A crase: rumo ao desaparecimento no Brasil?

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Na campanha a prefeito da maior cidade do Brasil, o candidato em primeiro lugar nas pesquisas publica que está “rumo a vitória” (sic); o atual prefeito, em busca da reeleição, afirma estar “rumo a virada” (sic). Nos dois casos, o certo seria”rumo à“, com crase – afinal, há ali dois “aa”: o “a” preposição e o “a” artigo.

E, embora sejam erros de português do tipo que não se cometem em Portugal, quase ninguém no Brasil parece se importar com esses lapsos. Tem explicação? Tem, sim. A verdade é que a qualquer português chamaria a atenção um erro desses porque, lá, o erro não seria simplesmente ortográfico: para os portugueses, “a”, sem acento, e “à”, acentuado, pronunciam-se diferentemente.

Além das várias vogais que temos em comum (ê fechado, é aberto, ô fechado, ó aberto, etc.), os portugueses têm um “a” átono, que para eles é tão diferente do á tônico quanto ó é diferente de ô. Como os portugueses fazem a diferença na pronúncia, marcam a diferença na escrita – com facilidade e sem precisar pensar se há ali uma preposição somada a um artigo, etc.

Como no Brasil essa diferença de pronúncia há séculos desapareceu, e a diferença entre “à” e “a” passou a ser puramente gráfica, é cada vez mais comum que, mesmo entre brasileiros escolarizados e cultos, confundam-se os usos de “à” e “a”.

E confundem-se mesmo: quase tão comum quanto escrever “a” em lugar de “à” é hoje, no Brasil, o contrário: por hipercorreção, escrevem “à” quando se devia escrever “a” – como se vê, por exemplo, nas muitas placas de trânsito em que se usa, erradamente, “à” antes de números ou nomes de cidades (“Bem-vindo à São Paulo“, etc.).

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14 comentários sobre “A crase: rumo ao desaparecimento no Brasil?

  1. No primeiro parágrafo, onde se lê “Nos dois casos, o certo seria”rumo à“, com ‘crase’ […]”, não seria mais correto estar escrito “Nos dois casos, o certo seria”rumo à“, com ‘acento grave’ […]”? A crase não seria um fenômeno fonético que ocorre independentemente de nossa vontade, identificada pelo acento grave?
    Espero ter-me feito entender.
    Um abraço.

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  2. E não me parecem restritos à falta de acentuação marcadora da crase os efeitos da ausência de distinção fonética entre o artigo feminino definido a e a preposição a: ela afeta também a regência dos verbos. Por se ter perdido a noção de que o a pode ser também preposição, ele tem sido substituído nessa função pelo para, como em dar/fazer/dizer/pagar/ensinar algo para, em vez de a, alguém.

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    • Precisamente. É exatamente isso que diz: a não diferenciação do artigo e da preposição explica porque os brasileiros usam cada vez menos a preposição “a”, ainda tão usada em Portugal – além dos bons exemplos que você deu, pode-se pensar em “sentar à mesa” x “sentar na mesa”, “estar à janela” x “estar na janela”, “chegar à cidade” x “chegar na cidade”, “vir a casa” x “vir em casa”, etc.

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      • Em alguns casos, perde-se em elegância. Tome-se como exemplo esta frase que, entre nós, não causaria estranhamento: “Disse para o meu filho (para) fazer sempre o bem para a irmã” (os parênteses assinalam que é possível tanto dizer quanto omitir a preposição antes do infinitivo neste caso). Entende-se, mas se estranha. Embora eu não dissesse, não naturalmente, “Disse ao meu filho que fizesse sempre o bem à irmã”, continuo a achar esta uma maneira mais elegante, talvez porque a minha formação fosse* um bocado tradicionalista, para dizer o mínimo.

        Era tradicionalista a ponto de tachar de galicismo “tenha sido” em lugar de “fosse”, por considerar que, em português, o pretérito imperfeito do subjuntivo corresponde não só ao imperfeito, mas também ao perfeito do indicativo, ao passo que o pretérito perfeito composto do subjuntivo corresponderia às formas também compostas do indicativo, de modo que teríamos:

        José Carlos: Dicionário, a minha formação foi/era muito tradicionalista.
        Dicionário: Não creio que a sua formação fosse/fosse mais tradicionalista do que foi a minha, e, no entanto, não dou bola aos caga-regras.

        José Carlos: Dicionário, a razão por que escrevo segundo regras que não mais se aplicam ao nosso português é que a minha formação tem sido muito tradicionalista.
        Dicionário: Não creio que a sua formação tenha sido mais tradicionalista do que tem sido a da maioria dos linguistas até começarem a pesquisar a fundo o funcionamento da língua, e, no entanto, o melhor conhecimento desse funcionamento os livra da carga do passado a que você parece estar ainda preso.

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      • Eu uso “sentar á mesa” (se me sento na cadeira, diante da mesa) ou “sentar na mesa” (se, literalmente, me sento enriba da mesa).
        Do resto; uso “estar na janela” (em realidade, usaria “estar na fiestra”), “chegar á cidade” e “vir a casa”.

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  3. Pois, na Galiza, nom temos nengum problema coa crase; mália que, pra nós, tôdolos se pronunciam igual. É uã vantagem que temos por ser bilingues. Se tivermos alguã dúvida, recorremos ao castelão: cando no castelão se usa “a la”, no galego se usa “à” e se no castelão simplesmente usam “a”; no galego tamém se usa “a”.

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  4. Que site maravilhoso! Obrigada! Aqui no Brasil, infelizmente, há um enorme descaso com relação à língua. Alguns acham “frescura” buscar conhecer e usar a norma culta. É tudo muito avacalhado!

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