing, shopping, etc.). A ABL, porém, incluiu em seu Vocabulário o substantivo défice, aportuguesamento de deficit usado há anos em Portugal.

Curioso foi o fato de a  Academia brasileira ter acatado a forma “défice”, mas não ter igualmente proposto o óbvio aportuguesamento para “superavit“: “superávite”.

Se a Academia Brasileira de Letras não o fez, a sua homóloga portuguesa o fez: em seu Vocabulário Ortográfico Atualizado da Língua Portuguesa, de 2012, a Academia das Ciências de Lisboa incluiu a forma superávite, substantivo masculino, como nova palavra da língua portuguesa.

Alertada poucas semanas atrás pela equipe do DicionarioeGramatica.com, a diligente equipe do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa acolheu oficialmente o substantivo superávite – no que, espera-se, deverá muito em breve ser seguido pelos outros bons dicionários brasileiros e portugueses.

5 comentários sobre “Nem superavit, nem superávit: em português é superávite

    • Caro Joaquim; lembro que, quando conheci a palavra “habitat”, ainda criança,aprendi-a com a pronúncia que você sugere, e, se fosse esse o caso, acho que haveria unanimidade em a aportuguesarmos como “habitate”. O problema é que o Aurélio, já em sua primeira edição, colocou-lhe um acento para, supostamente, identificar a pronúncia original latina (como fez com superávit e déficit): “hábitat” é que escreveu o mestre, e é essa a pronúncia que recomendam todos os dicionaristas desde então – e aí, como em “déficit”, reside o problema: para se manter a sílaba tônica, não se pode simplesmente colocar um “e” no final: ter-se-ia de alterar a palavra. É o que sugerem há anos alguns gramáticos, como Cegalla e Sacconi: que se escreva hábita, plural hábitas. Acredito que seja essa indecisão entre as duas pronúncias, essa duplicidade de possibilidades (habitate ou hábita), que venha atrasando o aportuguesamento da palavra. Como não sou da área das ciências biológicas, acredito que o ideal seria verificar com eles: há consenso, no meio científico e acadêmico, no Brasil e em Portugal, quanto à pronúncia? Se sim, aí sim, aportuguesemos – seja como hábita(s), seja como habitate(s).

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      • A grande maioria dos biólogos do meio em que circulo, no Brasil, pronuncia “habitate” e ortografa a palavra no original em latim, mas, em algumas raras ocasiões, escutei a pronúncia “habitá”. Surpreendentemente, poucos conhecem a adaptação “hábitat”, e destes já ouvi algo como “hábitate”. “Hábita”, com o tê mudo, soa um tanto exótico aos meus ouvidos. Acredito que “habitate” soe mais natural pra maior parte de meus colegas, mas eu não saberia dizer qual pronúncia estaria mais perto de um consenso em Portugal.

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        • Prezado Joaquim: em Portugal, a pronúncia mais comum é também habitát. A ideia de colocar o acento em hábitat, para marcar a pronúncia latina, parece ter vindo do brasileiro Aurélio, possivelmente após ter visto que assim escrevem em espanhol. Temia que tivesse se popularizado entre os biólogos brasileiros. Se assim não foi – isto é, se os brasileiros pronunciam habitát, assim como os portugueses -, creio que podemos, sim, propor o aportuguesamento habitate, a exemplo de superávite.

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