Ierognosia em italiano, hierognosia em português

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Um leitor pediu uma opinião sobre o vocábulo ierognosia, que disse não encontrar nos dicionários, mas que se usa em meios católicos para se referir ao suposto dom do santo católico Pio de Petrelcina de reconhecer de antemão se um homem era padre ou se um objeto que lhe apresentavam fora previamente abençoado.

Em português, a grafia ierognosia não faria sentido; o neologismo viria de “hiero” (santo, sagrado) + “gnosia” (conhecimento). Portanto, só poderia ser “hierognosia”.

Os dicionários não registram palavra portuguesa começada por “iero“: o que sim ocorre em português é hier(o)-, que vem do grego hierós, “sagrado, santo, divino”; nas palavras do Houaiss, “ocorre em cultismos, ligados sobretudo à religião, documentados na língua desde o séculos XV, alguns formados no próprio grego: hieracite (hierakítēs), hieranose, hierarca, hierarquia, hierárquico, hierarquismo, hierarquização, hierarquizar, hierática, hierático (hieratikós), hieratizar, hierocracia, hierodrama, hierodulo (hieródulos), hierofanta/hierofante (hierophántēs), hierogeografia, hieróglifo (hieroglúphos), hierografia, hierográfico, hierograma, hierogramático, hierogramatista, hierologia (hierología), hierológico, hieromancia, hieromania (hieromanía), hieromante, hieromnêmone, hierônimo (hierṓnumos), hieropeu, hieroscopia, hierosofia, hierosolimitano, hieroterapia etc.”.

Em português, portanto, o neologismo deveria ser hierognosia, com “h”.

Mas o fato de o santo Pio de Petrelcina ser italiano pode explicar o erro de ortografia: aqueles que a usam devem tê-la copiado diretamente do italiano, língua em que não se usa “h” inicial: hidráulico em italiano é “idraulico”, homeopático é “omeopatico”, humanitário é “umanitario”, etc. Logo, faz sentido que em italiano se escreva ierognosia – mas em português só é possível a forma hierognosia.

Em português, Kuwait – não Kuaite, Koweit, Coveite, Cuvaite, Cuaite, Kwait, Quaite…

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A Guerra do Golfo, como se sabe, teve início quando o ditador iraquiano Saddam Hussein invadiu o pequeno país vizinho – o Kuwait. E como se deve escrever o nome do Kuwait em português? 5df7a65271912acb80b8bb554061843e53d0505c

O nome do país é escrito Kuwait em inglês, em espanhol, em italiano, em alemão, etc. Já em francês é Koweït. Como as regras ortográficas anteriores às Acordo Ortográfico atual proibiam expressamente o uso de “k” e “w” em português, criaram-se aportuguesamentos de qualidade duvidosa: com base na forma francesa, o Aurélio recomendava Coveite; com base na forma inglesa, o Michaelis recomendava Cuvaite. Em seu dicionário de inglês-português, um ainda jovem Houaiss propôs Cuaite (que alguns defendiam ver transformado em Quaite), mas posteriormente o mesmo Houaiss chegou a defender a forma Cuuaite – com dois uu. Algumas publicações chegaram a adotar formas híbridas como Kuait e Kuaite.

O mais recente Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa resolveu a situação: entre suas muitas disposições, determina (no parágrafo 2º) que as letras KWY devem ser usadas em português nos nomes próprios estrangeiros e em seus derivados – e cita explicitamente os exemplos Kuwaitkuwaitiano.

O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa determina explicitamente que, em português, se devem escrever Kuwait kuwaitiano.

As vantagens dessa abordagem pragmática são óbvias – facilita-se a vida de todos, unifica-se a escrita, e cada um pode continuar a falar como quiser – seja Cuaite ou Quaite, ou Coueit, ou Cuvait, ou Coveit, etc.

Um tempurá: origem da palavra e do prato japonês

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O tempurá é um prato típico da culinária do Japão: são camarões, ou vegetais, fritos após serem envoltos em massa de farinhas e ovos. Diz-se ter sido inventado por missionários católicos portugueses no Japão no século XVI. O nome japonês do prato, assim, viria, talvez, do português tempero, ou, mais provavelmente de parte da locução latina que dava nome à quaresma – “ad tempora quadragesimae” -, período ao longo do qual não comiam carne vermelha.

Embora oxítono no Brasil – país com uma das maiores populações nipodescendentes do mundo -, o nome do prato é paroxítono em Portugal: tempura. É o mesmo que ocorre com a maioria dos aportuguesamentos de origem japonesa – são oxítonos no Brasil (judô, sumô, ofurô, caraoquê, etc.) e paroxítonos em Portugal (judo, sumo, ofuro, caraoque…).

Tanto em Portugal quanto no Brasil, porém, o tempura (ou tempurá) é masculino: um tempurá (ou tempura) – como se vê em qualquer livro de receita e na vida real, fora dos livros, e como bem trazem o dicionário Aurélio, o Michaelis e a Porto Editora, entre outros.

Nisso, erram o Houaiss e o Priberam, que trazem tempura como feminino.

 

Palavras novas: tapiocaria

downloadNa foto acima, uma bela tapioca recheada com carne seca. Alguns dicionários, como os portugueses, só trazem tapioca como a fécula extraída da mandioca; ignoram, portanto, o sentido mais usada correntemente – o de tipo de bolo feito dessa fécula, que se come com diversos acompanhamentos, doces e salgados. Especificamente na Bahia, é chamado de beiju.

E, com a proliferação recente de estabelecimentos especializados em tapiocas por todo o país, popularizou-se também o substantivo tapiocaria – bem formado a partir do sufixo tradicional português para estabelecimentos; o mesmo que se vê em churrascaria, livraria, padaria, pamonharia, papelaria, peixaria, petiscaria, pizzaria, relojoaria, tabacaria

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Guevar: comprar em quantidade para revender

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Sempre me fascina a capacidade que as pessoas têm de comprimir significados e sentidos extremamente complexos em curtíssimas palavras: é o caso de guevar, verbo do português de Moçambique, que significa comprar em grande quantidade, com o objetivo de revender. Vinda da palavra africana gweva, a pronúncia é güevar, com “u” pronunciado.

O Dicionário da Porto Editora, que agora tem sede própria em Maputo, é o único que já traz o verbo guevar.

A Porto Editora também traz o substantivo gueva, comum de dois gêneros: a pessoa que compra coisas para revender.

Falta nos dicionários: revistaria

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Ainda consigo me surpreender com a ausência nos dicionários de certas palavras que me parecem básicas. Hoje, espantou-me não encontrar o substantivo revistaria: nem o Aurélio nem o Houaiss trazem a palavra. O Aulete e os dicionários portugueses igualmente a ignoram. Cresci acostumado a ir todo sábado, com meu pai, à autointitulada revistaria do bairro, de modo que sei que a palavra é usada no Brasil há pelo menos algumas décadas.

De resto, a palavra está bem formada – o sufixo “-aria” é o tradicional da língua portuguesa para nomear estabelecimentos: churrascaria, livraria, papelaria, pastelaria, pizzaria, tabacaria.

Um pequeno lapso de nossos dicionários, portanto.

(Veja aqui uma compilação das postagens sobre palavras que faltam nos dicionários.)

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“Quórum”, em português, tem acento (como fórum)

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Um dia a Folha de S.Paulo aprende: quórum em português tem obrigatoriamente acento.

Em português, as palavras paroxítonas terminadas em -um precisam de acento: fórumquórumultimátum.

Se uma palavra em português termina em -um e não leva acento, é obrigatoriamente oxítona, como é o caso de algumnenhumzunzumvacumcomum.

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esnórquel, aportuguesamento de snorkel, nos dicionários Houaiss e Michaelis

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Vemos com muita frequência a grafia inglesa “snorkel” para se referir ao tubo, parte do equipamento de mergulho, que serve para respirar com o rosto sob a água. Não tem por quê: o dicionário Houaiss, o dicionário Michaelis e o dicionário Estraviz já trazem o aportuguesamento esnórquel, perfeito do ponto de vista ortográfico e já muito empregado em literatura.

A palavra esnórquel, em português, precisa de acento por se tratar uma palavra paroxítona terminada em “L” – como horrívelamávelmóvelpádel. As palavras terminadas em “L” sem nenhum acento gráfico são oxítonas: papelaluguelanilgeral, futebol

O plural, regular, é esnórqueis.

esprinte, aportuguesamento de “sprint”

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Um leitor pergunta se existe aportuguesamento de “sprint” – termo que se refere seja a uma corrida de velocidade de curta distância, seja ao esforço final numa corrida, em que em geral se atinge a máxima velocidade possível.

Como a língua portuguesa não admite substantivos comuns começados por “st-” nem terminados em “-t“, o aportuguesamento possível seria, naturalmente, esprinte.

E, respondendo objetivamente à pergunta: sim, existe a palavra esprinte; ela aparece em Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, o único escritor em língua portuguesa a ganhar um Nobel de literatura:

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Ensaio sobre a cegueira. José Saramago

É claro que se pode mesmo assim preferir substituir esprinte por formas mais tradicionais em português, como – a depender do contexto – corridacorrida rápidabreve corridaarrancadaarranqueesforço (final). Mas, se se quer usar o neologismo, que se use o bem formado aportuguesamento esprinte, que segue as regras da boa formação de substantivis portugueses e que tem a chancela de ninguém menos que nosso primeiro Nobel.

“secretário-geral”, com hífen e minúsculas

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Ao tempo em que um português é eleito secretário-geral das Nações Unidas – parabéns, Portugal! O ex-primeiro-ministro António Guterres sucederá, a partir de janeiro de 2017, ao sul-coreano Ban Ki-moon -, convém apenas recordar: secretário-geral  se escreve com hífen – e com minúsculas.

Como já explicamos em publicação anterior (releia-a aqui), a norma ortográfica anterior obrigava o uso de maiúsculas “nos nomes que designam altos cargos, dignidades ou postos: Papa, Cardeal, Arcebispo, Bispo, Patriarca, Vigário, Vigário-Geral, Presidente da República, Ministro da Educação, Governador do Estado, Embaixador, Almirantado, Secretário de Estado, etc.”. Essa regra foi revogada pela entrada em vigor do Acordo Ortográfico atual – de modo que todo e qualquer cargo ou posto, alto ou baixo, deve escrever-se com minúsculas: o secretário-geral, o embaixador, o governador, o ministro, o presidente.

(Se, porém, se decidir usar inicial maiúscula, por razões de estilo – por exemplo, numa placa, ou numa carta endereçada a ele, devem ambas as palavras ir com maiúsculas, e não só a primeira: “Secretário-Geral“, e não *Secretário-geralveja aqui por quê. A combinação maiúscula-minúscula, Secretário-geral, só poderia ocorrer no começo de uma frase, em que o “S” somente viria em maiúscula por iniciar a frase.)

Quanto ao hífen: apesar de, tradicionalmente, as combinações de substantivo + adjetivo não exigirem hífen (“bom senso“, “senso comum“, “professor titular”, “secretário executivo“, etc. – e mesmo “greve geral“, “reunião geral”, “limpeza geral“, “assembleia geral), uma exceção consagrada são os nomes de cargos e instituições formados com o adjetivo “geral” – que, por convenção, se escrevem com hifens: procuradoria-geralprocurador-geralconsulado-geralcônsul-geralsecretaria-geralsecretário-geral.

Assim, o correto é escrever que o português António Guterres assumirá, em janeiro de 2017, o cargo de secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU).