O problema do “português decoreba” dos cursinhos…

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Acima, um tuiteiro tenta grosseiramente desqualificar uma estudante de medicina por ela supostamente não dominar a norma culta do português, por falar “para mim fazer”. O fato, porém, é que o “para mim fazer” na frase acima está perfeitamente correto. O usuário que tentou desqualificá-la é que, claramente, não entende de português mais que as “decorebas” de cursinhos, que são só o que ele sabe repetir, acriticamente, mesmo em situações erradas – como essa.

Já falamos aqui, em publicação anterior, do mal que têm feito à língua portuguesa os cursinhos para vestibular e para concursos, sempre em seu desespero por mastigar todas as matérias em “esqueminhas” que possam ser decorados sem nenhum esforço mental por qualquer um. O problema, é claro, é que tais formulinhas mágicas não existem para o português: é bem verdade, por exemplo, que, de modo geral, a língua tende a dar preferência a particípios longos com os verbos “ter” e “haver”, mas isso não pode ser assimilado como regra para todos os verbos, sob o risco de alunos sem senso crítico começarem a achar que “tinha ganho” ou “tinha imprimido” são erradas, quando, em certos casos, são a forma preferível; da mesma forma, é verdade que, na frase “Isso é para ___ fazer ou para ela fazer?”, o correto seria “eu”, não “mim” – mas esse é um caso diferente do caso da manchete acima, em que a construção usada (“Seria difícil para mim fazer medicina“) está absolutamente correta.

E, para quem acha que de fato há algum problema na frase, nem precisamos explicar por que não – no jornal Folha de S.Paulo, o próprio professor Pasquale já o fez (podem clicar para ver a explicação completa):

Na frase de Sheila, o que há é apenas o emprego dos termos na ordem indireta, o que faz o pronome “mim” encostar em “fazer”, o que, para os afoitos, já basta como prova do “erro”. Não há erro algum, caro leitor. Esse “mim” é “mim” mesmo, já que não está ligado ao verbo “fazer”, por isso não pode ser o seu sujeito. Esse “mim” está ligado ao adjetivo “difícil” (“tal coisa é difícil para alguém”). 

Vamos dispor os termos em outra ordem? Vamos lá: “Fazer um curso de medicina no Brasil com certeza seria muito difícil para mim”. E agora? Alguém se atreveria a trocar esse “mim” por “eu”? Algum dos nobres “especialistas” diria “Fazer um curso de medicina no Brasil com certeza seria muito difícil para eu”? Francamente…

Não há erro algum na frase da nossa futura médica. O erro está na prepotência, na ignorância e na arrogância dessa turba raivosa. É isso.

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Um comentário sobre “O problema do “português decoreba” dos cursinhos…

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