Postagem, o aportuguesamento de “post” (publicação na Internet)

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Primeiramente, obrigado pelo favor que nos fazem por esclarecer tantas dúvidas! Tenho uma, inclusive: o substantivo da língua inglesa “post” já foi aportuguesado?

Caro leitor, agradecemos o elogio; e, sim, o substantivo post, do inglês, já foi aportuguesado: em português, não convém falar em “um post” nem em “uma post” (ou poste, pôust, etc.);  para uma “publicação que se faz na Internet”, já se consolidou o uso do substantivo português postagem.

Um post é uma postagem, e posts são postagens.

Há postagens no Facebook, postagens no Instagrampostagens em blogues; jornal do grupo Globo nos relata esta semana que uma mulher está sendo processada por marcar a ex-cunhada em postagem no Facebook; o Correio Braziliense conta como uma nova espécie de planta carnívora foi descoberta por cientistas graças a uma postagem no Facebook; e a Folha de S.Paulo comenta o número de postagens no Instagram a cada segundo.

Refletindo essa nova acepção, já generalizada, para a palavra postagem, o Dicionário Priberam acaba de agregar ao substantivo feminino postagem o significado de “publicação que se faz na Internet“.

E, por fim: não se esqueçam de clicar aqui para ler todas as postagens do nosso portal.

Por que o palmito é juçara, e não jussara?

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Até a década de 1990, o Brasil destacava-se como exportador de palmito do tipo juçara, considerado de primeira qualidade, oriundo do centro-sul do país e encontrado também na Argentina e no Paraguai. A ameaça de extinção da palmeira de juçara em meio natural fez que se proibisse no Brasil a comercialização desse palmito, com exceção daqueles provenientes de replantio. Com isso, o palmito-juçara (ou simplesmente juçara) foi substituído, no mercado nacional e no internacional, por variedade alternativa de palmito, menos cara mas também menos graúda, chamada palmito-pupunha (ou simplesmente pupunha).

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Embora seja comum ver juçara escrito, por erro, jussara, o nome da palmeira e de seu palmito é mesmo com “ç” – assim como açaí, variedade de palmito hoje mais conhecida pela polpa de seus frutos, de forte cor roxa, oriundo da Amazônia (em oposição ao juçara, proveniente da Mata Atlântica).

A razão pela qual se escreve juçara (e não jussara) é simples: é convenção ortográfica que se usa o “ç”, e não o “ss”, na grafia das palavras em português provenientes do tupi-guarani e de outras línguas indígenas do Brasil: é por essa mesma razão que se escrevem: açaíIguaçucupuaçu, jaçanãparaguaçu (e tudo que termina em -açu, sufixo tupi-guarani que significa “grande”), paçocapiaçaba, etc.

Convenções ortográficas desse tipo, referentes a línguas sem tradição escrita, facilitam muito a vida dos lusófonos. A regra de usar “ç” no lugar de “ss” aplica-se também, por exemplo, aos aportuguesamentos da língua árabe: é por essa razão que escrevemos muçulmano, moçárabe, Moçambique (o nome do país também vem do árabe), açudeaçafrãoaçougue ou mesmo açúcar.

Semelhante ainda é o uso da letra “x”, que, para facilitar a vida de todos os que usamos o português, foi sistematizada como obrigatória, no lugar de “ch”, em palavras de origem tupi-guarani ou árabe – como já explicamos em artigo anterior, sobre o porquê de se escrever cabelo pixaim, não pichaim (clique aqui para reler).

 

Pacenhos e pacenhas: habitantes de La Paz

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Por falar em Bolívia: vários dicionários registram a palavra pacenho, tradução do espanhol paceño. O que quer dizer pacenho? Como mostram o Aulete e o Priberam, é o adjetivo e o substantivo referentes à cidade de La Paz, na Bolívia:

(pa.ce.nho)
sm. 1. Indivíduo nascido ou que vive em La Paz, capital da Bolívia (América do Sul).
a. 2. De La Paz; típico dessa cidade ou de seu povo.
[F.: Do espn. paceño.]
Disponível em: http://www.aulete.com.br/pacenho

Há, porém, um pequeno erro na definição – percebem-no? Os pacenhos são, sim, os habitantes de La Paz – mas, ao contrário do senso comum, a cidade de La Paz não é, oficialmente, capital da Bolívia. De acordo com a Constituição boliviana, a capital do país é a cidade de Sucre – embora La Paz seja, de fato, a sede do governo.

Em português, o gentílico pacenho pode referir-se, ainda, a “qualquer localidade chamada Paço ou Paços, como Paços de Ferreira, cidade portuguesa” – como bem ensina o Priberam.

“aimarás”, em português = “aimaras”, em espanhol

Evo Morales

O grupo populacional indígena predominante na Bolívia, ao qual pertence o presidente do país, Evo Morales, chama-se “aimara” – apenas em espanhol. Em português, a denominação correta é aimará – palavra oxítona, com acento no último “a”.

aimará é também uma das línguas oficiais da Bolívia – juntamente com o espanhol e com outras 35 línguas indígenas (a Bolívia tem, atualmente, 37 línguas oficiais). Não é correto chamar ao aimará ou a qualquer uma das línguas indígenas “dialetos“.

Como já dito, os aimarás são em espanhol chamados aimaras – sem acento, por ser, em espanhol, palavra paroxítona. Apesar da grafia correta em espanhol moderno ser essa (aimaras no plural, aimara no singular: Los aimaras hablan la lengua aimara), é comum ver também, especialmente na Bolívia, as grafias aymara aymaras, com ípsilon no lugar do i.

O “y” como semivogal foi há muito tempo substituído, na ortografia oficial espanhola, pelo “i”, quando no interior de vocábulos (“rainha” hoje, escreve-se reina, embora historicamente se tenha grafado reyna), tendo-se mantido seu uso apenas no final de palavras (por exemplo “rei”, que continua a escrever-se, em espanhol, rey).

Muitos dos próprios aimarás, porém, preferem a grafia “antiga”, razão pela qual é comum encontrar, sobretudo na Bolívia, a forma aymara – embora essa grafia não seja reconhecida pela Real Academia Espanhola nem conste dos dicionários oficiais espanhóisque apenas registram aimara.

Como o português, a língua espanhola não usa iniciais maiúsculas para nomes de povos e etnias: Los españoles no conquistaron a los aimaras, ou Os espanhóis não conquistaram os aimarás – em oposição à forma em inglês, em que o uso da maiúscula, nesses casos, é obrigatório: The Spanish didn’t conquer the Aymaras.

É importante recordar a diferença da sílaba tônica entre a palavra espanhola (aimara) e sua tradução portuguesa (aimará) sobretudo pelo fato de que a palavra aimara também existe em português, porém com significado diferente: em português, aimara é o nome de uma árvore.

Eta, notícia boa: Globo corrigiu nome da novela

Nem tudo está perdido: embora achássemos que já fosse quase causa perdida quando fizemos o apelo para que a Rede Globo corrigisse o nome da novela que estreou nesta semana (ver postagem original aqui), nada como uma boa notícia inesperada – a novela enfim apareceu com título e logotipo sutilmente corrigidos (ver comparação, abaixo)!  Na publicação anterior, recordamos por que “eta” não podia levar aquele acento. Gostamos de ver, Rede Globo!

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Dicionários desconhecem o pompoarismo…

Impressionantemente, o Houaiss, o Aurélio, o Aulete e a Porto Editora não trazem a palavra pompoarismo. Apenas o Dicionário Priberam se lembrou de registrá-la:

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pom·po·a·ris·mo
(inglês pompoir, pompoarismo + -ismo)

substantivo masculino

Conjunto de técnicas, de origem oriental, usadas no fortalecimento e controle dos músculos da vagina, geralmente para aumentar o prazer sexual.

“pompoarismo”
, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/pompoarismo [consultado em 22-01-2016].

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Chipe, não “chip” (e microchipe e nanochipe)

Para quem viu o vídeo de hoje do Porta dos Fundos, chamado chip, só um rápido lembrete: em português, existe a palavra chipe, com “e” – como já está até no Vocabulário Ortográfico Atualizado da Língua Portuguesa, da Academia de Lisboa (que, para não deixar dúvidas, indica se tratar de termo da informática, adaptação do inglês chip).

Aliás, que chipe de celular em português tem um “e” no final é algo que todo brasileiro já deveria ter aprendido seis anos atrás, à época do sucesso de “Pedro, me dá meu chipeeee“:”

Se ainda deve levar algum tempo para os dicionários, sempre atrasados, começarem a registrar chipe (de telefone, de câmeras, de computador, etc.), mais ainda devem tardar para registrar microchipe e nanochipe, que fazemos o favor de definir, a seguir:

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microchipe
substantivo masculino
mi.cro.chi.pe
(Eletrônica) chipe eletrônico miniaturizado, esp. um de modelo inventado em 2003, que começou a ser usado em aparelhos de telefone celular a partir de 2010, com dimensão de 1,5 centímetro de comprimento e 1,2 centímetro de largura
Etimologia: Do inglês “microchip”

nanochipe
substantivo masculino
na.no.chi.pe
1. (Eletrônica) chipe eletrônico miniaturizado cujo tamanho pode ser medido em nanômetros
2. (Eletrônica) esp. um de um modelo de chipes que começaram a ser usados em aparelhos de telefone celular a partir de 2012 (em substituição aos microchipes), cujas dimensões são de exatos 1,23 centímetro de comprimento e 0,88 centímetro de largura
Etimologia: Do inglês “nanochip”