Barém, aportuguesamento de Bahrein

bahrein

Com o Grande Prêmio do Bahrein de Fórmula 1 em evidência, proliferam na imprensa as menções a esse país árabe. A pronúncia padrão em português do nome Bahrein rima com tambémarmazém, Belém. Com base nisso, alguém poderia se perguntar: não se poderia, então, escrever, em português, Barém?

Certamente se pode – e, embora cause estranheza a muitos brasileiros, Barém é de fato a forma tradicional.

Como já comentamos em publicação anterior, na qual mostramos que o novo Acordo Ortográfico explicitamente traz “hem“, e não *hein nem *ein, como grafia oficial para a interjeição de espanto ou dúvida (“hem?”), é uma regra da língua portuguesa que o som final pronunciado, no Brasil, “êin” deve ser escrito “ém” (como em Belémtambém…).

Além disso, o nome Barém é tão tradicional em português que aparece mencionado, mais de uma vez, nessa grafia, n’Os Lusíadas de Camões, primeiro grande clássico da língua portuguesa:  “(…) Das perlas de Barém, tributo rico.”

Embora haja atualmente uma forte tendência mundial, e também na língua portuguesa, de se deixarem de lado “traduções” de nomes próprios, em favor do uso de formas internacionais (o que encontra respaldo, ainda, no texto do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, que deu carta branca para o uso das letras kw e  e de quaisquer combinações de letras não usuais em português, nos nomes próprios estrangeiros e em seus derivados), o aportuguesamento tradicional Barém tem legitimidade, como mostram as fontes a seguir:

Contracapa da primeira edição do Dicionário Melhoramentos – atual Dicionário Michaelis:

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Dicionário Silveira Bueno (“O mais brasileiro dos dicionários de português”):IMG_0766.JPG

Vocabulário Onomástico da Academia Brasileira de Letras (1999):

 Bar

Por fim, recordemos Cândido de Figueiredo, que, na parte final de seu dicionário, faz um compilado de nomes próprios frequentemente escritos errados já no século passado:

“Barém, região da Arábia. Em livros e mapas nossos, [vê-se] Bahrem e até Bahrein !”IMG_0760

Em outras palavras, é inegável que a forma “internacional” Bahrein é a mais usada em português, hoje – mas a língua portuguesa, com tantos séculos de história, já há muito criara sua versão própria para o nome do país, Barém.

O que não faz sentido, por outro lado, é a divulgação de invencionices recentes, criadas na cabeça de alguns puristas equivocados que, querendo rejeitar a forma internacional Bahrein, mas sem conhecer a história da língua portuguesa e a tradição do uso de Barém, inventam aportuguesamentos próprios, como Bareine ou Barein. É por isso que se diz que de boas intenções o inferno está cheio: se cada falante que quiser “salvar” a língua da invasão de termos estrangeiros começar a inventar seus próprios aportuguesamentos sem levar em conta aqueles já existentes, em pouco tempo ninguém mais se entenderia.

2 comentários sobre “Barém, aportuguesamento de Bahrein

  1. Prezado autor,
    Considerando essas bandeiras da Contracapa da primeira edição do Dicionário Melhoramentos – atual Dicionário Michaelis e visto que tanto o Almanaque Abril atualizado quanto o site IBGE Países@ traz a informação de que a antiga Bielorrússia é denominada Belarus, assim como Birmânia agora é denominada Mianmar e há muito tempo chamamos de Síria a oficialmente denominada República Árabe da Síria, não seria prudente e correto adotar o nome Barein (grafia encontrada no site IBGE Países@) ou então Bahrein (grafia encontrada no site do Itamaraty – Ministério das Eelações Exteriores), tratando Barém como forma arcaica ou desatualizada?

    Curtido por 1 pessoa

    • Prezada Lorena,
      Como verá, no texto acima evitamos cair na sanha prescritivista de dizer que “o certo” em português é Barém; o que escrevemos foi que “se pode escrever Barém”; que, “embora cause estranheza”, “Barém é de fato a forma tradicional”, mas reconhecendo que existe “atualmente uma forte tendência mundial, e também na língua portuguesa, de se deixarem de lado traduções de nomes próprios em favor do uso de formas internacionais (o que encontra respaldo, ainda, no texto do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, que deu carta branca para o uso das letras k, w e y e de quaisquer combinações de letras não usuais em português, nos nomes próprios estrangeiros e em seus derivados)”. Se o próprio texto do Acordo Ortográfico manda escrever Kuwait e Malawi, não há por que rejeitar a forma Bahrein, usada pelo Itamaraty – e que é, ademais, e de acordo com o próprio IBGE, a máxima entidade, no Brasil, no que tange à toponímia estrangeira (ao passo que o IBGE é a entidade máxima no que tange à toponímia nacional brasileira) (a forma usada pelo Itamaraty, aliás, parece preferível à forma “Barein”, pois esta não é nem português nem internacional – é um híbrido, injustificado, como o seriam formas como Kuaite). Mas, sim, concordamos com o que diz – que, à luz do próprio Acordo Ortográfico, que manda escrever Kuwait, kuwaitiano, Malawi e malawiano, e das práticas brasileiras e internacionais, é perfeitamente legítimo usar Bahrein; mas quisemos, neste artigo, recordar a forma tradicional e histórica portuguesa, que é desconhecida da maioria dos lusófonos, embora tenha sido usada já por Camões.

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