Siglas no plural: um DVD, dois DVDs, um CD, dois CDs, uma ONG, duas ONGs

Novamente, uma professora portuguesa se mete a espalhar pela Internet o mito de que, em português, siglas não têm plural. Segundo ela, dever-se-ia escrever “comprei dois CD“.

Ante tamanha insensatez (a língua já tem complicações reais demais para que alguém se meta a inventar proibições inexistentes), só nos cabe enfatizar: não, não existe nenhuma regra gramatical que impeça a pluralização de siglas em portuguêsPelo contrário: os únicos gramáticos que abordam o tema expressamente recomendam o uso do plural (“um CD, dois CDs“); os principais dicionários (Houaiss, Aurélio, Porto Editora, Academia Brasileira de Letras, Aulete, Michaelis) usam plurais em siglas; e a própria CPLP também.

Sim, como mostram fotos a seguir, a Academia Brasileira de Letras, o Dicionário Aurélio e o Dicionário Houaiss recomendam escrever, no plural, “CDs”, “DVDs”, etc.

É o mesmo que fazem o Dicionário Aulete (clique aqui), o Michaelis (aqui), os dicionários da portuguesa Porto Editora (aqui): todos usam siglas no plural, pelo acréscimo de um “s” minúsculo: um CD, dois CDs; um DVD, dois DVDs; uma ONG, duas ONGs.

Quanto aos gramáticos – Celso Luft, Napoleão Mendes de Almeida, Silveira Bueno e  Paschoal Cegalla são todos unânimes na questão:

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Também o professor Pasquale Cipro Neto assim afirma, em sua gramática:

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E o maior gramático da língua portuguesa hoje vivo, Evanildo Bechara, diz o mesmo em sua Moderna Gramática Portuguesa:

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Mas atenção: o “s” deve ser sempre minúsculo; e é errado usar apóstrofo: o certo é “dois DVDs” (e não “dois DVD’s“).

Vide, por exemplo, o plural de CD no Dicionário Aurélio:

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Ou, aqui, o plural de uma sigla no Dicionário Houaiss (2016):

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Vide, também, o plural de DVD no Dicionário da Academia Brasileira de Letras:

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Já a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, em sua mais recente declaração presidencial (a “Declaração de Díli”), assinada pelos presidentes de Brasil, Portugal e dos demais países lusófonos, oficializou a recomendação formal da “integração progressiva dos Vocabulários Ortográficos Nacionais (VONs) num Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa (VOC)“.

A “teoria” de que siglas não têm plural é tão absurda que obrigaria a que, antes de usar uma sigla, o falante pensasse se a sigla ainda é uma sigla, escrita com maiúsculas, ou se já se escreve com minúsculas – uma vez que ninguém discute que, quando escrita com minúsculas, óvni (da sigla para Objeto Voador Não Identificado) vira, no plural, óvnis.

Em suma: se, mesmo com isso tudo, alguém ainda disser (sem nenhuma gramática, acordo ou convenção como embasamento) que é errado usar plurais em siglas, basta ignorar – ou recomendar-lhe que deixe de prender-se a regras “inventadas”, como essa, que só se encontra em sites na Internet – mas em nenhuma gramática ou dicionário, nem tem qualquer embasamento teórico, linguístico ou factual.

2 comentários sobre “Siglas no plural: um DVD, dois DVDs, um CD, dois CDs, uma ONG, duas ONGs

  1. Pingback: Perdoe-os, que não sabem o que dizem | DicionarioeGramatica.com

  2. Sempre tive essa dúvida, inclusive, desde a época do ensino médio, e me lembro bem de uma professora me dizendo que o correto é não colocar o S minúsculo após a sigla, no final. Quando editava na Wikipédia, já vi discussões de portugueses que diziam que o certo seria “dois CD”. Hoje, tive essa dúvida novamente e felizmente encontrei esta postagem. Acredito que aqui haja espaço para discutir essa questão. Como o próprio autor apresenta que as siglas são marcadas pelo plural em diversas fontes, não há dúvidas que, pelo menos no Brasil, as pessoas falam “tevês” e escrevem “TVs”. De qualquer maneira, pelo que pesquisei por conta própria e suspeito, o hábito de colocar um S minúsculo nas siglas no plural surgiu por conta de palavras de origem inglesa, pois no inglês não há dúvidas que o plural de “CD” (Compact Disc) seja “CDs”. Por isso, convencionou-se usar a mesma forma de plural para todas as outras siglas. Posso estar errado, pois como o autor mostrou, há “PMs”, “CPFs”, dentre outras siglas do português no plural nessa forma. Ficarei feliz se alguém puder mostrar a ocorrência de alguma sigla no plural de origem portuguesa antes da invenção do CD e do DVD.

    Não condeno nem acho errado usar a sigla no plural com o S minúsculo, mas também não vejo erro em usar o plural da sigla sem. De acordo com o Aulete, uma sigla é um “Conjunto das letras iniciais de uma denominação composta de duas ou mais palavras, formando ou não uma palavra (p.ex.: MAM – Museu de Arte Moderna; FAB – Força Aérea Brasileira)”. Fonte: http://www.aulete.com.br/sigla Sendo assim, uma sigla é qualquer palavra formada a partir das iniciais das palavras de uma forma composta. Se o que torna uma sigla são as iniciais das palavras, logo não interessaria o número ou o gênero, pois o que torna uma sigla são as iniciais. Voltando ao exemplo do CD, sei que, na língua francesa, costuma-se escrever “les CD”. com o artigo masculino no plural para indicar mais de um CD. Não vou ter uma fonte no momento para esse uso no francês, mas a Real Academia Española é categórica ao afirmar que:

    “En español, las siglas son invariables en la lengua escrita, es decir, no modifican su forma cuando designan más de un referente. El plural se manifiesta en las palabras que las introducen o que las modifican: varias ONG europeas, unos DVD, los PC. Por eso es recomendable utilizar siempre un determinante para introducir la sigla cuando esta ha de expresar pluralidad:
    
    La medida ha sido apoyada por diferentes ONG del país.
    ¿Con cuántos PC portátiles podemos contar?
    Tengo muchos CD de este tipo de música.
    
    Debe evitarse el uso, copiado del inglés, de realizar el plural de las siglas añadiendo al final una s minúscula, con o sin apóstrofo: PC’s,ONG’s,PCs, ONGs.”
    Fonte: http://www.rae.es/consultas/plural-de-las-siglas-las-ong-unos-dvd
    

    Acredito que seja uma tradição das línguas latinas não usar o S minúsculo em siglas no plural, principalmente nos países europeus. Mas, é claro, no Brasil a situação é diferente e essa forma é bastante difusa. Por isso, acredito que seja uma questão de escolha marcar ou não o plural na forma sigla. Não sei se isso é um exemplo ruim, mas, na editoração de um texto em que um cabeçalho se encontra obrigatoriamente com todas as letras maiúsculas, seria inconveniente usar o S na sigla, pois não haveria distinção se o S marca plural ou faz parte da sigla, indicando a inicial da última palavra da sigla. É claro que se a sigla é “ONGS”, o leitor entenderá que se trata de mais de uma ONG, mas siglas são criadas com facilidade, por isso até uma nova “pegar”, poderia haver inconveniências no que a sigla quer dizer. No caso de “óvni”, é possível ver que houve uma mudança da sigla para a incorporação na língua como um substantivo: de letras maiúsculas, passou para minúsculas, e inclusive teve uma acentuação.

    Só queria comentar sobre essa questão que me incomoda há um tempo já, e parece que não haver resposta definitiva. Que língua danada…

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