O certo é loira ou loura? É louro ou loiro?

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O certo é cabelos louros ou cabelos loiros? Uma criança loura ou loira? Resposta: tanto faz. Louro e loiro são sinônimos, como loura e loira, segundo todos os dicionários brasileiros e portugueses.

Há várias palavras em português que podem ser escritas tanto com “oi” quanto com “ou”, indiferentemente: toucinho ou toicinho; mourão ou moirãocabelos louros ou cabelos loiros, uma mulher loira e um homem loiro ou uma mulher loura e um homem louro.

As formas em “ou” em geral são as mais antigas e tradicionais; é por essa razão que, em textos mais antigos em português (e até hoje em galego) é normal ver escrito, por exemplo, “dous” em vez de “dois”; “cousa” em vez de “coisa”; ou noute, em vez de “noite”.

Em Portugal, o processo de substituição de “ou” por “oi” já vai, aliás, mais avançado que no Brasil – por lá, é normal ouvir (e escrever) coiro, além de “couro”; doirado, além de “dourado”; toiro, além de “touro”;  loiça, além “louça”; e até “eu oiço” e “que eles oiçam“, ao lado das formas “eu ouço” ou “que eles ouçam”.

Siglas no plural: um DVD, dois DVDs, um CD, dois CDs, uma ONG, duas ONGs

Novamente, uma professora portuguesa se mete a espalhar pela Internet o mito de que, em português, siglas não têm plural. Segundo ela, dever-se-ia escrever “comprei dois CD“.

Ante tamanha insensatez (a língua já tem complicações reais demais para que alguém se meta a inventar proibições inexistentes), só nos cabe enfatizar: não, não existe nenhuma regra gramatical que impeça a pluralização de siglas em portuguêsPelo contrário: os únicos gramáticos que abordam o tema expressamente recomendam o uso do plural (“um CD, dois CDs“); os principais dicionários (Houaiss, Aurélio, Porto Editora, Academia Brasileira de Letras, Aulete, Michaelis) usam plurais em siglas; e a própria CPLP também.

Sim, como mostram fotos a seguir, a Academia Brasileira de Letras, o Dicionário Aurélio e o Dicionário Houaiss recomendam escrever, no plural, “CDs”, “DVDs”, etc.

É o mesmo que fazem o Dicionário Aulete (clique aqui), o Michaelis (aqui), os dicionários da portuguesa Porto Editora (aqui): todos usam siglas no plural, pelo acréscimo de um “s” minúsculo: um CD, dois CDs; um DVD, dois DVDs; uma ONG, duas ONGs.

Quanto aos gramáticos – Celso Luft, Napoleão Mendes de Almeida, Silveira Bueno e  Paschoal Cegalla são todos unânimes na questão:

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Também o professor Pasquale Cipro Neto assim afirma, em sua gramática:

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E o maior gramático da língua portuguesa hoje vivo, Evanildo Bechara, diz o mesmo em sua Moderna Gramática Portuguesa:

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Mas atenção: o “s” deve ser sempre minúsculo; e é errado usar apóstrofo: o certo é “dois DVDs” (e não “dois DVD’s“).

Vide, por exemplo, o plural de CD no Dicionário Aurélio:

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Ou, aqui, o plural de uma sigla no Dicionário Houaiss (2016):

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Vide, também, o plural de DVD no Dicionário da Academia Brasileira de Letras:

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Já a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, em sua mais recente declaração presidencial (a “Declaração de Díli”), assinada pelos presidentes de Brasil, Portugal e dos demais países lusófonos, oficializou a recomendação formal da “integração progressiva dos Vocabulários Ortográficos Nacionais (VONs) num Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa (VOC)“.

A “teoria” de que siglas não têm plural é tão absurda que obrigaria a que, antes de usar uma sigla, o falante pensasse se a sigla ainda é uma sigla, escrita com maiúsculas, ou se já se escreve com minúsculas – uma vez que ninguém discute que, quando escrita com minúsculas, óvni (da sigla para Objeto Voador Não Identificado) vira, no plural, óvnis.

Em suma: se, mesmo com isso tudo, alguém ainda disser (sem nenhuma gramática, acordo ou convenção como embasamento) que é errado usar plurais em siglas, basta ignorar – ou recomendar-lhe que deixe de prender-se a regras “inventadas”, como essa, que só se encontra em sites na Internet – mas em nenhuma gramática ou dicionário, nem tem qualquer embasamento teórico, linguístico ou factual.

Palavra “estrupo” existe, mas não tem nada a ver com “estupro”

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As palavras estrupo estrupada  existem em português – mas não têm nada a ver com estupro ou estuprada.

Sim, há muita gente que, por confusão, pronuncia (e escreve) mal a palavra estupro – que, no sentido de violação, violência sexual, crime sexual, só se pode escrever mesmo estupro. Por essa razão, para “corrigir” o erro, muita gente costuma dizer, taxativamente, que “a palavra estrupo não existe”. Mas isso é falso: estrupo também existe; é uma palavra antiga da língua portuguesa – mas de fato nada tem a ver com estupro.

Estrupo, palavra que pode ser encontrada em dicionários atuais como o Aulete e o Priberam  e em todos os bons dicionários antigos, é um muito antigo sinônimo de tropel, que significa o ruído intenso causado pelo andar ou pelo correr de muitas pessoas ou animais ou uma multidão.

No Grande diccionario portuguez ou Thesouro da lingua portugueza, de Domingos Vieira, publicado em 1873, a palavra estrupo já era considerada antiga (e portanto, desusada), como sinônima de estrepido ou de tumulto.

No New Dictionary of the Portuguese and English Languages, de 1871, estrupo era definido como: ESTRUPO, s. the noise made by many horses ambling or running together; multitude, crowd.

Dicionário de Moraes de 1831 (4ª edição – foto abaixo) também já trazia estrupo, com o significado de “rumor de gente revolta“. O mesmo dicionário trazia, também, o substantivo estrupada (palavra presente até no Dicionário da Academia Brasileira de Letras, de 1988, com o significado de “rajada de vento”), que não deve ser confundida com  o adjetivo estuprada – da mesma forma que não se deve, jamais, confundir a antiga palavra estrupo com o crime de estupro.

Moraes

Em português, o correto é czar (e não *tzar nem *tsar)

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Czar é a grafia tradicional, em português, para o título do antigo imperador da Rússia, e é a grafia que deve ser usada atualmente nos vários usos que a palavra adquiriu, sobretudo em sentidos figurados.

Czar, com “c” inicial, é a forma preferida por todos os dicionários portugueses e por todos os dicionários brasileiros com exceção do Houaiss, como veremos. Todos registram também a variante tzar, que imita a pronúncia russa da palavra.

O Dicionário Houaiss é o único que recomenda a forma “tsar” – uma das transliterações inglesas da palavra (embora também em inglês a forma mais usual seja czar), mas que sequer existe no Aurélio ou nos demais dicionários e que nunca teve uso em português.

Embora grafias como *tsar ou *tçar de fato representem melhor a pronúncia russa da palavra, a palavra portuguesa, desde sempre, foi czar, forma também usada em outras línguas ocidentais, baseada na escrita, mas que, ademais, tem a vantagem de remeter mais claramente à palavra que deu origem a “czar”: o nome romano César.

As formas tradicionais em português são mesmo czar (no plural: czares; no feminino: czarina). “Tzar” é uma variante menos usada de “czar”, mais próxima da pronúncia russa. E “tsar” é a variante em inglês – e, em português, apenas mais um dos muitos erros do Dicionário Houaiss.

Bagé ou Bajé? Bajeense ou bageense?

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O nome da cidade gaúcha é Bagé ou Bajé? Em tempos de Internet, não deveria ser difícil achar a resposta: basta procurar no Google a página institucional da prefeitura de Bagé, ou da Câmara de Vereadores de Bagé, ou mesmo a página do IBGE para confirmar que o certo é mesmo com “g”: “Bagé”.

Mas, em tempos de Internet, o problema é que qualquer um pode escrever e publicar qualquer coisa, razão pela qual proliferam tanto hoje em dia mentiras sem fundamento, que se espalham pela Internet como se verdades fossem.

Uma dessas mentiras de Internet é a afirmação de que o nome da cidade teria sido mudado “de Bagé para Bajé, na reforma ortográfica de 1943, que determinou que os nomes de origem indígena fossem grafados com ‘j’ e não com ‘g’.“. Mentira feia.

Em primeiro lugar, a etimologia exata do nome Bagé sequer é conhecida com segurança. Mas, mais importante que isso: basta ler as regras ortográficas de 1943 (disponíveis em sua versão integral aqui) para ver que não há, nem nessa nem em nenhum acordo ortográfico, nenhuma menção ao uso de “g” ou de “j” em palavras indígenas ou de qualquer origem.

Dizer que algum acordo ou reforma ortográfica determinou a escrita com “g” ou com “j” é informação completamente falsa.

Houve, sim, em meados do século passado, na elaboração dos vocabulários ortográficos, uma decisão acadêmica de, num esforço de padronização, passar-se a usar sempre o “j” e não “g” nos aportuguesamentos de origem tupi (como também se recomendaram o “ç” no lugar de “ss” e o “x” no lugar de “ch” nesses casos).

Mas os nomes seculares de cidades e estados brasileiros obviamente não foram mudados (e nem poderiam ser). Como a Bahia nunca perdeu seu “h”, o estado brasileiro de Sergipe, cujo nome provavelmente vem do tupi, nunca deixou de ser escrito com “g”, assim como permaneceram inalterados o nome da cidade catarinense de Lages (cujo nome vem do substantivo comum “laje”, com “j”) ou o da gaúcha Bagé – que sempre se escreveu e continua a ser escrito corretamente com “g”, e não com “j”.

No século passado, um desses dicionários que queria ser atualizado “corrigiu” vários nomes de cidades, achando que as cidades também “atualizariam” suas grafias. Ledo engano, é claro. O problema é que, como já falamos aqui outras vezes, em grande parte os dicionários não fazem mais que copiarem-se uns aos outros, perpetuando informações completamente erradas – é o caso das grafias bajeense Bajé, que até hoje podem ser encontrados em versões descuidadas de alguns dicionários, embora não representem o nome de nenhuma cidade real.

Dicionários bons, como o Aulete, trazem o correto gentílico de Bagé, que é, é claro, bageense. De todos modos, a fonte oficial para gentílicos e nomes de cidades no Brasil não é nenhum dicionário, mas sim o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (o IBGE), cuja página traz, para cada cidade, o respectivo gentílico entre outras informações importantes – e lá também estão “Bagé” e “bageense” (como também estão nos órgãos oficiais da própria cidade).

Os diferentes sons da letra R em português

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Nenhuma letra é pronunciada de tantas formas em português quanto o R. A maioria dos falantes de português por si só já tem no mínimo duas pronúncias distintas do “r”: uma para o “r” entre vogais, por exemplo na palavra “arara” (ou “caro”, “íris”, “urubu”, etc.), e outro usado no início de palavras ou quando dobrado: é o “r” de “rio” ou de “carro”.

Em partes, porém, da África lusófona, e mesmo em partes do Brasil, esse som do “r” “fraco” é usado também no início de palavras ou entre vogais (de modo que a palavra “carro” soa como “caro”) – é o caso, por exemplo, do sotaque de partes do interior do estado brasileiro de Santa Catarina.

Por outro lado, há muitos falantes que, além de um erre inicial e dobrado e outro erre entre vogais, pronunciam ainda de forma diferente o erre quando em final de palavra ou de sílaba – por exemplo em “mar”, “carne”, etc.

Além de chegar a ser mudo no final de palavras, como ocorre em grande parte do Brasil, na fala informal, no final de verbos (como “beber” etc., em geral pronunciados “bebê” etc.), a letra “r”, quando efetivamente pronunciada, pode ser pronunciada com o uso de pelo menos outros treze fonemas distintos. Os arquivos de áudio abaixo trazem, cada um, um fonema consonantal diferente, que representam letras diferentes no alfabeto fonético internacional e em outras línguas com maior número de consoantes, como o árabe; todos esses treze sons a seguir, porém, representam em português a letra “r”, na pronúncia de ao menos alguma região ou grupo do Brasil, de Portugal ou de algum dos demais países lusófonos:

https://en.wikipedia.org/wiki/File:Alveolar_tap.ogg#file

https://en.wikipedia.org/wiki/File:Retroflex_flap.ogg#file

https://en.wikipedia.org/wiki/File:Voiceless_glottal_fricative.ogg#file

https://en.wikipedia.org/wiki/File:Voiceless_uvular_fricative.ogg#file

https://en.wikipedia.org/wiki/File:Voiced_glottal_fricative.ogg#file

https://en.wikipedia.org/wiki/File:Voiceless_velar_fricative.ogg#file

https://en.wikipedia.org/wiki/File:Voiced_velar_fricative.ogg#file

https://en.wikipedia.org/wiki/File:Voiceless_pharyngeal_fricative.ogg#file

https://en.wikipedia.org/wiki/File:Voiceless_uvular_trill.ogg#file

https://en.wikipedia.org/wiki/File:Uvular_trill.ogg#file

https://en.wikipedia.org/wiki/File:Alveolar_trill.ogg#file

https://en.wikipedia.org/wiki/File:Alveolar_approximant.ogg#file

https://en.wikipedia.org/wiki/File:Retroflex_approximant.ogg#file

O “h” não mudo (ou h aspirado) em português: handebol, hóquei, jihadista, bahamense, Hanói, bahaísmo, etc.

Gostaria de saber qual a pronúncia correta das palavras hóquei e handebol, pois pelo menos no Brasil pronunciam o “h” da mesma forma que em inglês, mas, seguindo a norma da nossa língua, o “h” não deveria ter som – ou isso varia nos casos de aportuguesamento? Em outro site, um especialista diz que mesmo em aportuguesamentos o “h” não pode ser pronunciado em português, e ponto. Mas não fiquei convencido com a resposta.

Prezado leitor, primeiramente, quanto ao tal “especialista”: perdoa-lhe, que não sabe o que diz.

A postura do tal “especialista” que diz que “h” aspirado não existe em aportuguesamentos equivale à de um biólogo ou zoólogo que, ao encontrar na vida real uma comunidade de animais de que nunca tinha ouvido falar e que não constam de seus livros, declara que tais bichos simplesmente não existem.

Tão certo é que o “h” em muitos aportuguesamentos tem som aspirado que essa já é a posição oficial da Academia Brasileira de Letras e de nossos melhores dicionários, como o Houaiss.

A esse respeito, limito-me a copiar resposta publicada aqui no Dicionário e Gramática no ano passado:

Em cada vez mais casos, o “h” é pronunciado em palavras em português: Hanói; handebol; hanseníase; hóquei; bahamense; jihadista; saheliano; bahaísmo; hobbesiano; hegeliano; etc.

Os portugueses escrevem andebol, porque assim pronunciam o nome do esporte chamado, em inglês, handball. Já no Brasil a grafia sem “h” inicial jamais teria sucesso, porque a pronúncia culta e padrão, de norte a sul do Brasil, é com uma aspiração inicial – a mesma usada em nomes como Hillary e Hilton, e que corresponde ao som do “r” inicial brasileiro, na pronúncia padrão contemporânea.

Temos assim, de um lado, a proliferação no português de empréstimos vindos de outras línguas, muitas das quais têm o som do “h” aspirado: hacker, hobby, husky, hip-hop, hit, holding, hollywoodiano, Hillary, Hilton, Hobbes (e hobbesiano) e outros tantos, do inglês; Honda, Yokohama, hashi (os palitinhos de comida japonesa), do japonês; hamster (o animalzinho de estimação), hegeliano (referente a Hegel), hanoveriano, do alemão; hanseníase, do norueguês; hare krishna, do híndi; tatuagem de hena, tahine, jihadista, saheliano, dirham, do árabe; Hanói, capital vietnamita; han, a principal dinastia chinesa, etc.

De outro lado, temos o fato de que o “r” inicial, no Brasil, passou no último meio século a ser pronunciado exatamente como esse “h” aspirado (fenômeno quase absoluto nos estratos populacionais mais jovens de todas as regiões do Brasil, que pronunciam rata e marra como /hata/ e /maha/, embora o fonema concorra com variantes fonéticas pouco contrastantes, que preservam alguma guturalidade na pronúncia de certas regiões e indivíduos).

Os dois fatos somados – a substituição do antigo som do “r” português pelo som aspirado, na pronúncia padrão brasileira, somada à percepção de que esse som é o mesmo que o representado por “h” na maioria das línguas estrangeiras – têm levado à pronúncia aspirada do “h” intervocálico ou inicial em aportuguesamentos cujas formas originais já traziam o som aspirado: hanseníase, hóquei, bahamense, bahaísta, jihadista, saheliano, etc.

Assim, a pronúncia padrão brasileira de Bahamas é, inegavelmente, com aspiração medial – e o mesmo vale para o gentílico correspondente, bahamense ou bahamiano. É essa, aliás, a pronúncia recomendada pela própria Academia Brasileira de Letras – que, em seu Vocabulário Ortográfico (o VOLP), indica entre parênteses, quando se pesquisam palavras como bahamense, bahamiano, bahaísmo ou bahaísta, a pronúncia figurada das duas primeiras sílabas como “barra” (ver aqui). A mesma é a posição do maior dicionário da língua portuguesa, o Houaiss:

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Trata-se, sem dúvida, de uma inflexão na tradição da língua: segundo a tradição portuguesa, esses agás, por serem mudos, simplesmente tendiam a desaparecer em aportuguesamentos (como no nome da língua swahili, aportuguesado “suaíli“, ou no nome do deserto do Sahara, aportuguesado Saara).

Embora contrarie a tradição da língua portuguesa, entendemos ser impossível deter esse processo de evolução fonética – normal na história de qualquer língua – e acreditamos que, se aqueles que zelamos pela língua insistirmos que o “h” entre vogais não pode nunca, em em hipótese nenhuma, representar o som aspirado comum à maioria das línguas estrangeiras, o tiro nos sairá pela culatra: o que ocorreria seria a criação de formas como barramiano, sarreliano, randebol, etc. – da mesma forma que se criou e já se dicionarizou “esfirra” como aportuguesamento de esfiha.

A censura imposta pelos puristas, quando da introdução do prato árabe no Brasil, à grafia esfiha em português, e a insistência em que o aportuguesamento “correto” devia ser “esfia” (que jamais se popularizaria no Brasil, por não refletir a pronúncia brasileira ou árabe) levaram à criação do vocábulo “esfirra” (grafia que, embora reflita coerentemente a pronúncia brasileira, não “serve” para portugueses ou mesmos para os árabes – para os quais as grafias “-irra” e “-iha” trazem sons consonantais diferentes).

É preferível, portanto, aceitar a manutenção do “h” aspirado em grafias de palavras novas na língua a introduzir novo fator de instabilidade e divergência entre o português brasileiro e as demais variedades da língua.

Cumpre apontar, por fim, que o mesmíssimo dilema se impôs na língua espanhola; e que, similarmente ao que propomos, a sempre conservadora Real Academia Espanhola recentemente desistiu de “nadar contra a corrente” e passou a admitir que a letra h, que as gramáticas espanholas há séculos ensinavam ser sempre muda em início de palavra ou entre vogais (como em português), pode, sim, representar o som aspirado em certos vocábulos: por exemplo (segundo a Real Academia Espanhola) em Hanói (http://lema.rae.es/dpd/?key=Hanoi) ou em hámster (http://lema.rae.es/dpd/?key=h%C3%A1mster), entre outras palavras que entraram no espanhol vindas de outras línguas, e cuja lista – como em português – só tende a crescer.