Colocação pronominal: o pior erro é a hipercorreção

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Uma das maiores diferenças entre o português brasileiro falado e o português padrão escrito é a colocação dos pronomes átonos. A colocação pronominal padrão no Brasil, em todos os meios orais, é apenas uma: a próclise ao verbo principal (Ele me viuOs dois se amam; Ele quis me derrubarJá tinha te dito isso).

Já no padrão oral de Portugal (que ainda é, para os gramáticos conservadores brasileiros, o que se deve tomar como a normal culta a ser copiada), os pronomes átonos tendem à ênclise: Ele viu-me;  Os dois amam-se. A colocação do enclítico após o verbo, porém, não se dá sempre: há diversos elementos que, presentes numa frase, fazem que portugueses obrigatoriamente coloquem o pronome átono antes do verbo, exatamente como na colocação intuitiva de todo brasileiro.

Assim, em todas as seguintes frases (que apresentam elementos ou palavras que obrigam a próclise), portugueses, como brasileiros, sempre usarão a próclise:

O lugar onde se conheceram” (e não *conheceram-se);

Nunca me falou desse tema” (e não *Nunca falou-me);

O que se viu foi o contrário” (e não *O que viu-se);

Mas é em casos como esses que se veem com frequência erros grosseiros cometidos, na escrita, por brasileiros cultos – que, por terem internalizado a ideia de que “o bonito é colocar o pronome depois do verbo”, usam a ênclise em casos em que mesmo a colocação culta portuguesa obriga o uso da próclise. É dizer, querendo “fazer bonito”, acabam cometendo erros que não cometeriam se escrevessem exatamente como falam diariamente.

É esse tipo de erro, em que o falante erra por tentar “falar difícil”, ao tentar “corrigir” algo que estava correto, que se chama de hipercorreção – um dos piores tipos de erros existentes, pois são erros que violam ao mesmo tempo a gramática culta tradicionalista e a gramática natural espontânea dos falantes.

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5 comentários sobre “Colocação pronominal: o pior erro é a hipercorreção

  1. Caro,

    Parece-me que há casos em que se ouve ênclise na fala: aqueles em que o pronome segue a verbo no infinitivo, como em “Gostei do livro. Vou comprá-lo”. É certo que “Vou comprar ele” é muito mais frequente, mesmo entre falantes cultos, mas se ouve “Vou comprá-lo” na fala formal.

    Um abraço,
    Rodrigo.

    Curtido por 2 pessoas

    • O Tribunal de Justiça de São Paulo anulou os julgamentos de 74 policiais militares, condenados pelos assassinatos de presos no massacre do Carandiru, em São Paulo: http://glo.bo/2cBtenU

      Em se falando de hipercorrecao . Nao seria necessario corrigir essa chamada de O Globo para : ” O Tribunal de Justica de Sao Paulo anulou o julgamento de 74 policiais militares , condenados pelo assassinio de presos no massacre do Carandiru , em Sao Paulo ” eliminando o excesso de plural ?

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      • Caro Carlos, Sei que há quem desgoste da palavra assassinato em português, mas eu não concordo com os argumentos usados; quanto ao plural, concordo com você – “pelo assassinato de presos” ficaria mais elegante que a repetição de tantos plurais, e igualmente correto.

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