“aimarás”, em português = “aimaras”, em espanhol

Evo Morales

O grupo populacional indígena predominante na Bolívia, ao qual pertence o presidente do país, Evo Morales, chama-se “aimara” – apenas em espanhol. Em português, a denominação correta é aimará – palavra oxítona, com acento no último “a”.

aimará é também uma das línguas oficiais da Bolívia – juntamente com o espanhol e com outras 35 línguas indígenas (a Bolívia tem, atualmente, 37 línguas oficiais). Não é correto chamar ao aimará ou a qualquer uma das línguas indígenas “dialetos“.

Como já dito, os aimarás são em espanhol chamados aimaras – sem acento, por ser, em espanhol, palavra paroxítona. Apesar da grafia correta em espanhol moderno ser essa (aimaras no plural, aimara no singular: Los aimaras hablan la lengua aimara), é comum ver também, especialmente na Bolívia, as grafias aymara aymaras, com ípsilon no lugar do i.

O “y” como semivogal foi há muito tempo substituído, na ortografia oficial espanhola, pelo “i”, quando no interior de vocábulos (“rainha” hoje, escreve-se reina, embora historicamente se tenha grafado reyna), tendo-se mantido seu uso apenas no final de palavras (por exemplo “rei”, que continua a escrever-se, em espanhol, rey).

Muitos dos próprios aimarás, porém, preferem a grafia “antiga”, razão pela qual é comum encontrar, sobretudo na Bolívia, a forma aymara – embora essa grafia não seja reconhecida pela Real Academia Espanhola nem conste dos dicionários oficiais espanhóisque apenas registram aimara.

Como o português, a língua espanhola não usa iniciais maiúsculas para nomes de povos e etnias: Los españoles no conquistaron a los aimaras, ou Os espanhóis não conquistaram os aimarás – em oposição à forma em inglês, em que o uso da maiúscula, nesses casos, é obrigatório: The Spanish didn’t conquer the Aymaras.

É importante recordar a diferença da sílaba tônica entre a palavra espanhola (aimara) e sua tradução portuguesa (aimará) sobretudo pelo fato de que a palavra aimara também existe em português, porém com significado diferente: em português, aimara é o nome de uma árvore.

Eta, notícia boa: Globo corrigiu nome da novela

Nem tudo está perdido: embora achássemos que já fosse quase causa perdida quando fizemos o apelo para que a Rede Globo corrigisse o nome da novela que estreou nesta semana (ver postagem original aqui), nada como uma boa notícia inesperada – a novela enfim apareceu com título e logotipo sutilmente corrigidos (ver comparação, abaixo)!  Na publicação anterior, recordamos por que “eta” não podia levar aquele acento. Gostamos de ver, Rede Globo!

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Dicionários desconhecem o pompoarismo…

Impressionantemente, o Houaiss, o Aurélio, o Aulete e a Porto Editora não trazem a palavra pompoarismo. Apenas o Dicionário Priberam se lembrou de registrá-la:

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pom·po·a·ris·mo
(inglês pompoir, pompoarismo + -ismo)

substantivo masculino

Conjunto de técnicas, de origem oriental, usadas no fortalecimento e controle dos músculos da vagina, geralmente para aumentar o prazer sexual.

“pompoarismo”
, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/pompoarismo [consultado em 22-01-2016].

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Chipe, não “chip” (e microchipe e nanochipe)

Para quem viu o vídeo de hoje do Porta dos Fundos, chamado chip, só um rápido lembrete: em português, existe a palavra chipe, com “e” – como já está até no Vocabulário Ortográfico Atualizado da Língua Portuguesa, da Academia de Lisboa (que, para não deixar dúvidas, indica se tratar de termo da informática, adaptação do inglês chip).

Aliás, que chipe de celular em português tem um “e” no final é algo que todo brasileiro já deveria ter aprendido seis anos atrás, à época do sucesso de “Pedro, me dá meu chipeeee“:”

Se ainda deve levar algum tempo para os dicionários, sempre atrasados, começarem a registrar chipe (de telefone, de câmeras, de computador, etc.), mais ainda devem tardar para registrar microchipe e nanochipe, que fazemos o favor de definir, a seguir:

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microchipe
substantivo masculino
mi.cro.chi.pe
(Eletrônica) chipe eletrônico miniaturizado, esp. um de modelo inventado em 2003, que começou a ser usado em aparelhos de telefone celular a partir de 2010, com dimensão de 1,5 centímetro de comprimento e 1,2 centímetro de largura
Etimologia: Do inglês “microchip”

nanochipe
substantivo masculino
na.no.chi.pe
1. (Eletrônica) chipe eletrônico miniaturizado cujo tamanho pode ser medido em nanômetros
2. (Eletrônica) esp. um de um modelo de chipes que começaram a ser usados em aparelhos de telefone celular a partir de 2012 (em substituição aos microchipes), cujas dimensões são de exatos 1,23 centímetro de comprimento e 0,88 centímetro de largura
Etimologia: Do inglês “nanochip”

 

Falta nos dicionários: húri – Húris, as virgens do Alcorão

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Na foto acima, o homem, meio desperto, meio em sonho, na fumaça de seu arguile (ou xixa – duas outras palavras que faltam dos dicionários, embora estes registrem narguilhé, que é dessas aberrações que só existem em dicionários, não no mundo real) imagina-se após a morte, rodeado de suas húris – as virgens, eternamente jovens, prometidas pelo Alcorão aos muçulmanos fiéis.

O Dicionário de Usos do Português do Brasil, de 2001, e o Dicionário UNESP do Português Contemporâneo, de 2004 – os dois únicos dicionários da língua portuguesa cujos vocábulos foram selecionadas metodicamente, com o uso de córpus científicos de análise da ocorrência real de palavras – já traziam, apenas, as formas paroxítonas: húri, plural húris, com a ressalva de que “a forma huri, sem acento, registrada por dicionários, não tem tido uso”.

Certos os dois dicionários; em Sagarana, uma das obras maiores da literatura brasileira, Guimarães Rosa já assim usava as mencionava:

Page 156

Plínio Salgado, o famoso integralista brasileiro nascido em 1895, também assim grafava o termo:

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Em 1968, Hernani Anjos escrevia:

Page 15

Em 1973, era a vez de Tony Bery:

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E temos, é claro, o termo no Alcorão, de onde se originou, e onde melhor se explica o que são as húris literais:

Alcorão 37:40-48 “Exceto os servos prediletos de Alá. Esses terão determinado sustento: frutas. E serão honrados, nos jardins da Delícia, estarão em leitos, frente a frente; far-se-á circular, entre eles, taça de vinho de fontes fluídas, branco, deleitoso; para quem o bebe, nele, não haverá mal súbito; e, com ele, não se embriagarão. E, junto deles, estarão aquelas de belos grandes olhos, de olhares restritos ao seu amado. Alcorão 44:51-55 “Por certo, os piedosos estarão em segura morada. Entre jardins e fontes; vestir-se-ão de fina seda e de brocado; eles estarão frente a frente. Assim será. E fá-los-emos se casarem com húris de belos grandes olhos. Alcorão 52:17-20 “Por certo, os piedosos estarão em jardins e delícias, hílares, pelo que seu Senhor lhes conceder – e seu Senhor guarda-los-á do castigo do inferno. Dir-se-lhe-á: ‘Comei e bebei, com deleite, pelo que fazíeis’. Reclinados sobre leitos alinhados. E fá-los-emos casados húris de belos grandes olhos.” Alcorão 55:56-76 “Neles, haverá fidalgas, formosas. Húris, reclusas nas tendas. Não as tocou, antes deles, nem humano, nem Jinn. Reclinados estarão sobre almofadas verdes e formosos tapetes.” Alcorão 56:15-17, 22-25, 35-38 “Os piedosos estarão sobre leitos de tecidos ricamente bordados, frente a frente. Circularão entre eles mancebos, eternamente jovens… e haverá húris de belos grandes olhos, iguais a pérolas resguardadas, em recompensa do que faziam. Neles, não ouviram frivolidades nem algo pecaminoso… por certo, fize-mo-las surgir, perfeitamente, e fize-mo-las virgens, meigas, da mesma idade, para os companheiros”.

“Me deixem escrever português como brasileiro”

Um texto para ser discutido. Professor da Universidade de Brasília, doutor em filologia e linguística, tradutor há décadas, ganhador do maior prêmio de literatura do Brasil, acaba de enviar o seguinte desabafo:

“Deixem eu ser brasileiro!
Sempre fico irritadíssimo quando recebo textos de revisores e, ao reler o que escrevi, encontro uma infinidade de “correções” que representam a obsessão paranoica de expurgar do texto escrito qualquer “marca de oralidade” (como se isso fosse possível), qualquer característica propriamente brasileira de falar e de escrever. É sistemático, é premeditado. Todos os “num” e “numa” que uso são insuportavelmente esquartejados em “em um” e “em uma”, como se essas contrações, presentes na língua há mil anos, fossem algum tipo de vício de linguagem. Me pergunto por que não fazem o mesmo com “nesse”, “nisso” ou com “no” e “na”: não seria lindo ver “em a”, “em o”, “em esse”? Não, seria um nojo! Por que essa perseguição estúpida ao “num”, “numa”? 
O mesmo acontece com o uso de “tinha” na formação do mais-que-perfeito composto: “tinha visto”, “tinha dito”, “tinha falado” são implacavelmente transfiguradas em “havia visto” etc., embora qualquer criancinha saiba que o verbo haver, no português brasileiro, é uma espécie em extinção, confinada a raríssimos ecossistemas textuais… Por que não fazem o mesmo com “tenho visto”, “tenho dito” e “tenho falado”? Já pensaram que vomitivo seria ler “hei visto”, “hei dito”, “hei falado”?
Por que não me deixam escrever “o fato do homem ser mortal” se até o conservador Evanildo Bechara já abonou e abençoou essa contração, visto que falar ou escrever de o é de uma artificialidade mais feia que novela de época?
E quando querem convencer o resto do universo de que existe alguma diferença entre este e esse? Uma diferença que a pesquisa linguística brasileira já mostrou que não existe há mais de um século! Ou que é preciso sempre distinguir onde e aonde (vão ler o Aurélio, por favor!).
É claro que o sintoma mais visível e gritante desse fundamentalismo retrógrado consciente é a putrefacta, abjeta, torva e torpe colocação pronominal. A próclise, isto é, o pronome antes do verbo principal, é veementemente combatida, enxovalhada, humilhada, ainda que ela seja a única regra natural de colocação dos pronomes oblíquos para nós. Isso já era afirmado em textos de João Ribeiro, em 1920! O combate é tão furibundo e insano que até mesmo onde a tradição gramatical exige a próclise ela é ignorada, e os livros saem com coisas como “não conheço-te”, “já formei-me”, “porque viram-nos”, esses filhotes teratológicos da hipercorreção. Isso para não mencionar a pré-cambriana mesóclise, que muitos desses necrófilos ainda acham que é uma opção de colocação pronominal, desprezando o fato de que se trata de um fenômeno gramatical morto e enterrado na língua dos brasileiros faz séculos (se é que jamais foi usada entre nós!).
Só me resta, então, apostrofar:
Senhoras revisoras e senhores revisores, deixem a gente escrever em português brasileiro, por favor! Consultem os seus calendários: estamos no século 21, e não nos brumosos anos de 1500! Consultem seus mapas: estamos no Brasil, e não em alguma esquina úmida e enevoada da (lindíssima) cidade do Porto! Vão estudar um pouco, um pouquinho só, larguem sua religião e pratiquem um pouco de ciência, saiam de sua redoma de vidro impermeável às mudanças da língua e venham aprender como se fala e se escreve o português do Brasil! Leiam alguns verbetes dos nossos melhores dicionários e aprendam que não tem nada de errado em escrever “assisti o filme” ou “deixa eu ver”, que a forma “entre eu e você” não é nenhum atentado contra a língua, nem muito menos “eu custo a crer”, que óculos é substantivo singular, que meia é advérbio flexionado etc. etc. etc.! Esqueçam o que dizem esses charlatães da gramática que não enxergam um palmo adiante do nariz tapado e dos olhos com viseiras! Compulsem o Houaiss, o Aurélio, o novíssimo Aulete! Leiam Luís Fernando Veríssimo, Fernanda Torres e Antônio Prata, nossos melhores prosadores na nossa melhor língua! Ouçam os apelos, que ecoam no tempo, de José de Alencar, Mário de Andrade, Monteiro Lobato e tantos outros que há tanto tempo pedem, suplicam, rogam, imploram: deixem eu falar e escrever na minha língua, na língua que é a única capaz de expressar meus sentimentos, emoções e ideias! Deixem eu ser brasileiro!”
Opiniões? Comentários? O que pensam a respeito?

Um moirão: cada uma das vigas que formam uma cerca

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Liguei para meu pai e ele estava reclamando do vizinho, que teria derrubado um ‘moirão’ ou sei lá quantos ‘moirões’ dele. Entendi que tinha algo a ver com a cerca da propriedade, mas confesso que nunca tinha ouvido a palavra, que nem sei se existe, e os dois dicionários que consultei dão sinônimos e explicações tanto mais complicados que até agora não sei: ele estava certo?

Sim, caro consulente: seu pai está absolutamente correto no emprego da palavra moirão (que também se pode escrever mourão).

Moirões (ou mourões) são cada um dos postes, vigas ou estacas de concreto, madeira ou pedra que, fixados perpendicularmente ao solo, dão sustentação ao material sobre eles fixado (telas, arames, placas de madeiras, etc.), para formar uma cerca:

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O problema do “português decoreba” dos cursinhos…

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Acima, um tuiteiro tenta grosseiramente desqualificar uma estudante de medicina por ela supostamente não dominar a norma culta do português, por falar “para mim fazer”. O fato, porém, é que o “para mim fazer” na frase acima está perfeitamente correto. O usuário que tentou desqualificá-la é que, claramente, não entende de português mais que as “decorebas” de cursinhos, que são só o que ele sabe repetir, acriticamente, mesmo em situações erradas – como essa.

Já falamos aqui, em publicação anterior, do mal que têm feito à língua portuguesa os cursinhos para vestibular e para concursos, sempre em seu desespero por mastigar todas as matérias em “esqueminhas” que possam ser decorados sem nenhum esforço mental por qualquer um. O problema, é claro, é que tais formulinhas mágicas não existem para o português: é bem verdade, por exemplo, que, de modo geral, a língua tende a dar preferência a particípios longos com os verbos “ter” e “haver”, mas isso não pode ser assimilado como regra para todos os verbos, sob o risco de alunos sem senso crítico começarem a achar que “tinha ganho” ou “tinha imprimido” são erradas, quando, em certos casos, são a forma preferível; da mesma forma, é verdade que, na frase “Isso é para ___ fazer ou para ela fazer?”, o correto seria “eu”, não “mim” – mas esse é um caso diferente do caso da manchete acima, em que a construção usada (“Seria difícil para mim fazer medicina“) está absolutamente correta.

E, para quem acha que de fato há algum problema na frase, nem precisamos explicar por que não – no jornal Folha de S.Paulo, o próprio professor Pasquale já o fez (podem clicar para ver a explicação completa):

Na frase de Sheila, o que há é apenas o emprego dos termos na ordem indireta, o que faz o pronome “mim” encostar em “fazer”, o que, para os afoitos, já basta como prova do “erro”. Não há erro algum, caro leitor. Esse “mim” é “mim” mesmo, já que não está ligado ao verbo “fazer”, por isso não pode ser o seu sujeito. Esse “mim” está ligado ao adjetivo “difícil” (“tal coisa é difícil para alguém”). 

Vamos dispor os termos em outra ordem? Vamos lá: “Fazer um curso de medicina no Brasil com certeza seria muito difícil para mim”. E agora? Alguém se atreveria a trocar esse “mim” por “eu”? Algum dos nobres “especialistas” diria “Fazer um curso de medicina no Brasil com certeza seria muito difícil para eu”? Francamente…

Não há erro algum na frase da nossa futura médica. O erro está na prepotência, na ignorância e na arrogância dessa turba raivosa. É isso.

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Leia também: “Mulher piloto? Não; o feminino de piloto é pilota.”

Leia também: “As membras da Academia Brasileira de Letras… Sim, existe a palavra membra”

Leita também: “Tinha aceito ou tinha aceitado? O perigo do português de cursinho…”

Falta nos dicionários: monocelha

young_tadeu“Tadeu Schmidt ri de sua monocelha ao se rever na seleção juvenil de vôlei”

Falta  nos dicionários, mas não na vida real: a monocelha. Está na Wikipédia, está no DicionarioInformal, na Folha de S.Paulo (também aqui e aqui), no Estadão,  n’O Globo, na Marie Claire, no R7, na revista Toda Teen, na Revista Quem, no Minha Vida, etc.

Reportagem do UOL diz que uma boa mostra sobre Frida Kahlo “vai além da monocelha famosa“. A revista Caras diz que “monocelha passa uma imagem de pessoa dominadora“, e tanto o iG quanto o WikiHow têm até tutoriais que ensinam “como desmembrar uma monocelha”.

A língua portuguesa vai bem de dicionários

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A língua portuguesa não tem uma entidade reguladora (não, a Academia Brasileira de Letras e a Academia das Ciências de Lisboa não têm prerrogativas reguladoras oficiais – prova disso é o fato de os Vocabulários Ortográficos de ambas estarem sendo ignorados – e em muitos casos contrariados – pelo Vocabulário Ortográfico Comum que se está a elaborar, e que será, este sim, oficial, mencionado que está no texto legal do Acordo Ortográfico de 1990).

Já a língua espanhola – que é a segunda língua mais falada no mundo – tem sua instituição reguladora oficial: a Real Academia Espanhola coordena as Academias da Língua Espanhola de todos os países hispanófonos, que, juntas, publicam periodicamente o dicionário “oficial” da língua espanhola – cuja versão mais recente, informa com orgulho a Academia, acaba de chegar a um número “recorde” de 93 mil palavras definidas (“verbetes”).

Parece pouco? E é: o Dicionário Larousse da Língua Francesa define hoje 135 mil verbetes, e o Dicionário Oxford do Inglês, o maior dicionário da língua inglesa, traz 290 mil verbetes.

Mesmo os maiores dicionários atuais dessas grandes línguas não superam, porém, o Grande Dicionário da Língua Portuguesa do brasileiro Antonio de Moraes Silva, cuja décima edição, publicada entre os anos de 1948 e 1958, de responsabilidade do português José Pedro Machado, trazia 306 949 verbetes.

A tradição lexicógrafa da língua portuguesa oferece-nos ainda – a brasileiros, portugueses e a todos os lusófonos – muitos motivos para sentirmo-nos orgulhosos:

  • Pouco depois de 1700, a língua portuguesa já tinha seu primeiro dicionário monolíngue: o de Bluteau (posteriormente, de Bluteau e Moraes), com 43 644 verbetes;
  • Enquanto a segunda língua mais falada do mundo, o espanhol, até hoje não produziu um dicionário que chegasse a 100 mil verbetes, a língua portuguesa já tinha, um século atrás, três dicionários com mais de 100 mil verbetes: o já mencionado Dicionário de Moraes; o de Caldas Aulete; e o de Candido de Figueiredo – este último com exatos 128 521 verbetes na edição de 1913 (hoje disponível gratuitamente aqui);
  • A esses três se somaria, em 1939, o “Grande e Novíssimo Dicionário da Língua Portuguesa”, de Laudelino Freire, com 208 104 palavras;
  • Entre as obras atualizadas, há hoje oito dicionários de português atualizados com mais de 100 mil palavras: o Priberam, o da Porto Editora e o da Texto Editores, em Portugal; o Estraviz, na Galiza; e, no Brasil: o Aurélio, o Michaelis, o Houaiss e o Aulete atualizado.
  • Apesar do nome, deve-se mencionar, ainda, a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, que, publicada originalmente entre 1936 e 1960, definia-se como em parte “um dicionário da língua comum de portugueses e brasileiros”, com mais de 250 mil entradas lexicais.

O primeiro Dicionário da Academia Brasileira de Letras, publicado em 1967, trazia, em cinco volumes, 72 mil  verbetes. Elaborado com grande esmero pelo grande filólogo Antenor Nascentes, a obra fora por ele entregue à Academia em 1943, mas ficou mais de 20 anos na gaveta até ser publicada; diferentemente de todos os dicionários brasileiros atuais, trazia as pronúncias figuradas de todas as palavras.

A segunda edição desse Dicionário da Academia Brasileira de Letras, revisada e aumentada, foi impressa, em seis volumes ilustrados, em 1976 – que traziam um total de 88 818 verbetes.

Em Portugal, depois de duas tentativas frustradas (em que não se passara da letra “A”) nos séculos anteriores, foi lançado em 2001 o primeiro Dicionário (completo) da Academia das Ciências de Lisboa, com 70 mil entradas. Embora aparentemente “pequeno”, é volumoso (são dois grandes tomos) e seguiu uma metodologia científica para a escolha de suas entradas, servindo-se de um corpus – um levantamento profissional de todas as palavras efetivamente mais usadas em Portugal. No Brasil, o primeiro dicionário feito com base em um corpus seria lançado no ano seguinte, em 2002: em seu “Dicionário de usos do português do Brasil”, Francisco da Silva Borba, da UNESP, trazia 62 800 entradas.

Ainda em Portugal, há o Dicionário Universal da Língua Portuguesa da Texto Editores, com 95 320 palavras na edição de 2006; o Grande Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que afirma ter 120 mil entradas; e o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, que, disponível gratuitamente na Internet, já conta com mais de 115 mil palavras e dá o mesmo tratamento que ao português europeu ao português brasileiro.

Também gratuitamente na Internet estão disponíveis os 211 732 verbetes do Dicionário Aulete, incluindo verbetes antigos e atualizados (até 2009).

A primeira edição (de 2001, no Brasil; de 2003, em Portugal) do Dicionário Houaiss definia 193 274 palavras (embora dissesse, na introdução, ter mais de 228 mil).

A 2ª edição do brasileiro dicionário Aurélio (a última em vida do renomado autor), publicada em 1987, continha exatas 115 243 palavras. Em sua atual (quinta) edição, o Aurélio define 143 387 palavras, incluindo, como o Priberam, tanto as variantes brasileiras quanto as lusitanas das palavras com dupla grafia.

A supracitada 10ª edição do Dicionário de Moraes (1948), com suas não superadas 306 949 palavras, ainda é, portanto, o maior dicionário de português já feito.