O Pacto dos Irmãos Pais, um dos mais antigos escritos portugueses

s370x290Em 2002, o galego José António Souto, professor de História da Língua na Universidade de Santiago de Compostela, descobriu e publicou um antiquíssimo texto com um pacto de apoio mútuo entre dois irmãos em caso de agressão externa. No verso do pergaminho encontrado consta a data de 1175.

O documento foi então anunciado por parte da imprensa como um achado histórico pois, se a data anotada no verso de fato for a de escrita do pacto (o que não se pode afirmar com certeza), tratar-se-ia possivelmente do mais antigo texto conservado até hoje escrito (segundo seu descobridor) na língua galego-portuguesa; roubaria o título, portanto, do testamento de dom Afonso II (rei de Portugal), redigido em 1214 e tradicionalmente considerado o mais antigo texto escrito no que viria a ser a língua portuguesa.

A verdade é que, diferentemente do testamento do rei Afonso II, é bastante discutível se o pacto entre os irmãos Gomenze Pelaiz e Ramiro Pelaiz (que a imprensa portuguesa “atualizou” a “Gomes Pais e Ramiro Pais”, razão pela qual o texto é por vezes chamado “Pacto dos Irmãos Pais“) de fato foi escrito em galego-português, ou se se tratava ainda de um “latim popular”, ou de um híbrido entre o latim e o que viria a ser o português.

Sendo este o caso, o Pacto dos Irmãos Pelaiz (ou Pais) não pode ser considerado o primeiro nem o mais antigo documento de seu tipo. Desde a chegada dos romanos à região dos atuais Galiza e Portugal, no primeiro milênio de nossa era, o latim foi-se modificando ano após ano, evoluindo em direção à língua que falamos hoje, e que apenas em 1536 (já depois, portanto, do descobrimento do Brasil) ganharia a sua primeira codificação escrita sob o nome atual (a “Grammatica da lingoagem portuguesa“).

Segue a íntegra do chamado “Pacto de Gomes Pais e Ramiro Pais“, ou “Pacto dos Irmãos Pais” (Pelaiz), possivelmente escrito em 1175:

Ego gomenze pelaiz facio a tibi irmano meo ramiru pelaiz
isto plazo ut non intret meo maiordomo inilla uilla
super uostros homines deslo mormuiral. & de inde ãtre as ca
sas dousenda grade & deluira grade. & ĩde pora pena lõga
& de ista parte perilla petra cauada de sueiro ramiriz
dou uobis isto que seiades meo amico bono. & irmano bono
& que adiuderis me contra toto homine fora el rei & suos
filios. & si pelagio soariz. ou menendo pelaiz. ou uelas
co pelaiz. ou petro martiniz. Daquele que torto fezer a dõ
ramiru. ou a don gomeze si quiser caber en dereito & se
non aiudarmonos contra illos. Des illo mormoiral ata
en frojom non lauer iure mala Dos ergo illos que abet hodie
fora se ganar herdade de gaualeiros ou de engeoida. & ĩ
uostra herdade habet tal foro quale dóóspital. & herdade
for de penores & ibi morar suo dono dar calupnia & fosadei
ra & si se for dela abere tal foro quomodo uostros herdades.
Se homenem entrar enaquela vila que torto tenia a dõ go
meze dar dereito dele si seu for de don ramiro quen de fora ue
nia. & quen isto plazo exierit ad uos ramiro pelaiz se erar
coregelo & se non  q  uoluerit peitar quinientos soldos.
jsto pleito est taliado de isto maio  q  venit ad .ijs. anos

7 comentários sobre “O Pacto dos Irmãos Pais, um dos mais antigos escritos portugueses

  1. Publicado nas Quasi edições, onde trabalhei sete anos. Que saudades, meu Deus! Julgo, contudo, que não mexi uma palha nesta edição. Quando muito, terei revisto a apresentação do presidente da Câmara de Famalicão (no Brasil, prefeito, se não me engano). Mas acho que nem isso.
    A edição teve um quê de propaganda. O documento foi escrito no concelho de Famalicão, e os autarcas, como escreveu o presidente do município, sentiram «um dever imperioso em divulgá-lo». As Quasi também eram de Famalicão; juntou-se a fome com a vontade de comer.

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