Jogos paralímpicos ou paraolímpicos? Paralimpíadas ou paraolimpíadas?

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Oficialmente, os jogos se chamam “Jogos Paralímpicos“. Mas a Folha de S.Paulo diz que vai insistir em “paraolímpico”, por considerar essa forma mais correta. Se a ideia é “corrigir” nomes próprios, a Folha deveria passar a grafar “Têmer” – ou poderia começar corrigindo o erro de pontuação no nome oficial do próprio jornal.

E mesmo que a ideia fosse “corrigir” nomes próprios, a “lógica” linguística da Folha está errada: paralímpicos” não surgiu do prefixo latino “para-” + “olímpico“, como chutam, sem verificar a etimologia da palavra. O nome na verdade veio da amalgamação das palavras “paraplegic” e “olympics” – e, quando se criam palavras por esse processo de amálgama (como portunhol, estagflação ou informática), a regra é justamente que a segunda palavra unida perca seu início.

Por fim, o professor Pasquale argumenta (como se isso argumento fosse) que o Dicionário Houaiss não traz as grafias paralímpico paralimpíada. Alguém precisa urgentemente dar um Houaiss atualizado para o professor:

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Em artigo hoje, a Folha de S.Paulo (a mesma que ainda escreve tríplex Cingapura) tenta justificar por que é dos únicos jornais que insistem nas grafias “paraolimpíadas”/ “paraolímpicos”, com “o“, mesmo após a padronização internacional das formas sem “o” (paralympics em inglês, paralimpíadas em espanhol, jeux paralympiques em francês, jogos paralímpicos nos demais países lusófonos, etc.). Primeiramente, o Pasquale tenta usar um argumento de autoridade: diz que “os cânones da língua” recomendam a forma paraolimpíada. Mentira.

É mentira rasteira, pois de difícil verificação – afinal, quem seriam os tais cânones da língua? -, mas mentira completa: nenhum daqueles que, sob qualquer ponto de vista, são considerados os “cânones” da língua jamais abordaram a questão das palavras paralimpíadas e paraolimpíadas. E nem poderiam: até poucos anos atrás, nem umas nem outras – nem as formas com “o”, nem sem “o” – existiam em nenhum dicionário de português.

Ao invocar os “cânones” da língua, o Pasquale faz supor que a forma “paraolímpicos” remontaria a Camões – mas a verdade é que nenhuma gramática jamais tratou desses neologismos. Nenhuma boa gramática do século passado ou deste – de Celso Cunha, Bechara e Rocha Lima a Cegalla, Napoleão Mendes de Almeida ou Celso Luft – jamais defendeu uma forma ou outra. Nossos dois maiores dicionaristas, Aurélio e Houaiss, morreram sem que nenhuma dessas palavras (nem paralímpico, nem paraolímpico) ainda tivessem estreado em qualquer dicionário da língua portuguesa. A primeira aparição de paraolímpico em dicionários de português deu-se já neste século, em 2001. E a primeira aparição de paralímpico em dicionários foi em 2009, segundo o Houaiss.

Erra também ao afirmar que a letra “o”, de olímpico, nunca poderia ser suprimida em uma composição vocabular. Quem afirma isso parece desconhecer os outros processos existentes de criação de palavras em português – como o de amálgama, que levou à criação de palavras como “portunhol”, “estagflação”, “internauta” e mesmo “informática” (criada de “infor[mação] [auto]mática”) – em que, em regra, se une o início de uma palavra ao fim de outra.

E o fato é que a palavra inglesa “paralympic” não veio do prefixo latino “para-” + “olímpico”, mas sim da amalgamação das palavras “paraplegic” e “olympics” – e, nesse processo de formação vocabular, a regra justamente é que a segunda palavra perca seu começo ao entrar na composição.

Tudo isso posto, o fato de se tratar de nome próprio deveria ser suficiente para a Folha entender por que ficou praticamente sozinha nessa posição tão boba: é como se o jornal passasse a escrever Têmer, com acento, para “corrigir” a grafia do nome do novo mandatário brasileiro. Por coerência, deveriam corrigir também os nomes de todos os jogadores de futebol; e mesmo siglas que não se pronunciam como se escrevem, como “Mercosul”.

Irônico é que a correção do nome próprio dos jogos, uma marca registrada, venha justamente de um jornal cujo nome oficial – “Folha de S.Paulo” – atenta contra regras do bom português ao “engolir” o espaço que seria obrigatório entre “S.” e “Paulo“.

Por fim, se a argumentação de alguém para definir se uma palavra existe ou não na língua se resume à presença ou não da palavra em dicionários, esse alguém deveria pelo menos adquirir dicionários atualizados nesta última década – pois fica feio rematar um artigo com a afirmação de que o Dicionário Houaiss sequer aceitaria as grafias paralimpíada e paralímpico, quando, na verdade:

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Há, por fim, aqueles que argumentam que a palavra paralímpico (ou qualquer outra palavra) não existe porque não está no Vocabulário da Academia Brasileira de Letras (o VOLP). Para estes, recomendamos este artigo, com link onde se pode ouvir da boca do próprio presidente da Academia Brasileira de Letras que a Academia é uma ONG, sem caráter oficial, e que seu VOLP não tem valor legal ou oficial; e que o vocabulário de fato oficial é o Vocabulário Ortográfico Comum da CPLP, ainda em elaboração – mas que já traz a palavra paralímpico.

30 comentários sobre “Jogos paralímpicos ou paraolímpicos? Paralimpíadas ou paraolimpíadas?

  1. Pior: “sabichões” como Pasquale erram também ao afirmar que a letra “o”, de olímpico, nunca poderia ser suprimida em uma composição vocabular. Balela. Quem afirma isso parece desconhecer outros processos existentes de criação de palavras em português – especificamente o de amálgama, que levou à criação de palavras como “portunhol”, “estagflação”, “internauta” e mesmo “informática” (criada de “infor[mação] [auto]mática”) – em que, em regra, une-se o início de uma palavra ao fim de outra.

    E o fato é que a palavra inglesa “paralympic” não veio do prefixo latino “para-” + “olímpico”, como Pasquale ingenuamente supõe, mas sim da amalgamação das palavras “paraplegic” e “olympics” – e, nesse processo de formação vocabular, a regra justamente é que a segunda palavra perca seu começo ao entrar na composição.

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    • Texto com elevado grau de ironias e sarcasmos, chegando a ser desrespeitoso com um dos nossos maiores estudiosos da língua portuguesa na atualidade. Quem assina o texto? Cadê a coragem pra assumir o que diz.

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      • “Cadê a coragem pra assumir o que diz”, pergunta… o anônimo. Haha. Mas por favor, nem diga o nome, para evitar que eu xingue a senhora sua mãe, porque, olha: toda uma comunidade acadêmica que anualmente produz teses, mestrados, doutorados, estudos de campo, centenas de linguistas que dedicam décadas à pesquisa e à produção linguística, produzem gramáticas, dicionários e estudos sérios, e você vem me dizer que um jornalista ex-apresentador de TV que nem pós-graduação tem e nunca produziu nada é “um dos maiores estudiosos da língua portuguesa”? Ah, vá-te catar…

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      • Quem assina o texto é alguém que não quer “aparecer” nem ficar famoso nem rico por ensinar português, porque não preciso e porque de “celebridades gramatiqueiras” a língua já está cheia; e, ainda, alguém que prefere “convencer” com base em argumentos linguísticos e teoria gramatical, e não com base num “nome”, numa “marca”; tudo que não quero é alimentar o atual cenário de bestialização dos debates sobre o português, em que, em vez de estudar linguística ou simplesmente pensar sobre a língua, as pessoas preferem apenas seguir o que diz um jornalista global sem formação linguística.

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  2. Há, por fim, aqueles que argumentam que a palavra paralímpico (ou qualquer outra palavra) não existe porque não está no Vocabulário da Academia Brasileira de Letras (o VOLP). Para estes, recomendamos este artigo, com link onde se pode ouvir da boca do próprio presidente da Academia Brasileira de Letras que a Academia é uma ONG, sem caráter oficial, e que seu VOLP não tem valor legal ou oficial; e que o vocabulário de fato oficial é o Vocabulário Ortográfico Comum da CPLP, ainda em elaboração – mas que já traz a palavra paralímpico.

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  3. Matou a cobra e mostrou o pau. Você lê o artigo do Pasquale, lê este aqui, volta pro do Pasquale e vê que não sobrou nada. Nem uma frase. Percebe-se que o professoreco da Folha só tem fama porque aparece na Globo. Parabéns pelo trabalho.

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  4. (argento) … já que a língua é dinâmica e pertence ao povo que a fala, independente de “regras” de povos outros que não a falam (paralympic), arrisco uma “contração natural”: parOlimpíadas

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  5. Perdoem-me a ignorância, mas qual é a justaposição de palavras na palavra “internauta” que o autor diz que há ao citá-la como exemplo da amalgamação como processo de criação de palavras? A dúvida é sincera, Não achei a origem dessa palavra :/

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    • Prezado Igor: o que se diz é que veio de Inter[net] + [astro]nauta. Claro que o sufixo -nauta poderia ter vindo de outra palavra, sendo clássico na língua, mas, dada a raridade no emprego de outras palavras com o sufixo (como argonauta), acho crível que se tenha criado por influência de astronauta. Ainda que, no campo das etimologias, a verdade é que estamos sempre entre suposições…

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      • Caro,

        Nauta não é só sufixo, é também substantivo de dois gêneros que significa navegante, marinheiro, e eu acho (acho, frise-se) que vem dessa acepção o nauta em internauta, aquele que navega pelos mares revoltos da Internet, se me permite a escorregadela poética já desgastada.

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      • Caro,

        Desconheço a história da palavra internauta. Pode-se ter dado o caso de que se tenha começado a usar pelo povo, mas se pode ter dado o caso de que se tenha cunhado por alguém que, sei lá, criou a Internet. Falo aqui sem nenhum conhecimento da história dessa palavra.

        Se a hipótese correta for a segunda, não seria de estranhar que o seu criador conhecesse o termo, que também existe em inglês, “naut”, e é sinônimo de “nautical”: “Of or concerning sailors or navigation; maritime”, English Oxford Living Dictionaries (on line, consultado agora).

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  6. Um erro recorrente que acaba escapando nessa discussão é o uso do termo “Paralimpíada”, que não existe, não é usado pelo IPC.

    “Olimpíada” é um termo histórico que se refere ao período de 4 anos que começa na abertura dos Jogos Olímpicos: “Jogos da XXXI Olimpíada”.

    Assim, não existe Olimpíada de Inverno, muito menos “Paralimpíada”/”Paraolimpíada”, apenas Jogos Olímpicos de Inverno e Jogos Paralímpicos (em inglês abreviado como “Paralympics”.

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  7. Como se deu a amalgamacao da palavra internauta ? Pensava eu que internauta vinha de internet (ingles) + nauta (latim: navegador)

    “amalgamacao ” e “ingles” porque somente assim meu teclado digital aceita!

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    • Segundo etimólogos, surgiu na década de 1980 da amalgamação de Inter(net) + (astro)nauta – o que me parece o mais lógico, já que a palavra astronauta tem (e já então tinha) uso incomparavelmente maior que o termo latino para navegador (que aparece na própria etimologia de astronauta, também, é claro). Mas, como nauta de fato existe como elemento à parte, é impossível afirmar com certeza que “internauta” veio de amálgama e não de composição normal; a verdade é que, no campo das etimologias, estamos quase sempre navegando entre incertezas e especulações.

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  8. Caramba… estava apenas pesquisando qual seria a forma correta do termo e me deparei com um texto que, embora tecnicamente bem fundamentado, tropeça e peca pelo excesso de ironia e mesmo raiva. Me senti até mal ao final da leitura. Menos raiva, mais compreensão. Nem vou perder tempo buscando, aqui, mais informações. Desse fel o mundo está cheio demais…

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  9. Pingback: Grafia correta: paratleta, paratletas | DicionarioeGramatica.com

    • Divergências de opiniões são bem-vindas, como essa do Cláudio Moreno, que é honesto ao dizer que defende paraolimpíada simplesmente porque gosta dessa forma e porque a outra lhe causa estranheza. Diferentemente do outro, não mente – não diz que uma grafia é tradicionalíssima na língua, não diz que só uma respeitas as regras de formação, etc. Não temos nenhum problema com opiniões divergentes – só o que criticamos são os caga-regras – os muitos que surgem com regras de português mentirosas, inventadas, que parecem tiradas bem sabe de onde, para fazer crer que seus gostos pessoais são o correto e o que não lhes agrada é erro. E há tantos desses caga-regras, charlatões da língua, em Portugal e no Brasil… Mas, felizmente, Cláudio Moreno nunca foi um deles.

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