“Um catito”: um ratinho, um gatinho, um bocadinho – os vários significados de catito

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Ter sido o estado onde estudou e se formou nosso mais famoso dicionarista, Aurélio, rende frutos a Pernambuco: até hoje, muitas palavras e modismos que só se usam lá estão registrados em todos os dicionários brasileiros (que “se basearam” no Aurélio), enquanto ficam de fora palavras com uso em áreas geográficas maiores das regiões Sul, Norte e Centro-Oeste.

Um caso desses é o da palavra catito, que todo dicionário brasileiro hoje traz com o significado de ratinho, camundongo – mas esse sentido só se usa em Pernambuco (nos demais estados do Nordeste e do Norte usa-se, com o mesmo significado de ratinho, camundongo, a forma feminina: catita).

Mas, como uma rápida busca numa ótima fonte de “português real” – o Twittermostra, na maior parte do Brasil (como São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina e Rio Grande do Sul) a palavra catito se usa com outro sentido: o de gatinho (tanto em sentido literal, isto é, o animal, um bichano, quanto no sentido figurado, o de garoto bonito).

Um terceiro sentido de “um catito” que se usa informalmente por quase todo o Brasil – por exemplo no RJ, em SP, em Brasília, no Amazonas e no Paraná – é o de “um bocadinho“, “um pouquinho” – sentido que o dicionário Porto Editora, de Portugal, traz como sendo usual em países africanos que falam português (Angola, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe). “Um catito” também se usa com esse mesmo sentido no Brasil, mas nossos dicionários não fizeram o trabalho direito.

Minha noite de pesquisa ainda me permitiu constatar que catito tem um significado todo próprio na região de Uruguaiana (RS): o de algo (ou alguém) que não presta – como se vê neste, neste, neste, nesteneste, neste e neste tuítes – o que, só posso supor, sem conhecer a cidade, talvez advenha do fato de, como acabo de descobrir no Google, o centro de reciclagem de lixo e sucata da cidade se chamar Catito.

Chuchumeca, em Macau: fofoqueiro, coscuvilheiro, noveleiro, mexeriqueiro

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Uma palavra bastante típica do português de Macau é chuchumeca, que significa fofoqueiro (como dizemos no Brasil) ou, como dizem em Portugal, coscuvilheiro.

Outro sinônimo usado em Macau (e também em Portugal) para quem gosta de falar da vida dos outros é noveleiro.

Em Macau, existe até o verbo, chuchumecar – presente em muitos textos escritos em Macau, sempre com o significado de falar da vida dos outros, fofocar, mexericar – e não, como ensina, errado, o Houaiss, como “murmurar” nem como “reclamar“.

O papiá, ou a doce papiação (quase portuguesa) de Macau

Como se sabe, Macau é uma cidade na China que até 1999 foi colônia portuguesa e que tem até hoje o português como língua oficial (embora menos de 3% de seus habitantes de fato dominem a língua). O que é menos conhecido é que, além do português (e do cantonês, falado pela maioria dos macaenses), existe uma língua única de Macau: o papiá ou papiação macaense: língua local derivada diretamente do português, com simplificações e adaptações diversas, mas que, aos nossos ouvidos, não deixa de encantadoramente familiar.

O papiá de Macau já está (ou estava) quase extinto, até que grupos de macaenses, como os do excelente vídeo a seguir, começaram a produzir conteúdo na língua, de modo a não deixar morrer a “doce papiação de Macau“. Confiram:

Comentários?

Ierognosia em italiano, hierognosia em português

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Um leitor pediu uma opinião sobre o vocábulo ierognosia, que disse não encontrar nos dicionários, mas que se usa em meios católicos para se referir ao suposto dom do santo católico Pio de Petrelcina de reconhecer de antemão se um homem era padre ou se um objeto que lhe apresentavam fora previamente abençoado.

Em português, a grafia ierognosia não faria sentido; o neologismo viria de “hiero” (santo, sagrado) + “gnosia” (conhecimento). Portanto, só poderia ser “hierognosia”.

Os dicionários não registram palavra portuguesa começada por “iero“: o que sim ocorre em português é hier(o)-, que vem do grego hierós, “sagrado, santo, divino”; nas palavras do Houaiss, “ocorre em cultismos, ligados sobretudo à religião, documentados na língua desde o séculos XV, alguns formados no próprio grego: hieracite (hierakítēs), hieranose, hierarca, hierarquia, hierárquico, hierarquismo, hierarquização, hierarquizar, hierática, hierático (hieratikós), hieratizar, hierocracia, hierodrama, hierodulo (hieródulos), hierofanta/hierofante (hierophántēs), hierogeografia, hieróglifo (hieroglúphos), hierografia, hierográfico, hierograma, hierogramático, hierogramatista, hierologia (hierología), hierológico, hieromancia, hieromania (hieromanía), hieromante, hieromnêmone, hierônimo (hierṓnumos), hieropeu, hieroscopia, hierosofia, hierosolimitano, hieroterapia etc.”.

Em português, portanto, o neologismo deveria ser hierognosia, com “h”.

Mas o fato de o santo Pio de Petrelcina ser italiano pode explicar o erro de ortografia: aqueles que a usam devem tê-la copiado diretamente do italiano, língua em que não se usa “h” inicial: hidráulico em italiano é “idraulico”, homeopático é “omeopatico”, humanitário é “umanitario”, etc. Logo, faz sentido que em italiano se escreva ierognosia – mas em português só é possível a forma hierognosia.

Em português, Kuwait – não Kuaite, Koweit, Coveite, Cuvaite, Cuaite, Kwait, Quaite…

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A Guerra do Golfo, como se sabe, teve início quando o ditador iraquiano Saddam Hussein invadiu o pequeno país vizinho – o Kuwait. E como se deve escrever o nome do Kuwait em português? 5df7a65271912acb80b8bb554061843e53d0505c

O nome do país é escrito Kuwait em inglês, em espanhol, em italiano, em alemão, etc. Já em francês é Koweït. Como as regras ortográficas anteriores às Acordo Ortográfico atual proibiam expressamente o uso de “k” e “w” em português, criaram-se aportuguesamentos de qualidade duvidosa: com base na forma francesa, o Aurélio recomendava Coveite; com base na forma inglesa, o Michaelis recomendava Cuvaite. Em seu dicionário de inglês-português, um ainda jovem Houaiss propôs Cuaite (que alguns defendiam ver transformado em Quaite), mas posteriormente o mesmo Houaiss chegou a defender a forma Cuuaite – com dois uu. Algumas publicações chegaram a adotar formas híbridas como Kuait e Kuaite.

O mais recente Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa resolveu a situação: entre suas muitas disposições, determina (no parágrafo 2º) que as letras KWY devem ser usadas em português nos nomes próprios estrangeiros e em seus derivados – e cita explicitamente os exemplos Kuwaitkuwaitiano.

O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa determina explicitamente que, em português, se devem escrever Kuwait kuwaitiano.

As vantagens dessa abordagem pragmática são óbvias – facilita-se a vida de todos, unifica-se a escrita, e cada um pode continuar a falar como quiser – seja Cuaite ou Quaite, ou Coueit, ou Cuvait, ou Coveit, etc.

Um tempurá: origem da palavra e do prato japonês

Traditional Irish Soda Bread

O tempurá é um prato típico da culinária do Japão: são camarões, ou vegetais, fritos após serem envoltos em massa de farinhas e ovos. Diz-se ter sido inventado por missionários católicos portugueses no Japão no século XVI. O nome japonês do prato, assim, viria, talvez, do português tempero, ou, mais provavelmente de parte da locução latina que dava nome à quaresma – “ad tempora quadragesimae” -, período ao longo do qual não comiam carne vermelha.

Embora oxítono no Brasil – país com uma das maiores populações nipodescendentes do mundo -, o nome do prato é paroxítono em Portugal: tempura. É o mesmo que ocorre com a maioria dos aportuguesamentos de origem japonesa – são oxítonos no Brasil (judô, sumô, ofurô, caraoquê, etc.) e paroxítonos em Portugal (judo, sumo, ofuro, caraoque…).

Tanto em Portugal quanto no Brasil, porém, o tempura (ou tempurá) é masculino: um tempurá (ou tempura) – como se vê em qualquer livro de receita e na vida real, fora dos livros, e como bem trazem o dicionário Aurélio, o Michaelis e a Porto Editora, entre outros.

Nisso, erram o Houaiss e o Priberam, que trazem tempura como feminino.

 

Palavras novas: tapiocaria

downloadNa foto acima, uma bela tapioca recheada com carne seca. Alguns dicionários, como os portugueses, só trazem tapioca como a fécula extraída da mandioca; ignoram, portanto, o sentido mais usada correntemente – o de tipo de bolo feito dessa fécula, que se come com diversos acompanhamentos, doces e salgados. Especificamente na Bahia, é chamado de beiju.

E, com a proliferação recente de estabelecimentos especializados em tapiocas por todo o país, popularizou-se também o substantivo tapiocaria – bem formado a partir do sufixo tradicional português para estabelecimentos; o mesmo que se vê em churrascaria, livraria, padaria, pamonharia, papelaria, peixaria, petiscaria, pizzaria, relojoaria, tabacaria

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