Quem nasce em São Pedro da Aldeia é aldeense

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Nos comentários de hoje, um leitor da cidade de São Pedro da Aldeia, no estado do Rio de Janeiro, pergunta como se chama, afinal, quem nasce em sua cidade (ou seja, qual é o gentílico de São Pedro da Aldeia): queria saber se o certo é “aldeiense“, como trazem dicionários brasileiros, ou “aldeense“, como se usa na cidade.

O certo é aldeense. Como já vimos aqui tantas outras vezes, os dicionários brasileiros são atualmente uma péssima fonte de consulta no que concerne aos nomes de cidades brasileiras e gentílicos – em geral, desatualizados há décadas.

O que determina o gentílico a ser usado em português, para cidades do Brasil (ou de qualquer outro país de língua portugesa), só pode ser, é claro, o uso oficial. E o termo usado oficialmente pela cidade é aldeense.

Como mostra a placa comemorativa acima, o poder legislativo do município de São Pedro da Aldeia confere a ilustres visitantes o título de “cidadão aldeense”. Do mesmo modo, a prefeitura da cidade (poder executivo) só usa a forma aldeense (e não *aldeiense).

E, nesse caso, o erro dos dicionários não tem nem explicação: aldeense segue a formação etimológica dos derivados de “aldeia”, que normalmente perdem o “i” (como aldeão, aldeãaldeamento) e, por outro lado, aldeense é também a única forma aceita pelo Vocabulário Ortográfica da Academia Brasileira de Letras e pelo Vocabulário Ortográfico Comum da CPLP.

Foi justamente pela deficiência dos dicionários brasileiros hoje no que tange a gentílicos que criamos o Dicionário de gentílicos do Brasil. Todas as formas ali identificadas foram verificadas e reverificadas por nossa equipe, e são as formas oficiais pelas quais são chamados os cidadãos dos estados e municípios brasileiros.

Madri ou Madrid? Na nova ortografia, o certo é sempre Madrid

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Pelo menos uma coisa a coordenadora Patrícia Lima Ferraz, que tirou licença médica e foi passear na Espanha, fez certo: escreveu corretamente o nome da capital espanhola, Madrid – com “d”,  como manda explicitamente o Acordo Ortográfico vigente (e não como, erroneamente, ainda escreve a imprensa brasileira, que se meteu a aplicar o Acordo, mas dele só leu o resuminho).

Qualquer pessoa que diga que o Acordo Ortográfico admite as duas formas – Madrid e Madri – ou não leu o texto do Acordo, ou, se o leu, entendeu exatamente o contrário do que está claramente escrito. Porque o texto do Acordo (vejam aqui a versão oficial, publicada na página do Palácio do Planalto) é explícito:


“5º) As consoantes finais grafadas b, c, d, g e t mantêm-se, quer sejam mudas, quer proferidas, nas formas onomásticas em que o uso as consagrou, nomeadamente antropônimos [nomes de pessoas] e topônimos [nomes de lugares] da tradição bíblica: Jacob, Job, Moab, Isaac; David, Gad; Gog, Magog; Bensabat, Josafat. 

Integram-se também nesta forma: Cid, em que o d é sempre pronunciado; Madrid e Valhadolid, em que o d ora é pronunciado, ora não; e Calecut ou Calicut, em que o t se encontra nas mesmas condições. 

Nada impede, entretanto, que dos antropônimos em apreço sejam usados sem a consoante final Jó, Davi e Jacó.”


Não há outra interpretação possível: o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, aprovado pelo Congresso Nacional e com força de lei no Brasil, determina que, independentemente de o “d” de Madrid ser pronunciado ou não, deve-se escrever Madrid.

O certo é “um churro”, nunca “um churros”

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Por incrível que possa parecer, muita gente faz essa pergunta: existe “churro”, no singular? Sim, é claro que existe churro – o singular de churros é churro. No singular, um churro; no plural, churros.

É errado dizer *um churros, ou *o churros. A palavra churro (que não precisa de aspas, já que é uma palavra portuguesa, registrada em todos os dicionários) de um substantivo regular: assim como se diz um cachorro-quente, dois cachorros-quentes, e um burro, dois burros, deve dizer-se, sempre, “um churro” no singular, e churros somente no plural.

A palavra vem do espanhol, onde, como aqui, o singular é regular – un churro -, e churros é apenas a forma plural.

Duzentos milhões ou duzentas milhões de pessoas?

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O certo é dizer “duzentas milhões de pessoas” ou “duzentos milhões de pessoas”? Esse é um caso que engana muita gente – então, atenção: milhões é sempre masculino. Independentemente de o complemento ser feminino (“milhões de crianças”, “milhões de pessoas”), o numeral sempre fica no masculino: “dois milhões de mulheres”, “trezentos milhões de pessoas”. Assim, deve sempre dizer-se:  dois milhões de crianças (e nunca *duas milhões);

“trezentos milhões de visualizações” (e jamais *trezentas milhões);

“…de duzentos e oitenta a seiscentos milhões de pessoas…”, e não *duzentAs e oitenta a seiscentAs milhões“;

“…quinhentos milhões de novas tomadas”, e não *quinhentas milhões de novas tomadas, etc.

Quem nasce na Crimeia é crimeu

View of the city of Sevastopol from the seaOs grandes dicionários, apesar dos calhamaços que são, deixam na mão o consultor que queira saber como se chamam os nascidos na Crimeia (que, na nova ortografia, se escreve sem acento, como Coreia e europeia). Não surpreende, assim, que se veja com tanta frequência o uso, errado, da invencionice crimeano (aportuguesamento tosco do inglês Crimean). Em português, o correto gentílico (adjetivo pátrio) referente à Crimeia é crimeu; os nascidos na Crimeia são crimeus.

Por sorte, temos o dicionário Estraviz: crimeu.

A pronúncia da sigla IPHAN é “ifan” (“ifã”)

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Um leitor pediu um comentário sobre a pronúncia de IPHAN, sigla pela qual é nacionalmente conhecido o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Resposta: a pronúncia de IPHAN é “ifan” (isto é, “ifã“). Por quê? Simplesmente porque essa é pronúncia usada, atualmente e desde a criação do Instituto, por seus servidores, dirigentes, funcionários, pelo Ministério da Cultura, pela imprensa e por todos aqueles que têm relação com o Instituto.

O leitor fez o desfavor de encaminhar-me esta resposta, de uma comentarista portuguesa, que “ensina” a um brasileiro que a sigla em questão não poderia ser lida “ifan” porque “não existe” mais “ph” com som de “f” em português.

A palpiteira revela ignorância, por ao menos duas razões. Em primeiro lugar: ao contrário do que afirma, existem, sim, palavras com “ph” pronunciado como “f” em português – os dicionários registram, por exemplo, os substantivos portugueses westphalense ou phillipsita, com “ph” pronunciado como “f”.

Em segundo lugar: como todo falante de qualquer língua deveria saber, nomes próprios se pronunciam como se pronunciam, ainda que muitas vezes contrariando as regras ortográficas tradicionais – algo que o próprio Acordo Ortográfico de 1990 admite, ao enfatizar que muitos nomes próprios (e seus derivados) têm sequências de letras estranhas à ortografia portuguesa padrão – que devem, no entanto, ser respeitadas.

Assim, todo brasileiro de bom senso pronuncia “Petrobrás”, porque sabe que essa é a pronúncia usada pela própria estatal, ainda que o nome da empresa se escreva sem acento; assim como sabem que Mercosul se pronuncia “Mercossul”, ainda que só tenha um “s”; e que a SUDAM (Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia) é pronunciada “SuDÔ (em vez de rimar, como quereriam os puristas, com “ajudam”), e que o nome da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) se pronuncia “Urgs”, sem “f”. E por quê? Porque é assim que o fazem as pessoas que lidam com essas instituições diariamente, simples assim.

Ou, em outras palavras: pelo mesmo motivo que há no Brasil vários Philipes cujos nomes se pronunciam com “fi”, não “pi”, e vários Sergios ou Antonios sem acentos, mas que toda pessoa de bom senso sabe que deve pronunciar como se acentos tivessem, porque é assim que pronunciam os próprios donos do nome, e a regra (que, mais que de cortesia, é a do bom senso), nos casos de nomes próprios, é seguir a pronúncia dos próprios interessados.

O aportuguesamento e a pronúncia de bunker / búnquer

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Um búnquer (do alemão Bunker) é um abrigo fortificado subterrâneo. Há quem pronuncie a palavra, hoje em dia, como bânquer ou bãnquer, supostamente à inglesa; pura besteira: a palavra Bunker não nos veio do inglês, mas sim do alemão – língua em que o “u” tem o mesmo som do nosso “u”.

A palavra adquiriu em alemão o sentido de abrigo fortificado debaixo da terra já durante a Primeira Guerra Mundial; foi na Segunda Guerra Mundial, porém, que o sentido alemão dada à palavra se espalhou pelo mundo; prova da origem germânica dessa acepção é que, nos primeiros anos durante e após a Segunda Guerra, a palavra ainda era escrita, em jornais ingleses e americanos, com aspas, como um estrangeirismo.

A origem da palavra alemã Bunker é incerta, assim como da inglesa bunker e das homólogas nas diversas línguas europeias; o registro mais antigo de qualquer termo da família é “bunke“, em sueco – língua em que também o “u” soa como o nosso “u”.

Nada justifica, portanto, a pronúncia, em português, de bunker à inglesa – tanto mais que a palavra já se encontra devidamente aportuguesada e dicionarizada sob a forma búnquer, bem formada, na qual, obviamente, o “u” só pode ter o som de “u”.

O plural de búnquer em português é, como só poderia ser, búnqueres.