Nem ‘Guangzhou’ nem ‘Guangdong’: em português, Cantão

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O apresentador do telejornal acaba de afirmar que o primeiro caso de zica na China acaba de ser confirmado… em Guangdong. Da mesma forma que muita gente até hoje não sabe que Pequim e Beijing são a mesma cidade, graças à qualidade nossa televisão o brasileiro em casa vai dormir pensando que algo ocorreu em algum canto obscuro de que nunca ouvira falar na China, sem saber que, na verdade, o ocorrido se deu na tão conhecida província de Cantão.

Cantão é o nome da província chinesa chamada Guangdong em chinês; e é Cantão também o nome português da cidade que é a capital dessa província – cidade que é chamada Guangzhou em chinês. Em português, para diferenciar-se, sempre se referiu à cidade de Cantão ou à província de Cantão.

Chamar a tão famosa Cantão de Guangdong ou Guangzhou equivale a chamar, em português, Londres de London, ou Munique de München.

Além de Cantão, outras quatro cidades chinesas com nomes tradicionais em português, que devem ser usados, são Nanquim (Nanjing), Pequim (Beijing), Taipé (Taipei) e Xangai (Shanghai).

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Qual o dicionário de português com mais palavras?

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Após termos feito, anteriormente, uma lista com os maiores dicionários da língua portuguesa para responder qual é o maior até hoje, diversos leitores enviaram-nos os números atualizados de alguns dos dicionários mencionados. A própria Priberam nos deu a honra de comentar na publicação, informando que o Dicionário Priberam já passa das 115 mil palavras. Obtivemos, ainda, os números exatos de verbetes dos dicionários de Laudelino Freire, da Academia Brasileira de Letras e daquele que já tínhamos identificado, corretamente, como o maior dicionário até hoje já publicado. Para que esteja sempre atualizada, a publicação em questão se tornou uma página fixa, acessível pelo menu aqui acima (ou simplesmente clique aqui).

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Barém, aportuguesamento de Bahrein

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Com o Grande Prêmio do Bahrein de Fórmula 1 em evidência, proliferam na imprensa as menções a esse país árabe. A pronúncia padrão em português do nome Bahrein rima com tambémarmazém, Belém. Com base nisso, alguém poderia se perguntar: não se poderia, então, escrever, em português, Barém?

Certamente se pode – e, embora cause estranheza a muitos brasileiros, Barém é de fato a forma tradicional.

Como já comentamos em publicação anterior, na qual mostramos que o novo Acordo Ortográfico explicitamente traz “hem“, e não *hein nem *ein, como grafia oficial para a interjeição de espanto ou dúvida (“hem?”), é uma regra da língua portuguesa que o som final pronunciado, no Brasil, “êin” deve ser escrito “ém” (como em Belémtambém…).

Além disso, o nome Barém é tão tradicional em português que aparece mencionado, mais de uma vez, nessa grafia, n’Os Lusíadas de Camões, primeiro grande clássico da língua portuguesa:  “(…) Das perlas de Barém, tributo rico.”

Embora haja atualmente uma forte tendência mundial, e também na língua portuguesa, de se deixarem de lado “traduções” de nomes próprios, em favor do uso de formas internacionais (o que encontra respaldo, ainda, no texto do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, que deu carta branca para o uso das letras kw e  e de quaisquer combinações de letras não usuais em português, nos nomes próprios estrangeiros e em seus derivados), o aportuguesamento tradicional Barém tem legitimidade, como mostram as fontes a seguir:

Contracapa da primeira edição do Dicionário Melhoramentos – atual Dicionário Michaelis:

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Dicionário Silveira Bueno (“O mais brasileiro dos dicionários de português”):IMG_0766.JPG

Vocabulário Onomástico da Academia Brasileira de Letras (1999):

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Por fim, recordemos Cândido de Figueiredo, que, na parte final de seu dicionário, faz um compilado de nomes próprios frequentemente escritos errados já no século passado:

“Barém, região da Arábia. Em livros e mapas nossos, [vê-se] Bahrem e até Bahrein !”IMG_0760

Em outras palavras, é inegável que a forma “internacional” Bahrein é a mais usada em português, hoje – mas a língua portuguesa, com tantos séculos de história, já há muito criara sua versão própria para o nome do país, Barém.

O que não faz sentido, por outro lado, é a divulgação de invencionices recentes, criadas na cabeça de alguns puristas equivocados que, querendo rejeitar a forma internacional Bahrein, mas sem conhecer a história da língua portuguesa e a tradição do uso de Barém, inventam aportuguesamentos próprios, como Bareine ou Barein. É por isso que se diz que de boas intenções o inferno está cheio: se cada falante que quiser “salvar” a língua da invasão de termos estrangeiros começar a inventar seus próprios aportuguesamentos sem levar em conta aqueles já existentes, em pouco tempo ninguém mais se entenderia.

Palavras do português de Angola

Foi criada a seção fixa “português de Angola“, disponível no menu aqui acima, que, como as demais seções fixas, será permanentemente atualizada. Nessa seção específica, procurarei criar um minidicionário de palavras e termos próprios do português de Angola, que não se usam – ou não com o mesmo sentido – no português de Portugal e no português do Brasil.

Para ler a lista de palavras típicas de Angola, clique aqui.

“Adoção gay” incomoda conservadores em Portugal

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Na noite de ontem, 25 de fevereiro, o Bloco da Esquerda de Portugal lançou a imagem acima para comemorar a aprovação, pelo Parlamento português, da lei que permite a adoção por casais gays.

A revolta dos conservadores acabou sendo tripla: não apenas pela aprovação da lei em si, mas também pelo uso de inteligente paralelismo com Jesus (que “também tinha 2 pais”, como recordou o Bloco da Esquerda) – e, para calhar, conseguiram ainda incomodar os conservadores linguísticos, como o jornal português Público  – o único dos grandes jornais do país que deliberadamente se recusa a adotar a nova ortografia da língua, e, por isso, insiste em escrever adopção (com o “p” mudo que caiu, no Brasil, há mais de meio século, e, em Portugal, em maio de 2015) – mesmo nesse caso, ao escrever sobre uma lei que traz, em seu título legal, a palavra adoção, e ao ilustrar a própria reportagem com duas imagens que trazem a palavra adoção.

Um dia nada fácil para os conservadores portugueses, de todos os tipos.

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Harvard muda títulos de “mestres” após acusação de racismo

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De acordo com a BBC, a Universidade de Harvard, nos EUA, está “removendo a palavra ‘master‘ (mestre) de títulos acadêmicos, após protestos de estudantes” que afirmam que o título “mestre” teria reminiscências do passado escravocrata do país. Nos câmpus da Universidade vinham-se realizando havia algum tempo protestos e manifestações que acusavam o uso da palavra como ato de racismo.

Enquanto dicionários portugueses trazem “pessoa que ensina” como primeiro significado de “mestre”, dicionários da língua inglesa de fato trazem, como primeiro sentido de master, “A man who has people working for him, especially servants or slaves“.

Onlaine, aportuguesamento de on-line/online, no Vocabulário Ortográfico Atualizado

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Na mais recente edição (2014) do seu Vocabulário Ortográfico Atualizado da Língua Portuguesa, a Academia das Ciências de Lisboa – análoga portuguesa da Academia Brasileira de Letras – acolheu, como palavra portuguesa, a palavra onlaine – corretíssimo (e mais que bem-vindo) aportuguesamento do inglês on-line, também escrito online.


onlaine

Adjetivo
on.lai.ne, comum de dois gêneros

  1. situado e acessível na Internet
    • Eles oferecem uma suporte técnico onlaine aos usuários.
    • Ela fica o dia inteiro onlaine.
    • Qual o melhor dicionário onlaine que você conhece?

Etimologia
Do inglês online.


 

Supõe-se que um falante competente da língua portuguesa, com boa cultura, deve ser capaz de expressar-se em sua própria língua sem precisar recorrer todo o tempo a palavras estrangeiras. A completa aversão e repúdio ao uso de toda e qualquer palavra estrangeira, por outro lado, revela ignorância talvez até maior, por ser óbvio que a língua portuguesa nada mais é, em essência, que uma grande amálgama de vocábulos estrangeiros e deturpações da sua base originária, o latim vulgar. Não há sentido abominar o uso da expressão inglesa online, universalmente utilizada por sintetizar um conceito até recentemente inexistente; e, após anos de insistência (por exemplo, pela Porto Editora, com seus dicionários “em linha”), fica claro que não há versão “portuguesa” da expressão que tenha condições de vingar no uso comum; “em linha”, por exemplo, sequer seria um grande remédio, pois criaria ambiguidade com o sentido que já tem – de “ao telefone”.

A solução, portanto, é o aportuguesamento, que a Academia portuguesa fez à perfeição. Sendo bem-formado, e tão útil, já passamos a usá-lo – e inclusive já o colocamos em nossa lista de aportuguesamentos recentes (que também inclui neologismos de outras origens).

Agora é esperar que a palavra se popularize: quanto tempo levará para ser acolhida por algum dicionário – seja um em papel, seja um dicionário onlaine?