Loló, droga caseira – cheirinho de quem?

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Bastou o programa Fantástico, da Rede Globo, fazer menção a uma droga na noite de ontem para a expressão usada ir parar nas redes sociais… e não de forma elogiosa. Brasileiros no Twitter ridicularizaram o programa pelo nome usado para designar o entorpecente caseiro conhecido como loló: “cheirinho da loló” foi o nome usado pela Globo – mas, como mostram as reações populares, não é, de maneira nenhuma, um nome que se use.

Culpa da Globo? Mais ou menos: culpa da Globo, isso sim, por confiar cegamente nos dicionários brasileiros famosos.

No Houaiss, de fato está lá – loló remete para “cheirinho da loló”, que seria, segundo o Houaiss: líquido de feitura doméstica, composto da mistura de substâncias voláteis e anestesiantes, as quais, quando aspiradas, causam sensação análoga à que é provocada pelo cloreto de etila do lança-perfume.

A informação, como o Houaiss admite, foi tirada da edição de 1988 do Aurélio. Passados quase trinta anos desde então, é meio que esperado que gírias como essa tenham mudado.

Nesses casos, a verdade é que o melhor é confiar não em dicionários como o Houaiss, mas em dicionários eletrônicos atualizados diariamente – como por exemplo o autointitulado Dicionário Informal – que traz, corretamente, “loló”, como “Droga ilícita que é cheirada”, ao passo que “cheirinho da loló” simplesmente não tem registro ali.

Como regra geral, fica a dica para a Rede Globo e demais veículos de mídia brasileiros: independentemente do que diga o Houaiss, se uma gíria não existe no Dicionário Informal, é porque a gíria não se usa – pelo menos há muitos anos.

Em tempo, como mostra o mesmo Dicionário Informal, loló tem ainda outro significado informal no Brasil – o de orifício anal.

8 comentários sobre “Loló, droga caseira – cheirinho de quem?

  1. Tenho 37 anos, portanto, o nome usado na matéria não me é estranho e, entre pessoas da minha idade, até hoje, é o mais usado. Embora ache exagerada essa repercussão do assunto, sei que essa é a realidade dos desocupados de plantão da internet. O que me causou estranhamento foi o posicionamento do site em favor da repercussão. A não ser que esteja implícito que a net e o o jornalismo de hoje seja domínio de “pirralhos”, aí sim, me calo. Será que teremos que, aceitando essa suposta nova ordem, por exemplo, adotar que não há diferença no uso de “mas” e “mais”, também?

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    • Junior, seu comentário é muito pertinente. Mas confesso que achei, sim, que, se o objetivo é dialogar com os usuários da tal droga caseira (em sua maioria, jovens), o ideal é fazê-lo usando o termo de fato usado por eles, e não o termo usado 20 anos atrás e que causa riso entre eles. Por outro lado, não consegui deixar passar o comentário sobre “mas” x “mais” porque, por enorme coincidência, é justamente tema sobre o qual vinha pensando recentemente: como é irônico o linchamento moral a que submetemos os que escrevem “mais” em vez de “mas”, quando a palavra “mas” de fato veio (e é uma deturpação) de “mais”, forma mais usada em português até a Idade Média – e ainda a oficial em galego, nossa língua-mãe – e de longe a pronúncia majoritária no Brasil. O que quero dizer é que, sentindo muito decepcioná-lo, mas, sim, do mesmo modo que nossos dicionários trazem onte como sinônimo de ontem, etc., acho que dicionários deviam trazer também “mais” como sinônimo (no mínimo “antigo” ou “popular”) de “mas”.

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      • Caro,

        As polêmicas entre linguistas e gramáticos, descritivistas e normativistas me fazem lembrar as discussões filosóficas em que se contrapõem pragmáticos e metafísicos, ou melhor, em que se contrapunham, porque, depois de Wittgenstein, ficou difícil sustentar concepções metafísicas sobre o que quer que seja.

        Como, infelizmente, nem todos estão familiarizados com as implicações da virada linguística para as Humanidades e as Ciências Sociais, a metafísica ainda reina absoluta na gramática tradicional: alguns cultuam com tal fervor a própria ideia de linguagem pura que chegam a reprovar certos usos a autores a quem reconheceriam, não obstante, como canônicos. Vide, por exemplo, o trecho da gramática de Cunha e Cintra, citado em artigo recente do Ciberdúvidas, em que se condena a mistura do pretérito perfeito e do presente histórico num verso de Camões. É como se um bispo reprovasse em Cristo ação que lhe parecesse insuficientemente cristã…

        Já alguns linguistas deduzem da premissa pragmática de que não há norma pura (esse debate me lembra muito da polêmica, em filosofia do direito, entre positivistas e pós-positivistas) a conclusão, não consequente, de que não há norma alguma, de modo que não haveria tampouco certo e errado, mas apenas registros diferentes de linguagem (formal, coloquial, popular).

        A conclusão correta é, na verdade, de que há sempre norma, há sempre certo e errado, mas que a norma, em vez de ser estática e de refletir a existência de uma linguagem pura universal e atemporal, é dinâmica e reflete as interações entre falantes considerados cultos num dado lugar, em determinado tempo.

        É conclusão que desagrada aos extremistas de um lado e do outro, daí por que não se entendem: os tradicionalistas acham que linguistas como Marcos Bagno querem pôr o Seu Creysson à direita de Machado e à esquerda de Eça no Panteão da Lusofonia (e, de vez em quando, Bagno lhes dá motivo para que assim pensem), enquanto os linguistas revolucionários veem os gramáticos como agentes da burguesia a quem interessa conspurcar a pureza do proletariado com laivos de literatice.

        Eu assisto à peleja de longe e aprendo, com os descritivistas, que o uso sempre acaba por fazer a norma no longo prazo, e, com os normativistas, que não é qualquer uso que a faz, mas o bom uso, que é o dos homens-bons, sejam eles quem forem em cada lugar, em cada tempo.

        Um abraço,
        Rodrigo.

        P.S.: “Mas” digo eu; mais não digo, que “mais” posso dizer mais.

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        • Prezado Rodrigo: que síntese perfeita da situação gramatical. Não seria capaz de retocar ou agregar nada – apenas que é um prazer poder ler seus comentários e uma honra e um privilégio tê-lo conosco. E, se puder e tiver colegas e amigos que dividem o mesmo interesse que o nosso, chame-os cá, para que as publicações possam tornar-se conversas e discussões, sobre tópicos como todos esses que sintetizou tão bem nessa postagem, e cujo debate tanta falta faz no Brasil e sobretudo na Internet hoje.

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        • Caro,

          Os colegas e amigos que sei dividirem o nosso interesse são os que encontro nos espaços para comentários dos blogues do português Marco Neves (Certas Palavras: http://www.certaspalavras.net), que tem da língua uma visão arejada como a sua, do também português Helder Guégués (http://linguagista.blogs.sapo.pt), tradutor e revisor um bocado tradicionalista, mas cujo rigor é de louvar, embora não de imitar sem alguma moderação, e do seu próprio. Os três são os blogues que acompanho amiúde, pela regularidade das atualizações e pela sua qualidade.

          Não se encontram muitos por aí que se interessem pela língua mais que o necessário para sanar uma dúvida que surge enquanto escrevem ou para corrigir o erro dos outros que nem sempre é mesmo erro.

          Felizmente, a Internet nos permite encontrar outros como nós, por poucos que sejam e por muito distantes que estejam.

          Um abraço,
          Rodrigo.

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        • A quem recomendou o blogue do Guégués nos comentários: postava sempre lá, mas desisti. O autor acha-se um génio da língua, mas já lhe identifiquei vários erros, comento e o que faz o autor? Não me publica os comentários. Sim, estou aproveitando-me de que aqui os comentários vão automaticamente, sem filtro, para protestar contra esse suposto linguagista. Ontem mesmo, após ele ter criticado alguém que usou a regência “sucedê-lo” porque essa seria uma regência antiga, e um “Anónimo” tê-lo criticado, ao que ele rebateu, repliquei: “O que me parece que o Anónimo quis dizer, e que subscrevo, é que aqui muitas vezes se defenderam regências verbais que 99% dos lusófonos hoje não usam, sob o argumento de que tal seria a regência clássica, “correta”. Outras vezes, como hoje, rejeita-se uma regência clássica sob argumento de que a regência padrão “atual” seria outra – o que não deixa de ser uma contradição em si, se o que se está a criticar é justamente que muitos ainda a usam…”. O que fez o hipócrita sem resposta? Não me aprova o comentário. Para mim chega, não dou mais audiência nem cliques a um burro arrogante desses. Ass: João Desconfiado

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  2. Para mim tanto faz, que não conhecia nem loló nem o cheiro dela, nem teria entendido sem a explicação dada neste blogue, só gostaria que constasse que no texto ABC das drogas, da página antidrogas.com.br http://www.antidrogas.com.br/abc.php, que suponho seja atualizada periodicamente, aparece o termo cheirinho-da-loló (sic) (com hifens, ao contrário do registro do Houaiss).

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