Os nove membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP)

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Acaba de ser declarada aberta, no Palácio Itamaraty (sede do Ministério das Relações Exteriores brasileiro), conferência da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), com a presença dos presidentes da República dos nove países que têm o português como língua oficial: Angola, o Brasil, Cabo Verde, a Guiné-Bissau, a Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.

Além dos presidentes dos nove países membros da CPLP, também está presente em Brasília, para o evento, o próximo secretário-geral da ONU, o português António Guterres.

O português é hoje a sexta língua mais falado do mundo: são mais de 255 milhões de falantes (clique aqui para ver como se distribuem os falantes de português pelo mundo).

Como se chamam estas bolinhas na sua região?

As bolinhas da foto abaixo, usadas numa brincadeira ou jogo infantil, têm nomes muito diferentes em diferentes regiões do Brasil. Como elas são chamadas na sua cidade ou região? Respondam, por favor, aqui embaixo, nos comentários – basta dizer o nome usado e onde.

Resultado da enquete (e da pesquisa no Twitter):

baleba: Rio de Janeiro (aqui, aqui, aqui)

berlinde: Portugal (Lisboa)

bolita: Rio Grande do Sul (aqui, aqui, aqui)

bila: Ceará e Portugal

biloca: Brasília (aqui, aqui, aqui)

biroca: estado de São Paulo (aqui, aqui, aqui)

birosca (às vezes “bilosca“): Minas Gerais

boleba (às vezes “bolega“): Espírito SantoMinas Gerais, Rio de Janeiro

bola de gude, bolinha de gude: São Paulo (capital) e, por extensão, em todo o Brasil

bugalho: Goiás, interior de SP

bulica: Santa Catarina, Paraná, Rio de Janeiro

burca (ou burquinha): Paranáestado de SP

cabeçulinha (pronunciada cabiçulinha): Ceará

carolo: Portugal (Norte)

clica: Rio Grande do Sul (aqui, aqui, aqui) e Santa Catarina (aqui, aqui, aqui)

fubeca: estado de São Paulo

guelas: Portugal

peca (pronunciada pêca): norte de SC (Barra Velha, Canoinhas, JoinvillePenhaRio Negrinho, São Francisco do Sul)

petecaPiauí e Amazonas

pilica ou pinica: Rio Grande do Sul (aquiaqui, aqui, aqui)

quilica: Santa Catarina (Blumenau, LaurentinoRio do Sul)

tilica: Santa Catarina (Florianópolis, GasparItapema, LagesSão João Batista, Tijucas, etc.)

ximbra: Alagoas e Pernambuco

“Vexamoso” = “vexaminoso”? Por que não?

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Hoje ouvi da boca de um amigo bastante culto a palavra “vexamoso“, com o sentido de “que causa vexame”. Quando pude, vim conferir se a palavra “existia”. Para os que consideram que uma palavra só existe se está nos dicionários, então não, o adjetivo vexamoso e suas demais formas (vexamososvexamosa, vexamosas) não existem; mas não se pode dizer que não existem mesmo, quando há centenas de registros de uso desses termos em notícias, livros, tuítes (como o do nosso maior “padre celebridade”, acima)… e até numa gramática.

Na sua Gramática de usos do português,  de 1999, a excelente professora Maria Helena de Moura Neves usou o seguinte exemplo tirado da imprensa: “O comportamento desta moça é vexamoso e indecoroso” (ver aqui) – sem fazer qualquer consideração acerca do adjetivo vexamoso.

É fato que a forma tradicional, registrada nos dicionários – e ainda a mais usada -, é vexaminoso. Mas também é um fato que o encurtamento de vocábulos é um dos processos mais naturais e corriqueiros da língua: a atual palavra bondoso era antigamente escrita (e falada) bondadoso (como só poderia ser, vinda de bondade -oso); o tempo e o uso dos falantes acabaram por “comer” uma das sílabas da palavra, e hoje ninguém estranha a forma abreviada.

Do mesmo modo, a palavra piedoso, que hoje ninguém diria ser incorreta, é na verdade uma “deformação” de piedadoso (piedade + -oso); e o nosso atual saudoso era, originalmente, saudadoso (saudade + -oso).

O atual você, todos sabem, veio da amalgamação de vossa mercê; a nossa palavra lenda um dia já foi legenda, que acabou cortada; a palavra cor já teve duas vogais e um -l-, como ainda mantém em outras línguas (color); o adjetivo tragicômico resultou do encurtamento, por praticidade, de trágico-cômico; e a antiga simbolologia acabou sendo substituída na prática pela encurtada simbologia.

Esses encurtamentos, que podem parecer “preguiça” dos falantes, são na verdade um fenômeno que se observa todo o tempo na evolução de todas as línguas, e que nada mais é que uma busca inconsciente e natural por eficiência linguística: passar a mesma ideia usando menos sílabas é, no fim das contas, comunicar-se mais eficientemente.

De modo que, assim como simbologia, bondoso e saudoso tomaram o lugar dos mais compridos simbolologiabondadososaudadoso, é quase certo que, no futuro, a forma vexamoso venha até a superar vexaminoso na preferência dos falantes e dos dicionários. Quem viver verá.

“Rattan” (ou “rotang”) em português é ratã

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O Brasil aderiu a um fórum internacional sobre a preservação do bambu e o ratã – como bem escreve o nosso Congresso. Já na imprensa tradicional, às vezes se vê, em vez de ratã, a grafia inglesa rattan (por exemplo aqui).

O ratã é, à semelhança do bambu, uma espécie de palmeira asiática usada para fazer bengalas, móveis como cadeiras, etc. Outro nome em português do ratã é rotim.

Se escrevemos “bambu”, em vez de “bamboo“, também se deve, obviamente, escrever ratã em português, e não “rattan“.

Além de já estar em todos os dicionários, o aportuguesamento ratã obedece às regras ortográficas da língua portuguesa: como diz o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (que pode ser lido na íntegra aqui), na “Base VI”: “Quando uma vogal nasal ocorre em fim de palavra, representa-se a nasalidade pelo til, se essa vogal for “a”: afã, grã, Grã-Bretanha, lã, órfã

É por essa razão que o anglicismo “fan” (fanático) virou, em português, ; e que o anglicismo clan deu, em português, clã; que a dança francesa cancan virou aqui cancã; que o país internacionalmente conhecido como Iran (a antiga Pérsia) é, no Brasil, chamado Irã;  que a palavra bataclan dos franceses deu bataclã em português; e por que o antigo bairro do Butantan, em São Paulo, passou a chamar-se Butantã.

“Seu”: dele, dela ou de você?

sub-buzz-5860-1476963521-1O pronome “seu” é ambíguo, pois pode querer dizer tanto “de você” quanto “dele” ou “dela”.

Na foto acima, vemos que a criança cometeu um erro de interpretação, causado por uma característica do português atual: hoje em dia, os pronomes “seu” e “sua” foram quase completamente substituídos pelas palavras “dele” e “dela” quando se referem a uma terceira pessoa, e são usados cada vez mais apenas para se referir a algo da pessoa com quem se fala (“a sua casa“: “a casa onde você mora“).

Originalmente, os pronomes referentes à pessoa com quem se fala eram “teu” e “tua“. Na medida em que o pronome “tu” foi substituído, em grande parte do Brasil, pela forma “você“, os pronomes “seu” e “sua” se tornaram ambíguos: “Vi o João com a sua mulher” pode querer dizer tanto que vi o João com a mulher do próprio João, ou com a mulher da pessoa com quem estou falando.

Por essa razão, na língua falada, para se referir à mulher de uma terceira pessoa, quase só se usam, hoje, construções com “dele”, “dela”, “deles”, “delas”. Mas a língua escrita ainda dá preferência ao pronome tradicional – o que às vezes pode causar confusão entre pessoas não habituadas a “seu”/”sua” com o sentido de “dele”, mas apenas “de você”:

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“Siderólito”: comparando dicionários

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Um siderólito é um meteorito feito (aproximadamente) metade de pedra, metade de metal. É a composição que  o diferencia da maioria dos meteoritos, que são ou apenas de pedra, ou apenas de metal.

Quem tentasse aprender o que é um siderólito com os grandes dicionários brasileiros e portugueses, porém, teria grande chances de ser levado a erro – quase todos os dicionários trazem explicações equivocadas ou incompletas. Comparem-se os grandes dicionários portugueses e brasileiros quanto ao verbete “siderólito”:

Dicionário Houaiss descreve um siderólito como um “meteorito relativamente raro, que contém grandes proporções, e aprox. iguais, de ferro, níquel e silicatos“. A definição está, portanto, errada. Da maneira como está escrita, a única compreensão possível seria a de que um siderólito é composto por aproximadamente 33,3% de ferro, 33,3% de níquel e 33,3 % de silicatos (minerais). Errado.

O Dicionário Aurélio diz que siderólito é um “Aerólito com grande proporção de minérios de ferro e de níquel, afora outros corpos não metálicos“. Não está errado, mas é impreciso. Um meteorito quase inteiramente composto por minérios, com apenas uma pequena proporção de corpos não metálicos, não pode ser chamado siderólito, mas se encaixaria na definição do Aurélio.

A nova versão na Internet do Dicionário Michaelis é, basicamente, uma grande paráfrase gratuita do Houaiss, que fez questão de copiar todos os erros do Houaiss. No caso em apreço, não fez por menos: simplesmente repetiu a definição errada do Houaiss: “Tipo de meteorito que contém proporções praticamente iguais de ferro, níquel e silicato“.

As cópias pura e simples do Houaiss feitas pelo novo Michaelis ficam sempre mais evidentes quando se compara uma palavra no novo Michaelis com a mesma palavra no antigo Dicionário Michaelis em papel. Na versão em papel, que tanto sucesso fez no Brasil na década de 1990, o Michaelis definia siderólito como um “Aerólito rico em minérios de ferro” – não era uma definição perfeita, mas pelo menos não estava errada. Em outras palavras, a editora do dicionário simplesmente jogou fora (nesse caso e em muitos outros) uma definição correta para substituí-la por uma cópia de um erro do Houaiss.

O Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa (a homóloga portuguesa da nossa Academia Brasileira de Letras) desconhece a palavra. O Dicionário Priberam também nunca ouviu falar.

O Dicionário Aulete diz que um siderólito é o mesmo que “minério de ferro“. Errado.

Finalmente, a portuguesa Porto Editora diz que um siderólito é um “tipo de meteorito em que os elementos metálicos (ferro) e os líticos (silicatos) entram em proporções quase iguais“. Bingo! Temos um vencedor!

Dicionrio-Ilustrado-da-Academia-Bras-de-Letras-Edio-20150127164911O Dicionário Estraviz, da Galiza, traz quase a mesma definição.

É especialmente notável que no grande dicionário da Academia Brasileira de Letras (foto da versão ilustrada aqui ao lado), de autoria do genial Antenor Nascentes, já vinha, corretamente, na edição de 1977: “meteorito com 50% de metal em sua composição”. É impressionante que uma obra já com quase meio século de idade e que nunca se popularizou seja até hoje mais completa e precisa do que quase todos os dicionários modernos. Infelizmente, o grande dicionário da ABL não é reeditado desde 1988.

Os sobrenomes têm plural: “Milhões de Cunhas”

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A faixa acima, “Somos milhões de Cunha“, trazia um erro gramatical. Em português, os nomes e sobrenomes têm plural. Basta recordar o título do clássico de Eça de QueirozOs Maias (e não *Os Maia), ou pensar nas famílias importantes da história do Brasil – “os Braganças“, por exemplo (e não *os Bragança). Pode-se até pensar em exemplos culturais mais recentes, como “Os Simpsons” e “Os Flintstones“.

Com o artigo no plural, o sobrenome também deve vir no plural: “a família Silva” é o mesmo que dizer “os Silvas” (e não *Os Silva). Do mesmo modo, deve-se dizer “os Cardosos“, “os Vianas“, “os Montagners“, “os Alckmins“.

Assim, os brasileiros que se identificam com o ex-deputado Cunha deveriam dizer que são milhões de Cunhas (e não “de Cunha”).

É bem diferente, portanto, o sentido das frases “Ninguém sabe onde foram parar os milhões de Cunha” (em referência ao dinheiro dele) e “Ninguém sabe onde foram parar os milhões de Cunhas” (em referência a seus antigos apoiadores).


Os nomes próprios (tanto prenomes quanto sobrenomes) portugueses seguem as mesmas regras de formação dos substantivos comuns: o Raul, os Rauiso Benjamim, os Benjamins; o Cabral, os Cabraisa Ester, as Esteres; o Mateus, os Mateusa Raquel, as Raquéiso Rafael, os Rafaéis.

Já os nomes estrangeiros normalmente recebem plural, em português, pela adição de um “s”: os Amins, os Bismarcks, os Clintons, os Husseins, os Isaacs, os Kennedys, os Kirchners, os Lafers, os Medvedevs, os Müllers, os Rousseffs, os Sarkozys – com a exceção daqueles já terminados em “s” ou “z”, que permanecem invariáveis: os Chávez (como os Chaves), etc.

“Um catito”: um ratinho, um gatinho, um bocadinho – os vários significados de catito

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Ter sido o estado onde estudou e se formou nosso mais famoso dicionarista, Aurélio, rende frutos a Pernambuco: até hoje, muitas palavras e modismos que só se usam lá estão registrados em todos os dicionários brasileiros (que “se basearam” no Aurélio), enquanto ficam de fora palavras com uso em áreas geográficas maiores das regiões Sul, Norte e Centro-Oeste.

Um caso desses é o da palavra catito, que todo dicionário brasileiro hoje traz com o significado de ratinho, camundongo – mas esse sentido só se usa em Pernambuco (nos demais estados do Nordeste e do Norte usa-se, com o mesmo significado de ratinho, camundongo, a forma feminina: catita).

Mas, como uma rápida busca numa ótima fonte de “português real” – o Twittermostra, na maior parte do Brasil (como São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina e Rio Grande do Sul) a palavra catito se usa com outro sentido: o de gatinho (tanto em sentido literal, isto é, o animal, um bichano, quanto no sentido figurado, o de garoto bonito).

Um terceiro sentido de “um catito” que se usa informalmente por quase todo o Brasil – por exemplo no RJ, em SP, em Brasília, no Amazonas e no Paraná – é o de “um bocadinho“, “um pouquinho” – sentido que o dicionário Porto Editora, de Portugal, traz como sendo usual em países africanos que falam português (Angola, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe). “Um catito” também se usa com esse mesmo sentido no Brasil, mas nossos dicionários não fizeram o trabalho direito.

Minha noite de pesquisa ainda me permitiu constatar que catito tem um significado todo próprio na região de Uruguaiana (RS): o de algo (ou alguém) que não presta – como se vê neste, neste, neste, nesteneste, neste e neste tuítes – o que, só posso supor, sem conhecer a cidade, talvez advenha do fato de, como acabo de descobrir no Google, o centro de reciclagem de lixo e sucata da cidade se chamar Catito.

Chuchumeca, em Macau: fofoqueiro, coscuvilheiro, noveleiro, mexeriqueiro

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Uma palavra bastante típica do português de Macau é chuchumeca, que significa fofoqueiro (como dizemos no Brasil) ou, como dizem em Portugal, coscuvilheiro.

Outro sinônimo usado em Macau (e também em Portugal) para quem gosta de falar da vida dos outros é noveleiro.

Em Macau, existe até o verbo, chuchumecar – presente em muitos textos escritos em Macau, sempre com o significado de falar da vida dos outros, fofocar, mexericar – e não, como ensina, errado, o Houaiss, como “murmurar” nem como “reclamar“.

O papiá, ou a doce papiação (quase portuguesa) de Macau

Como se sabe, Macau é uma cidade na China que até 1999 foi colônia portuguesa e que tem até hoje o português como língua oficial (embora menos de 3% de seus habitantes de fato dominem a língua). O que é menos conhecido é que, além do português (e do cantonês, falado pela maioria dos macaenses), existe uma língua única de Macau: o papiá ou papiação macaense: língua local derivada diretamente do português, com simplificações e adaptações diversas, mas que, aos nossos ouvidos, não deixa de encantadoramente familiar.

O papiá de Macau já está (ou estava) quase extinto, até que grupos de macaenses, como os do excelente vídeo a seguir, começaram a produzir conteúdo na língua, de modo a não deixar morrer a “doce papiação de Macau“. Confiram:

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