‘Chikungunya’, em português: chicungunha – ou catolotolo

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O mosquito transmissor da dengue é um tríplice vetor de doenças ao homem: transmite, além da dengue e da já aqui tão discutida zica (e não Zika), também a chikungunya – cujo correto aportuguesamento é chicungunha.

Por vezes se ouve, em noticiários, a denominação “febre chicungunha” – puro decalque do inglês, onde também a dengue é chamada “Dengue fever“, sem que, só por isso, a tenhamos traduzido como “febre dengue”.

O nome Chikungunya vem da língua maconde, língua bantu da África oriental. O prefixo “chi“, pronunciado “tchi”, indica, em maconde e em outras línguas bantus, tratar-se de coisa (há outros prefixos, por exemplo, para verbos, pessoas, etc.); já a raiz da palavra vem do verbo “kungunyala” (pronunciado “cungunhala”), que significa “ficar contorcido / retorcido” – é o verbo que se usa, por exemplo, para se referir ao estado dos troncos e galhos de árvores que, no período da seca africana, ficam retorcidos. O nome de chikungunya para a doença deve-se à sensação de intensa dor nas juntas por ela causada, com a consequente prostração do doente.

O aportuguesamento chicungunha, que já vem sendo usado pela imprensa brasileira e portuguesa, obedece rigorosamente às regras ortográficas do português, com a substituição do “k” pelo “c” e a manutenção do “ch” com base na etimologia, segundo critérios já abordados (aqui e aqui).

Para os puristas da língua, que podem preferir um termo mais tradicional em português, existe a opção catolotolo – como a doença já era chamada, há anos, no português de Angola. O nome angolano vem do quimbundo: deriva do verbo para “ficar alquebrado” – isto é, fraco, curvado, contorcido. Interessantemente, o nome angolano catolotolo tem, portanto, etimologia análoga à da sua contraparte usada na outra costa da África, chicungunha – embora tenha sido esta, e não aquela, a popularizar-se mundialmente, pela adoção pela língua inglesa.

Também interessante, porém, é o fato de que, embora seja o único dicionário que já registre catolotolo, a Porto Editora não parece, pela definição apresentada, ter ciência de que catolotolo é a mesma doença hoje mais conhecida em Portugal (e no Brasil) como chicungunha.

[Atualização: dias após esta publicação, a Infopédia da Porto Editora incluiu o verbete chicungunha e atualizou o verbete catolotolo com a informação de que pode significar o mesmo que chicungunha.]

10 comentários sobre “‘Chikungunya’, em português: chicungunha – ou catolotolo

  1. Caro autor do blogue, aproveito o primeiro comentário, em que o Luciano escreveu “Suponho que (…) é erro (…)”, em vez de “suponho que seja erro”, para lhe sugerir que escreva um artigo substancioso sobre o uso adequado do subjuntivo em português, especialmente dos seus tempos compostos.
    As gramáticas dedicam poucas e pouco esclarecedoras páginas a esse modo; não tratam tampouco da consecutio temporum, ou, se o fazem, fazem-no superficialmente. É o assunto em que mais tenho dúvidas e em que me é mais difícil encontrar algo que mo esclareça.
    Há, ademais, algumas regras que me causam estranheza, como a de que ao pretérito perfeito do indicativo corresponde o pretérito imperfeito do conjuntivo e não o pretérito perfeito composto do subjuntivo, de modo que não se deve dizer, em contraposição às afirmações “ele foi eleito” e “ele esteve doente”, “não creio que ele tenha sido eleito” e “não creio que ele tenha estado doente”, mas sim “não creio que ele fosse eleito” e “não creio que ele estivesse doente”.
    Os exemplos são do Montexto, comentar frequente às postagens do Helder Guégués em O Linguagista, a quem já me referi; no entanto, a sua fonte é a Sintaxe Histórica Portuguesa, mais especificamente o § 278.
    Para uma alentada discussão a respeito, aceda a esta página: http://linguagista.blogs.sapo.pt/637274.html.
    Que não se restrinja a esse aspecto, no entanto, pois as minhas dúvidas não vão além dele. Por exemplo: por que me soa correto dizer “Acho que você é um bom profissional”, mas não “creio que você é um bom profissional”? Por ignorância minha ou por que o verbo “achar” denota mais certeza que o verbo “crer”?
    Enfim, é um tempo cujo uso, pelas dúvidas que suscita, tem vindo a rarear, sobretudo no português brasileiro.

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  2. Caro autor do blogue, aproveito o primeiro comentário, em que o Luciano escreveu “Suponho que (…) é erro (…)”, em vez de “suponho que seja erro”,
    Não há erro nenhum. O indicativo indica mais certeza do que o subjuntivo. Eu usei suponho aí para dar uma suavizada. Na verdade não supunha nada, afirmava.

    suponho que me ama.. e que se ressente de minha indiferença..
    O Moço Loiro, de Joaquim Manuel de Macedo

    Suponho que nem dá pelo que se passa em redor dele..
    A Mortalha de Alzira, de Aluísio Azevedo

    Suponho que houve engano da justica.
    No país dos ianques, de Adolfo Caminha

    Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato…
    Ou toca, ou não toca.
    Clarice Lispector Entrevista a Júlio Lerner, TV Cultura, 1977.

    Suponho que me pede mais do que me disse.
    Helena, de Machado de Assis

    Para inteligência, suponho que contos cheios são números perfeitos, que acabam em dez
    Cartas, de padre António Vieira

    Etc.

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    • Caro Luciano,

      Não disse nem sugeri que houvesse erro (ou que havia erro? – suponho que, nesse caso, não possa – não estou certo de o poder ou não – optar pelo indicativo porque neguei que tivesse sugerido haver erro), mas apenas chamei a atenção para a sua escolha, que poderia ter sido diferente, caso você houvesse querido suavizar a sua afirmação, papel a que o subjuntivo também se presta.

      Como vê, não lhe quis atribuir erro algum. Você apenas me deu a oportunidade de pedir ao autor do blogue que escreva, mais detidamente, sobre as nuanças do modo subjuntivo, sobretudo sobre consecutio temporum, que é o assunto em que mais tenho dúvidas, e as dúvidas de esclarecimento mais difícil..

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      • Reconheço que, ao sugerir ao autor do blogue que escreva um artigo sobre o uso adequado do subjuntivo logo depois de ter sublinhado a sua opção, Luciano, pelo indicativo permite, sim, entender o que escrevi como uma correção, mas o que eu quero mesmo é compreender bem o assunto para usar o subjuntivo do modo mais adequado ao que quero dizer, exatamente, em dado momento.

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  3. Embora muita gente julgue obrigatório o emprego do subjuntivo quando o verbo da oração principal é “supor”, “negar”, “acreditar”, “imaginar”, “desconfiar”, “suspeitar”, “crer” etc., o uso efetivo da língua mostra que escritores (clássicos e modernos) e falantes ora usam o subjuntivo (“Ele acredita que o ministro seja culpado”), ora usam o indicativo (“Ele acredita que o ministro é culpado”).
    A opção por uma ou outra forma não é neutra, não. Normalmente, quando se opta pelo modo subjuntivo, põe-se no plano da dúvida, incerteza etc. o processo expresso pelo verbo.

    http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2309201006.htm

    :
    “[…] Em casos da negação ou dúvida acerca da existência de pessoas ou coisas, o verbo poderá ir para o conjuntivo. […] Em orações substantivas com verbo crer, cuidar, pensar, supor, imaginar, entender, presumir e achar (no sentido de pensar, crer) cujo fato expresso é tido como real, o verbo pode vir no indicativo ou no conjuntivo ”. (ALI, 1966)

    http://www.leffa.pro.br/tela4/Textos/Textos/Anais/ABRALIN_2009/PDF/Hebe%20Macedo%20de%20Carvalho%20-%20ok.pdf

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    • No Brasil, como diz o Luciano, o que de fato se ensina é que a opção por uma ou outra forma confere nuance diferente ao que se diz. Se no português europeu o uso é diferente ou não, realmente não sei – confesso que vou ter que ler a respeito. Como sempre, obrigado pela sugestão!

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    • Caro Luciano,

      Não disse nem sugeri que houvesse erro (ou que havia erro? – suponho que, nesse caso, não possa – não estou certo de o poder ou não – optar pelo indicativo porque neguei que tivesse sugerido haver erro), mas apenas chamei a atenção para a sua escolha, que poderia ter sido diferente, caso você houvesse querido suavizar a sua afirmação, papel a que o subjuntivo também se presta.

      Como vê, não lhe quis atribuir erro algum. Você apenas me deu a oportunidade de pedir ao autor do blogue que escreva, mais detidamente, sobre as nuanças do modo subjuntivo, sobretudo sobre consecutio temporum, que é o assunto em que mais tenho dúvidas, e as dúvidas de esclarecimento mais difícil.

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  4. Pingback: “Chicungunha” – do dicionarioegramatica.com para o Houaiss e Porto Editora | DicionarioeGramatica.com

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