“Siderólito”: comparando dicionários

n3026

Um siderólito é um meteorito feito (aproximadamente) metade de pedra, metade de metal. É a composição que  o diferencia da maioria dos meteoritos, que são ou apenas de pedra, ou apenas de metal.

Quem tentasse aprender o que é um siderólito com os grandes dicionários brasileiros e portugueses, porém, teria grande chances de ser levado a erro – quase todos os dicionários trazem explicações equivocadas ou incompletas. Comparem-se os grandes dicionários portugueses e brasileiros quanto ao verbete “siderólito”:

Dicionário Houaiss descreve um siderólito como um “meteorito relativamente raro, que contém grandes proporções, e aprox. iguais, de ferro, níquel e silicatos“. A definição está, portanto, errada. Da maneira como está escrita, a única compreensão possível seria a de que um siderólito é composto por aproximadamente 33,3% de ferro, 33,3% de níquel e 33,3 % de silicatos (minerais). Errado.

O Dicionário Aurélio diz que siderólito é um “Aerólito com grande proporção de minérios de ferro e de níquel, afora outros corpos não metálicos“. Não está errado, mas é impreciso. Um meteorito quase inteiramente composto por minérios, com apenas uma pequena proporção de corpos não metálicos, não pode ser chamado siderólito, mas se encaixaria na definição do Aurélio.

A nova versão na Internet do Dicionário Michaelis é, basicamente, uma grande paráfrase gratuita do Houaiss, que fez questão de copiar todos os erros do Houaiss. No caso em apreço, não fez por menos: simplesmente repetiu a definição errada do Houaiss: “Tipo de meteorito que contém proporções praticamente iguais de ferro, níquel e silicato“.

As cópias pura e simples do Houaiss feitas pelo novo Michaelis ficam sempre mais evidentes quando se compara uma palavra no novo Michaelis com a mesma palavra no antigo Dicionário Michaelis em papel. Na versão em papel, que tanto sucesso fez no Brasil na década de 1990, o Michaelis definia siderólito como um “Aerólito rico em minérios de ferro” – não era uma definição perfeita, mas pelo menos não estava errada. Em outras palavras, a editora do dicionário simplesmente jogou fora (nesse caso e em muitos outros) uma definição correta para substituí-la por uma cópia de um erro do Houaiss.

O Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa (a homóloga portuguesa da nossa Academia Brasileira de Letras) desconhece a palavra. O Dicionário Priberam também nunca ouviu falar.

O Dicionário Aulete diz que um siderólito é o mesmo que “minério de ferro“. Errado.

Finalmente, a portuguesa Porto Editora diz que um siderólito é um “tipo de meteorito em que os elementos metálicos (ferro) e os líticos (silicatos) entram em proporções quase iguais“. Bingo! Temos um vencedor!

Dicionrio-Ilustrado-da-Academia-Bras-de-Letras-Edio-20150127164911O Dicionário Estraviz, da Galiza, traz quase a mesma definição.

É especialmente notável que no grande dicionário da Academia Brasileira de Letras (foto da versão ilustrada aqui ao lado), de autoria do genial Antenor Nascentes, já vinha, corretamente, na edição de 1977: “meteorito com 50% de metal em sua composição”. É impressionante que uma obra já com quase meio século de idade e que nunca se popularizou seja até hoje mais completa e precisa do que quase todos os dicionários modernos. Infelizmente, o grande dicionário da ABL não é reeditado desde 1988.

6 comentários sobre ““Siderólito”: comparando dicionários

  1. E estas definições são válidas (atopeinas num livro)?:
    Sideritos: Compónhemse de ferro e níquel, que é a composição suposta para o núcleo terrestre.
    Siderólitos: Compónhemse, a partes iguais, de ferroníquel e de materiais do tipo dos silicatos ferromagnéticos. Esta composição supomse parecida á do manto terrestre.
    Aerólitos: Estão formados por silicatos de ferro e alumínio, como os que componhem a côdia (crosta) terrestre.

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    • Entendo que sim, que são as definições tradicionais – é o que explica a definição do Aulete; antes se usavam para se referira rochas etc. na Terra. O que me parece é que houve uma evolução/especialização de sentido, e que modernamente, ao menos em português, esses três termos passaram a usar-se apenas na classificação de meteoritos.

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  2. Essa questão de dicionário com definições incorretas é muito antiga. Se verificarmos o “Diccionario Contemporaneo da Lingua Portugueza”, de F. J. Caldas Aulete, publicado em Lisboa em 1881, veremos que há lá um belo texto do próprio Caldas Aulete, onde, numa breve avaliação dos estudos lexicográficos da época, apresenta sérias críticas aos dicionários então existentes, em especial aos dicionários de Bluteau, Moraes, Lacerda e Roquette.

    Abaixo transcrevo uma pequena parte do texto do Aulete/1881 (com o português da época):

    “O nosso intuito foi coordenar um diccionario portatil para a maioria das pessoas que falam a lingua portugueza; um vocabulario que represente a lingua portugueza como ella é hodiernamente, contendo as palavras que são do domínio da conversação, de que boa parte se não encontra nos diccionarios nacionaes; os neologismos sanccionados pelo uso e pela necessidade, e os termos technicos, que, com o desenvolvimento da instrucção publica, tem passado para a litteratura e para a linguagem da conversação. Não deixámos tambem de inserir os archaismos, que com mais frequencia se encontram nos clássicos dos seculos XVIi e XVII, e aquelles que são radicaes de palavras derivadas existentes na lingua actual, e que, sem o conhecimento d’elles, mal se entenderiam.

    Antes, porém, de apresentarmos o plano d’este nosso trabalho, exporemos em breves traços o estado em que se acham os estudos da sciencia lexicologica entre nós.

    Os diccionarios portuguezes geralmente adoptados no uso e no ensino são machinalmente copiados uns dos outros, tomando para base o “Vocabulario portuguez” do padre Raphael Bluteau, que tem proximo de dois seculos de existencia. O resultado é que transcrevem para os termos techinicos as definições que lhes deu aquelle laborioso lexicographo, segundo os preconceitos scientificos da sua epocha, e para os mais vocábulos accepções, umas vezes erroneas, outras deficientes, omittindo aquellas a que o progresso os tem applicado, e que são hoje moeda corrente.

    Os diccionarios a que nos referimos inserem os nomes dos corpos simples que antigamente se conheciam, definidos com todos os ridículos preconceitos da velha sciencia, e omittem os aquelles que o progresso tem descoberto!

    Abrindo os diccionarios de melhor nota lemos:

    «Azote, s. m. A matéria primeira do metal.» – (Moraes.)

    Azote não é matéria primeira do metal, é um gaz incolor, inodoro, sem sabor, que entra por 0,79 na composição do ar atmospherico.

    «Manganez, metal muito solido da côr do ferro amarellado.» – (Lacerda.)

    Aqui não podemos deixar de collocar a seguinte observação puramente incidental: Se o manganez tem a côr do ferro, quando elle é amarellado, não faria melhor o sr. D. José de Lacerda em o comparar com alguma cousa que de sua natureza fosse amarellada, como uma folha resequida do outono ou um enfermo atacado de ictericia?

    «Antimonio, corpo composto de enxofre e azougue.» – (Lacerda.)

    O antimonio é um corpo simples.

    «.Terra, s. f. o mais pesado dos quatro elementos, que de ordinário cria os vegetaes.» – (Moraes.)

    Omittem baryo, boro, iodo, nichel, etc.

    «Alavanca, varão de ferro ou de qualquer outra matéria solida, com uma ponta da feição da cunha, e da outra parte um bico.» – (Lacerda.)

    Os que conhecem as variadissimas formas que pode ter uma alavanca, sorriem de certo ao ler a ridicula definição do illustre academico.

    Rophael Bluteau addita, entre outras inepcias, ao termo”excremento” as seguintes: «A cera das orelhas bebida é remedio especifico e infallivel contra a colica. As unhas deitadas de infusão em vinho purgam fortemente pela bôca, e … Também as aparas das unhas dos pés mettem-se dentro de um buraco, aberto no tronco de um carvalho, o qual se tapa com uma cunha, e logo cessa a dor».

    Isto não é ignorancia nem immoralidade, é demencia.

    Frequente é encontrar um termo explicado pela mesma palavra, o mesmo pelo mesmo. Este methodo consiste em remetter o leitor, por uma evolução altamente cômica, para o mesmo vocábulo cuja significação procurava saber. Melhor se comprehenderá este systema adduzindo alguns exemplos, que os nossos diccionaristas complacentemente nos fornecem em abundancia:

    «Gallinha, a femea do gallo.» – (Roquette.)
    «Gallo, macho da gallinha.» – (Idem.)

    Tendo aberto aqui um breve parenthesis para apontarmos á profunda admiração do leitor os desenvolvidos conhecimentos ornithologicos do conego Roquette, passaremos a transcrever mais um exemplo do seu diccionario:

    «Senador, membro do senado.» – (Roquette.)
    «Senado, corpo de senadores.» – (Idem.)

    Isto será serio?”

    Como se vê, ele não pouca críticas para definições erradas, cópias de uns aos outros e definições que do nada remetem ao nada.

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  3. No “Diccionario Contemporaneo da Lingua Portugueza”, de Caldas Aulete, de 1881, “Siderolithico” é definido como “adj. (geol.) que tem rochas ferruginosas. F. gr. sideros, ferro + lithos, pedra”.

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  4. Pingback: Qual o símbolo do litro: L ou l? Pode ser em itálico ou cursiva? | DicionarioeGramatica.com

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