O Epiro, não *Épiro

trhhNa mesma reportagem mencionada na publicação anterior (em que O Estadão compara uma eventual vitória de Dilma Rousseff a uma vitória de Pirro), o colunista apresenta Pirro como rei do “Épiro”, região da Grécia. O nome correto da região é Epiro – paroxítono, não proparoxítono; miraculosamente, acertam todos os principais dicionários: o Priberam, o Michaelis, a Porto Editora, o Aulete, Aurélio e Houaiss, etc.

Apesar de os dicionários todos acertarem, é um erro muito comum, por razões que a própria razão desconhece, chamar o Epiro de Épiro. Deve ser o mesmo fenômeno curioso que faz ouvirem-se, ao menos no Brasil, *rúbrica no lugar de rubrica; *púdico no lugar de pudico; *ávaro no lugar de avaro; *íbero no lugar de ibero; e mesmo *Édito de Milão, em vez da correta Edito de Milão.

 

12 comentários sobre “O Epiro, não *Épiro

  1. A questão é: se toda a gente (digamos, 99,999%) fala de determinada maneira, por que razão é erro? Nunca conheci ninguém que dissesse «pudico», mas todos gramáticos dizem que é incorrecto. Faz sentido? Tenho dúvidas.

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  2. E eu nunca ouvi nenhum dos erros de prosódia indicados, com exceção de rúbrica, que penso até que é mais comum em Portugal do que no Brasil. Deve depender muito da região e dos ambientes onde a pessoa circula.

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    • Concordo com o Luciano; parece-me que a questão é que nenhuma dessas pronúncias virou predominante na “norma padrão”, que nada mais é que um eufemismo para o falar da elite culta de São Paulo, Rio de Janeiro e Lisboa. E, pelo menos no Brasil, na TV ouve-se sempre “pudíco”, “rubríca”, como manda a gramática. Curiosamente, no colégio jamais ouvi “Édito de Milão”, mas sim “Êdito”. Já “íbero-americano” me parece o desvio de prosódia mais comum, no Brasil, dos casos citados (mas creio que não se ouça tanto em Portugal, onde os derivados de “ibero” devem ser muitíssimo mais usados diariamente, e desde sempre).

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    • Em Portugal, nunca ouvi ninguém dizer «pudico». Nem na televisão, nem na rádio. Eu próprio sou incapaz de falar assim, seria alvo de chacota. Quanto às outras palavras: «rubrica» vai variando, ouve-se das duas maneiras; «ibero», não me lembro de a ouvir mal pronunciada; «edito», pelo contrário, acho que a maioria das pessoas pronuncia como se fosse proparoxítona.

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        • Sem querer puxar a sardinha para o “nosso” lado, mas essa faria sentido – os “recordes” nos chegam via inglês, em que é esdrúxula. Púdico é que não tem justificativa etimológica – é a velha hipercorreção, que nos faz tornar proparoxítonas palavras aparentemente difíceis, porque soam sempre mais eruditas (isso apesar de a tendência histórica da língua ser tornar os vocábulos todos paroxítonos).

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        • Concordo, mas veja: pelo menos nos dicionários Aulete e Michaelis, «recorde» aparece como paroxítona. Penso que neste caso prevaleceu a tal tendência, que refere, de tornar as palavras paroxítonas. «Púdico» pode ser um disparate, mas faz sentido lutar combater os falantes quando existe uma tendência tão forte? É a tal questão de saber o que é o correcto.

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        • Ah, mas aí, no caso de “recorde”, não foi tendência: desde que a palavra surgiu na língua portuguesa, todos os dicionários só recomendaram “recorde”, pelo étimo latino. Mas a pronúncia que se ouviu desde sempre no Brasil foi récorde. Tanto que, apenas a mais recente edição do Houaiss, e apenas o Houaiss, passou a registrar também “récorde” como variante. Foi na contramão do que vemos como “pudico”. Se o que você diz é certo, que em Portugal absolutamente jamais se ouve “pudíco”, certamente os dicionários a legitimarão. Mas, no Brasil, não ocorrerá, pois não é a pronúncia que se ouve nos meios cultos.

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        • De facto, já está legitimado, nem eu imaginava: no dicionário da Academia das Ciências de Lisboa e na Infopédia. Entretanto, pesquisei no Ciberdúvidas para saber o que dizem sobre este assunto. Veja como se confirma aquilo que afirmei:
          https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/pudico-cubico-e-cubiculo/10404
          Quanto a «recorde», aqui o processo foi diferente. Não houve qualquer espécie de «imposição», as pessoas pronunciam naturalmente «recórde».

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        • Mas a Academia das Ciências de Lisboa voltou atrás: no Vocabulário atualizado, de 2012 e 2014, que, segundo os autores, trazia as palavras que servirão de base para a segunda edição do Dicionário, eliminou-se “púdico”, mantendo-se apenas “pudico”. E a forma de apresentação da palavra na Infopédia não deixa claro se a consideram variante legítima ou forma errada que, de tão comum, viram por bem incluir, com remissão para a correta (como fazem em alguns outros casos). Mas concordo que, por seu testemunho de que é a única forma que por aí se ouve, deverá, entre idas e vindas, acabar por ser oficializada.

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        • Não conheço o Vocabulário da Academia. Quanto à Infopédia, faço uma leitura diferente. Este dicionário tem inúmeras entradas do género, que remetem para formas preferíveis ou menos controversas. Veja, por exemplo, a palavra «holígane» ou «sor», segunda acepção. Vieram-me estas à cabeça, mas poderia referir muitas mais.

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