Dos mesmos autores de “uma piloto” e “uma soldado”… a primeiro-ministro.

Hoje, ainda há quem diga que ídola não existe, que presidenta não existe, que membra não pode existir, que uma pilota é uma “mulher piloto”, que uma soldada é uma “mulher soldado”… São os mesmos, mesmíssimos que, em 1984, teriam defendido ainda que “primeira-ministra não existe”, que era coisa de feministas ou esquerdistas, e que o certo era escrever “a primeiro-ministro”:

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Eu “ponhei”? Existe o verbo ponhar?

Num voo para Santa Catarina, a aeromoça pergunta à senhora ao meu lado se deseja gelo em sua bebida, a que a senhora responde que, se o suco já não estiver gelado, a aeromoça “pode ponhar umas duas pedrinhas.”

A naturalidade com que a senhora usou aquele verbo que me soava tão alienígena me fez rapidamente tirar o Aurélio eletrônico do bolso… E, de fato, o bom e velho Aurélio nunca nos deixa na mão:

Ponhar: verbo, usado nas regiões Sul e Centro-Oeste do Brasil, popular: O mesmo que pôr.

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Jogando a palavra no Twitter, vê-se que o verbo ponhar é, sim, usado. E muito (cliquem aqui para ver).

É obviamente uma forma popular, e, como tal, de se evitar em contextos não íntimos, a menos que não se importe com o julgamento de terceiros. Há, é claro, os que não se importam, para quem “pus” é muito mais feio e ambíguo do que o simpático “ponhei”.

O interessante é notar que sequer tinham essas formas de ser necessariamente populares: em galego, língua da qual veio a nossa (sim, ao contrário do que ensinam, muito simplificadamente, nas escolas, o português não veio diretamente do latim; veio do galego antigo), existe hoje o verbo ponher (ver aqui), considerado sinônimo perfeito do verbo pôr.

A criação brasileira de “ponhar” nada mais é, portanto, que uma tentativa lógica de “regularizar” o verbo em concordância com diversas de suas conjugações, como “eu ponho”, “que eles ponham”, etc. – que nada mais são que derivados diretos de ponher, forma antiga do verbo, que, com a evolução da língua (e a tendência dos falantes a reduzirem palavras e comerem sílabas), acabou reduzida a “pôr“.

Perdoe-os, que não sabem o que dizem

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O menino perdoou o pai“. Há algum erro na frase? É verdade que o verbo perdoar pode ser transitivo direto e indireto – pode-se perdoar alguma coisa alguém (“perdoar-lhe as dívidas”, por exemplo); mas, em havendo um único complemento (o de pessoa), a regência pode ser tanto direta quanto indireta: é correto dizer “Perdoa-lhes, pai”, mas também é corretíssimo dizer “Perdoa-os, pai”.

Em resumo, pode-se tanto perdoar alguém quanto perdoar a alguém.

Isso é o que ensinam todas as boas gramáticas ou dicionários publicados nas últimas décadas. O Houaiss, o Aurélio e Evanildo Bechara, imortal da Academia Brasileira de Letras e autor daquela que é a melhor gramática de português atualmente, sequer perdem tempo a respeito – pôde-se perdoar alguém ou a alguém, dizem eles. Os dicionários de regência do Brasil e de Portugal são igualmente unânimes a esse respeito.

A Gramática de Celso Cunha e Lindley Cintra (1984), até hoje a mais vendida e citada tanto em Portugal quanto no Brasil, há mais de três décadas explicitava: embora, com dois objetos, o verbo “perdoar” exija a preposição “a” para pessoa, a construção “perdoar alguém”, com pessoa como objeto direto, já era normal no português arcaico, desde a Idade Média. Exemplos vão desde os jornais portugueses e brasileiros de hoje às obras do incomparável Machado de Assis, que escreveu que “o fazendeiro,  mais tarde ou mais cedo, acabará perdoando a filha“.

Se é tão consensual que se pode perdoar alguém (e não apenas “a alguém”), por que esta publicação de hoje? Porque, aponta-nos um leitor, uma página portuguesa de dúvidas de português cometeu, ontem, o disparate de circular em vermelho a manchete acima, colocar sinais de erro em “perdoa o pai” e dar espaço para a afirmação, contrária a todos os dicionários e gramáticas da língua, de que “perdoar o pai” estaria errado. Sem nenhum fundamento. Entende-se que porque a autora do artigo não gosta da construção. Mas não admite que é seu estilo ou capricho pessoal, e “vende” sua preferência pessoal como verdade absoluta. Um verdadeiro desserviço aos leitores.

De resto, a verdade é que a tal articulista do tal site português tem um mérito: não importa o que ela afirme sobre a língua – é só ter em mente que o certo é exatamente o contrário do que ela afirma, e aí fica tudo bem.

Ela afirma que siglas não têm plurais? Já sabem o que significa: que, segundo o Houaiss, o Aurélio e todas as boas gramáticas atuais, siglas têm plural sim.

Ela afirma que colocar o pronome após infinitivos, como em “sem preocupar-se“, está errado? Já sabem o que quer dizer: que a construção “sem preocupar-se” está corretíssima, segundo todos os gramáticos portugueses e brasileiros.

Ela diz que a construção “Todo o cálcio que necessita” está incorreta e que “necessitar” nunca pode ser transitivo direto? Já sabem: ensinam o Aurélio, o Houaiss e todos os dicionários de regência que “necessitar” pode ser tanto direto quanto indireto (e a construção acima está, portanto, perfeita).

Ela diz que a frase “Os burocratas que falam demais” está errada e que o certo teria de ser “de mais”? Já sabem: segundo o Houaiss, o Aurélio e qualquer gramático, “demais” pode, sim, ser usado exatamente nesse caso, e a frase em questão está corretíssima.

Em resumo: perdoem-na, e perdoem aos que lhe dão espaço, porque na verdade só deve inspirar pena esse tipo de gente – os criadores de “falsos erros” de português (e existem tantos deles pela Internet), que, por viverem de corrigir erros de português dos outros, acabam percebendo que é conveniente inventar regras que não existem, inventar falsos erros de português – pois, afinal, o seu prestígio (e, muitas vezes, a sua renda) vêm justamente da injustificada insegurança que têm muitos bons falantes cultos da língua, convencidos de que não dominam a própria língua por charlatães que vivem disso.

Os gentílicos das ilhas de Cabo Verde

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Um leitor cabo-verdiano pergunta qual a grafia correta, em português, da denominação oficial dos cidadãos ou naturais de cada uma das ilhas da República de Cabo Verde, país africano cuja língua oficial é o português (embora quase toda a população o fale como segunda língua, não materna) e cujo território é um disperso arquipélago (conjunto de ilhas). O nome que se dá ao natural ou cidadão de uma determinada localidade é gentílico (o gentílico da cidade de São Paulo, por exemplo, é paulistano; e o do estado de São Paulo, paulista).  Em resposta, portanto, ao pedido de nosso leitor cabo-verdiano, segue a lista das nove ilhas habitadas de Cabo Verde:

Ilha Brava – bravense

Ilha do Fogo – foguense

Ilha do Maio – maiense

Ilha de Santiago – santiaguense

Ilha de Santo Antão – santantonense

Ilha de São Vicente – são-vicentino

Ilha de São Nicolau – são-nicolauense

Ilha do Sal – salense

Ilha de Boavista (ou Boa Vista) – boavistense

Boa nova (notícia boa) não tem hífen; “boa-nova”, com hífen, é inseto

dsc00646A borboleta da foto acima é uma boa-nova. Já uma boa notícia é, obrigatoriamente, uma boa nova, sem hífen.

Alguém consultou se “boa nova”, no sentido de “boa notícia”, levaria hífen. É claro que não. Como já explicamos dezenas de vezes, hífen não é enfeite – só se usa quando necessário. “Bom senso” significa literalmente um sentido (senso) bom. Por isso não leva hífen. Uma “greve geral” é literalmente uma greve que é geral. Por isso não leva hífen. E uma “nova”, de acordo com qualquer dicionário, é o mesmo que “notícia” – de modo que uma “boa nova” é literalmente uma “boa notícia”. Colocar hífen nesse caso não é apenas desnecessário – é errado.

Mas, se alguém for ao Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras, lá encontrará boa-nova, com hífen. Por quê? Simples razão: por que boa-nova é também o nome de uma borboleta – e todos os nomes de espécies de animais e plantas levam hifens (em muitos casos, justamente para diferenciá-los de composições vocabulares comuns). O Acordo Ortográfico de 1945, aliás, usava justamente esse termo entre os exemplos de encadeamentos em que o hífen era obrigatório: “boa-nova (inseto)”.

Sim, no texto do Acordo está explícito: boa-nova, com hífen, é o inseto.

Mas alguém na equipe que faz o dicionário Houaiss entendeu errado, viu boa-nova no VOLP e passou a supor que “boa nova”, no sentido de “boa notícia”, tem hífen. E aí, como em tantos outros casos, os vários dicionários que copiam cegamente o Houaiss por considerá-lo melhor do que é copiaram burramente mais esse erro do Houaiss.

O excelente Dicionário Aurélio e os bons dicionários portugueses da Porto Editora, que são das únicas obras que não copiam o Houaiss, ensinam corretamente: uma boa notícia é uma boa nova. Sem hífen. Boa-nova, com hífen, é, como ensinam esses dicionários, ou o excelente Dicionário da Academia Brasileira de Letras, ou a versão original do Aulete: “qualquer pequena borboleta branca, tida como anunciadora de boas notícias“.

Colocar hífen em boa-nova (em seu sentido literal) é o mesmo que escrever “boas-notícias” ou “boa-notícia”: um erro.

‘Stevia’ em português: estévia

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Acabam de lançar no Brasil a “coca-cola verde”, adoçada com Stevia, o novo adoçante da moda, quase sem calorias e, supostamente, com o mesmo gosto do açúcar tradicional. A pronúncia é do nome do adoçante é /stévia/, não /stevía/, mas ninguém é obrigado a saber disso – especialmente porque a substância tem nome em português em quase todos os dicionários: estévia.

A estévia, segundo o Dicionário Priberam, é a “Designação dada a várias plantas da família das compostas, pertencentes ao gênero Stevia, originárias da América do Sul, em especial à Stevia rebaudiana, da qual se extrai um adoçante”, e é, também, o nome do “Adoçante extraído dessa planta”.  O melhor da informação dada pelo Priberam, porém, é a origem do nome da planta: foi uma homenagem a seu descobridor, o espanhol Pedro Jaime Esteve.

Ou seja: escrever “estévia” sem e em português é não apenas violar a ortografia da língua portuguesa (como também o é escrever “stressar”, “stressado”, etc.), mas é também um desrespeito ao nome daquele que a própria planta homenageia.

 

Diferença, em português, entre crocodilo, jacaré, aligátor e caimão

imageA família Crocodilidae é a família dos crocodilos; outra família diferente é a Alligatoridae, cujos membros são chamados indistintamente jacarés, aligátores ou caimões.

Uma criança de dois anos foi morta na Disney, atacada por um Alligator mississippiensis. Nas caixas de comentários das notícias sobre o caso nas imprensas brasileira e portuguesa, uma constante: a estupidez de lusófonos que, mais que com a criança, se preocupavam em “corrigir” os repórteres que haviam se referido ao animal como um “jacaré“.

Houve, de um lado, ignorantes a dizer que não podia ser um jacaré, mas sim um crocodilo, pois nos EUA o que há são crocodilos. Errados. De fato, o que mais há nos EUA são crocodilos, que efetivamente são animais distintos dos jacarés, inclusive de famílias diferentes. Mas, especificamente no estado da Flórida, há, sim, jacarés. O estado da Flórida é, aliás, o único lugar do mundo em que se podem encontrar naturalmente jacarés e crocodilos no mesmo ambiente.

De outro lado apareceram os “especialistas” segundo os quais o animal não era crocodilo mas também não era um jacaré, “porque jacarés são os do Brasil”; segundo estes, o bicho que atacara a criança era um aligátor.

“Aligátor” nada mais é que o aportuguesamento de alligator, que é a tradução, em inglês de jacaré – do mesmo modo que os jacarés ou alligators são chamados, em espanhol, caimanes, de onde se criou ainda outro aportuguesamento, caimão.

As três palavras, de diferentes origens, referem-se exatamente aos mesmos animais: jacarés, aligátores caimões são sinônimos.

Biologicamente, os crocodilos pertencem à família Crocodylidae; outra família, diferente, é a família Alligatoridae, que inclui oito espécies – são portanto oito animais chamados, em inglês, alligators; em espanhol, caimanes; e, em português, jacarés. As oito espécies são:

As seis primeiras espécies são encontradas no Brasil e também em demais países da América Latina (nos países de língua espanhola são, em geral, chamados de caimanes). A penúltima das espécies mencionada acima é encontrada na Flórida e em outros estados dos EUA, onde é, em geral, chamado de alligator; e o último é encontrado apenas na China, onde é chamado de 學名.

Da mesma forma que, em português, não chamamos o jacaré-da-china de 學名, não há por que chamarmos os jacarés dos EUA de aligátores, assim como não necessariamente chamamos um jacaré colombiano de  caimão.