“Collant”, em português, se escreve colã

 

cola

Como chamar a roupa de material aderente ao corpo que se usa em danças, como o balé? Collant ou colã? Collant – em francês. Em português, colã.

Em francês collant significa literalmente “colante”. O nome vem do fato de a roupa “colar-se” ao corpo. Do mesmo modo que não faz mais sentido escrever maillot em português – mas sim maiô -, em português a forma correta, já incluída inclusive no Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa, é colã:

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3 comentários sobre ““Collant”, em português, se escreve colã

    • Poderia, se alguém usasse colante nesse sentido. Se entrar para o meio do balé, passar a usar a palavra colante e conseguir que parcela expressiva das pessoas que falam sobre colãs diariamente passem a falar colante, certamente os dicionários a acolherão um dia. Enquanto isso, como os usuários de colãs falam colã, recomendo usar colã, se quiser ser compreendido.

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      • Entendo o seu argumento, que acho pertinente, mas é preciso considerar também que a fala, embora vise a comunicar algo a alguém, é também uma expressão da personalidade do falante, como também o é a roupa que ele escolhe usar, por exemplo. E assim como há os descolados que se vestem com irreverência até mesmo para ir a eventos formais, há também quem ponha roupa de missa para ir à padaria no domingo de manhã. Eu sou, por exemplo, o tipo que vai de havaianas a um restaurante chique, ao passo que o meu pai nunca sai de casa sem calça e camisa sociais.

        Quero dizer que o falante culto de inclinação conservadora, que não vai a lugar algum só porque irrita linguistas de extração mais progressista, pode dizer colante por achar mais consentâneo com a índole da língua (muito embora pudesse ser interpelado pelo linguista sobre o que ele entende por “índole da língua”), sem que disso venha mal algum ao mundo, assim como nenhum mal lhe vem porque alguém que não pôde estudar mais que alguns anos diz cocrete em vez de croquete.

        Ao autoritarismo do conservador que se pretende dono da língua e admoesta quem não fale conforme ele julga ser a única forma possível, alguns linguistas contrapõem uma visão também autoritária que admoesta quem opta por escrever e até mesmo por falar conforme uma gramática que não é mais a da língua da maioria, inclusive da maioria das pessoas cultas.

        A mim parece que o linguista deva descrever os diferentes registros da fala sem lhes atribuir valores. Não se atribui valor ao registro que se diz padrão da classe média urbana cultas: só se diz que é o modo como as pessoas pertencentes a essa classe falam, em geral. E que talvez seja prudente usá-lo em entrevistas de emprego, porque o entrevistador, que será geralmente dessa classe, vai tomar como norma o seu próprio modo de falar, e não o das pessoas mais pobres nem dos intelectuais conservadores que seguem, escrupulosamente, a gramática dos escritores do século XIX.

        Eu sou um dos que prefere seguir a gramática tradicional tanto quanto o meu conhecimento dela me permite, porque me afeiçoei a ela. Já é assim que escrevo e, em grande medida, é também assim que falo. E, exatamente por dar muito valor ao modo como falo e como escrevo, por ter uma visão conservadora da língua e uma posição sobre excessos de estrangeirismo nela, permito-me recorrer a formas que, eventualmente, não serão imediatamente compreendidas pelo meu interlocutor, a quem quero, muitas vezes, dar o exemplo, como se fosse o militante de uma causa.

        Que seja uma causa perdida, porque a norma da maioria se impõe com o tempo, sem que disso venha algum mal ao mundo, até por ser o normal funcionamento das línguas, de tudo isto eu sei, mas nada disso tem lá muita importância a alguém que, como eu, é, no fundo, um romântico.

        Quando for comprar um colante para as aulas de balé da minha filha, é isto mesmo que vou pedir: um colante. Se não me entenderem, apontá-lo-ei, mas não direi colã. Já faço muito em não usar as segundas pessoas do singular e do plural em consideração à morte de ambas no português brasileiro.

        Veja você que me podo para evitar ser malvisto, para que me não taxem de pedante. Não deveríamos incentivar a tolerância tanto a quem fala conforme a norma popular quanto a quem se expressa conforme uma norma antiga?

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