Eu “ponhei”? Existe o verbo ponhar?

Num voo para Santa Catarina, a aeromoça pergunta à senhora ao meu lado se deseja gelo em sua bebida, a que a senhora responde que, se o suco já não estiver gelado, a aeromoça “pode ponhar umas duas pedrinhas.”

A naturalidade com que a senhora usou aquele verbo que me soava tão alienígena me fez rapidamente tirar o Aurélio eletrônico do bolso… E, de fato, o bom e velho Aurélio nunca nos deixa na mão:

Ponhar: verbo, usado nas regiões Sul e Centro-Oeste do Brasil, popular: O mesmo que pôr.

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Jogando a palavra no Twitter, vê-se que o verbo ponhar é, sim, usado. E muito (cliquem aqui para ver).

É obviamente uma forma popular, e, como tal, de se evitar em contextos não íntimos, a menos que não se importe com o julgamento de terceiros. Há, é claro, os que não se importam, para quem “pus” é muito mais feio e ambíguo do que o simpático “ponhei”.

O interessante é notar que sequer tinham essas formas de ser necessariamente populares: em galego, língua da qual veio a nossa (sim, ao contrário do que ensinam, muito simplificadamente, nas escolas, o português não veio diretamente do latim; veio do galego antigo), existe hoje o verbo ponher (ver aqui), considerado sinônimo perfeito do verbo pôr.

A criação brasileira de “ponhar” nada mais é, portanto, que uma tentativa lógica de “regularizar” o verbo em concordância com diversas de suas conjugações, como “eu ponho”, “que eles ponham”, etc. – que nada mais são que derivados diretos de ponher, forma antiga do verbo, que, com a evolução da língua (e a tendência dos falantes a reduzirem palavras e comerem sílabas), acabou reduzida a “pôr“.

21 comentários sobre “Eu “ponhei”? Existe o verbo ponhar?

  1. Caro,

    Já ouvi muito “ponhar” no interior de Minas e de Goiás. No registro coloquial urbano, ouço mais “botar”; no culto, “colocar”; “pôr” está rareando. Até mesmo em expressões fixas, “colocar” vem substituindo “pôr”: encontram-se mais resultados no Google para “colocar uma ideia em prática” do que para “pôr uma ideia em prática”, por exemplo.

    Um abraço,
    Rodrigo.

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  2. Pôr, ponhar e ponher som diferentes evoluções do latim “ponere”. Acho que o “ponher” nom é um invento moderno, ò contrário, é a forma mais antiga. Isto é porque é ũa evoluçom mais “conservadora”. Apenas perdeu o “e” final (coma o verbo cantar) e o “n” passou a “nh”.
    Mais, bom, isto pode comprobar-se doadamente cũa aplicaçom: http://www.corpusdoportugues.org/hist-gen/
    Digitas “ponher”, século XIII e XIV e pronto.

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        • Eu diria que é da segunda porque evoluiu de um verbo que pertencia à segunda, originalmente, mas esta seria uma resposta preguiçosa: é preciso ver como se conjunga, se segue a conjugação de verbos da primeira ou da segunda. Se bem que nem isso nos ajudaria, por se tratar de verbo irregular.

          Pelo meu ouvido de mineiro, que já escutou muita gente dizer ponhar, digo-lhe que só dei pela existência desse verbo quando era usado no infinitivo ou quando era conjugado no pretérito, perfeito ou imperfeito, porque, no presente, ele só dá sinal de vida, na boca dos que o usam, na primeira pessoa do plural: ponhamo. Nas demais, conjuga-se da mesma forma que pôr, no presente.

          Já no pretérito, como dizia, é que se manifesta, em toda a sua plenitude: eu ponhei, ocê ponhô, nós ponhamo, ocês ponharo (aqui estou sendo fiel à pronúncia popular, até porque quem se expressa assim é, frequentemente, gente que não sabe escrever ou não escreve corriqueiramente), formas do pretérito perfeito; eu ponhava, ocê ponhava, nós ponhava (e nunca nós ponhávamos, porque essas mesmas pessoas também diriam nós amava, e não nós amávamos), ocês ponhava ou ponhavo (talvez ponhavom, com alguma nasalização do o final). Nesses tempos, o verbo se conjuga conforme os parâmetros da conjugação regular dos verbos de primeira conjugação.

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        • Se a sumidade intelectual que passou por aqui há pouco lesse esta discussão, espumaria de alegria em ver uma prova cabal de que estava certo. Já até o ouço: “Não falei, não falei? É papo de botequim! Olhe só o tipo de linguagem a que se faz referência lá, com naturalidade, como se fosse português, como se existisse, como se não fosse um rudimento de fala de gente sem estudo”.

          E aí não veria, na fala popular, ecos das raízes mais profundas da língua portuguesa.

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  3. Também fiquei surpresa ao ouvir essa palavra no interior de São Paulo, mais surpresa ainda em saber que existe …rsrsrs…Até chamei a atenção de meu namorado em pronunciar essa palavra…Agora tenho que pedir desculpas a ele…hehe

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  4. Muito aliviada por ter esclarecido sobre a existência ou não deste verbo e sua conjugação. Confesso que me feria os ouvidos ao ouvir. Mas sou compreensiva com a nossa língua, como boa Mineira que sou. Obrigada a todos!

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  5. Eu tive um excelente professor de português que dizia que o dicionário Aurélio era um lixo, porque qualquer palavra mal falada ou de expressão popular ainda que fosse errado entrava no dicionário..
    Como se não bastássemos ser o país onde mais se fala errado..

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    • Você quis dizer “ainda que fosse errada”, e não “errado”, porque fez referência a “qualquer palavra mal falada ou de expressão popular”. Quis dizer também “Como se não bastasse sermos”, porque o que devia bastar, mas não basta é sermos o país onde mais se fala errado (ou melhor, erradamente, advérbio, e não errado, adjetivo). Noutras palavras, “sermos o país onde mais se fala errado” é sujeito com que concorda o verbo bastar: como se isso (sermos o país onde mais se fala errado) não bastasse.
      O seu professor de português, pelo visto, não era tão bom assim. Ou você não foi muito bom (boa?) aluno(a?).

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    • Cara Pat,
      O seu professor não entendia muito bem como uma língua funciona – o que é uma pena, pois passou aos seus alunos, inclusive a você, esse entendimento equivocado. TODAS as palavras da sua frase, por exemplo, já foram erradas um dia; o próprio verbo “pôr”, que você considera a única forma correta, nada mais é que uma forma “mal falada” do antigo “põer”. De tanto as pessoas falarem errado, séculos atrás, trocando “põer” por “pôr”, os dicionários passaram a acolher “pôr”, e essa forma errada virou a “certa”, e aquela que era certa caiu em desuso.

      Todas, todas as palavras da língua passaram pelo mesmo processo – é assim que funciona uma língua viva. Se os dicionários não acolhessem e legitimassem as palavras mal falafas ou expressões populares, ainda falaríamos como na época de Camões (“leixar” em vez de deixar, etc.), ou, na verdade, ainda estaríamos falando latim. O português nada mais é que um latim “mal falado e popular”.

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