O acento de oxímoro (e não *oximoro): mais um erro do Houaiss

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Oxímoro, ensina o Dicionário da Academia Brasileira de Letras (foto abaixo), é a “figura que consiste na associação de termos contraditórios quanto ao seu significado“. O Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa (foto também abaixo) explica ainda que são exemplos de oxímoros os famosos versos de Camões “Amor é (…) ferida que dói e não se sente / É um contentamento descontente / É dor que desatina sem doer.

É também oxímoro, com acento, a grafia encontrada nos dicionários de Antenor Nascentes, Celso Luft, Estraviz e em todos os dicionários feitos por Aurélio enquanto vivo.

Quem procurar “oxímoro” no Houaiss, porém, só encontrará oximoro, sem acento. Mas o próprio dicionário informa que a palavra vem do grego, língua em que a palavra já era proparoxítona.

Some-se a isso o fato de oxímoro ser a única forma que se ouve nas faculdades de Letras e demais círculos em que de fato se usa a palavra. O Dicionário de usos do português do Brasil, de Francisco Borba, feito com as palavras efetivamente mais usadas no Brasil, colhidas de usos reais por métodos técnicos, também só traz “oxímoro“, acentuada.

É uma grande contradição, portanto, o Houaiss (como outros dicionários, que, recentemente, passaram a não fazer mais que copiar o Houaiss) atestar que a etimologia da palavra indicaria uma pronúncia proparoxítona (e que de longe é a pronúncia mais corrente ), mas ainda assim registrarem a palavra sem nenhum acento.

É um erro mais do Houaiss (e dos dicionários que, desde a publicação do Houaiss, não fazem mais que copiá-lo acriticamente). Como sempre insistimos: o Houaiss é um dos melhores e maiores dicionários já feitos em qualquer país de língua portuguesa, mas, como toda obra dessa magnitude, não pode ser tomada como verdade absoluta, pois tem muitos erros.

Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa:IMG_1355

Dicionário da Academia Brasileira de Letras:IMG_1363

11 comentários sobre “O acento de oxímoro (e não *oximoro): mais um erro do Houaiss

  1. Nós precisamos nacionalizar o vocabulário da informática, meus Amigos. Nós devemos aportuguesar todos os anglicismos desse campo semântico.

    Pensem nisso, façam isso, pelo amor da nossa língua portuguesa, que devemos defender dos ataques de nossos inimigos ou da simples idiotice de quem não sabe o que sai da própria boca.

    Os técnicos de informática não são os culpados. Ignoram o problema, não tem consciência de que abastardam nossa língua a cada vez que a usam. Eles devem ser orientados por quem conheça nossa língua, por quem saiba dos perigos que a ameaçam, por quem a queira salvar.

    E de onde pode vir a salvação? Certamente não de um Marcos Bagno.

    Só entre os inimigos dos anarcolinguistas nossa lingua têm amigos e amantes. Urge mobilizá-los, a começar daqueles na Academia Brasileira de Letras, sobre cujos ombros mais pesa a responsabilidade de manter como nossa a nossa língua.

    Nossos escritores devem criar palavras para substituir estrangeirismos que grassam principalmente em ciber-revistas de informática. Os imortais devem chamar os jornalistas dessa área para que também deem sua decisiva contribuição. Ambos os segmentos têm na lingua sua ferramenta primordial de trabalho. E que maravilhosa ferramenta! Que bom profissional trata mal seus instrumentos?

    O povo que que fala a nossa língua não a pode perder, mas se a perder, estará ele mesmo perdido.

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    • Apesar do local inadequado da manifestação, o amigo tem razão. Não tem sentido o apego à grafia esdrúxula anglófila que muitos do setor de informática e de jornalismo têm. E não dá pra negar que, mesmo com o apego a essa ortografia “exótica”, o aportuguesamento nos vêm naturalmente. “Byte” deixa de ser uma palavra inglesa a partir do momento em que um brasileiro a lê como “báitchi”, da mesma forma que “suítchi”, “daunlôudji”, “nótchibuqui” e outras.

      Essa omissão da Academia Brasileira de Letras é irresponsável. Senão ela, algum outro grupo deveria criar um glossário de termos da área pra auxiliar técnicos e jornalistas a falar a nossa língua, a se comunicar de maneira clara conosco. Esse é o caminho natural da língua portuguesa, a tradução ou a naturalização (com o aportuguesamento) dos vocábulos estrangeiros, e é assim que ela cresce, amadurece e sobrevive. Não tem qualquer benefício protelar isso.

      Aproveitando, ficam aqui meus parabéns ao Dicionário e Gramática, que compreende bem essa questão e sempre trata dela de maneira lúcida.

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  2. Segundo Evanildo Bechara, em sua Moderna Gramática Portuguesa, o correto é ‘oximoro’.

    “Palavras que oferecem dúvidas quanto à posição da sílaba tônica – Silabada é o erro de prosódia que consiste na deslocação do acento tônico de uma palavra. Ignorar qual é a sílaba tônica de uma palavra, diz Gonçalves Viana, é ficar na impossibilidade de proferi-la. Numerosas palavras existem que oferecem dúvidas quanto à posição da sílaba tônica.”

    “São paroxítonas: acórdão, âmbar, ambrosia, avaro, aziago, barbaria, cânon, caracteres, cartomancia, ciclope, edito (lei, decreto), Epifania, exegese, filantropo, fluido (ui ditongo), fortuito (ui ditongo), gratuito (ui ditongo), ibero, impio (cruel), inaudito, látex, maquinaria, misantropo, necropsia, Normandia, onagro (tb. ônagro), ‘oximoro’ (tb. oximóron), Pandora, Pólux, pudico, quiromancia, simulacro.”

    O VOLP da ABL e o VOCLP também só atestam ‘oximoro’.

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    • Sim, sei que isso diz o Bechara (que é o autor do VOLP, que por sua vez serviu de base para o VOC, de modo que é tudo uma só fonte), mas Bechara está errado nisso, contrariando a etimologia da palavra, o próprio dicionário da Academia Brasileira de Letras, gramáticos que considero melhores que ele (como Celso Luft) e os falantes. Só nesse trecho que colou, já se identificam outros erros de Bechara – ao contrário do que ele afirma, são corretas as formas ímpio, édito e necrópsia. E, como mostramos aqui no texto sobre hégira (que na gramática de Bechara aparece grafada *héjira), mesmo os imortais erram.

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      • Talvez a palavra possa ter vindo do latim “oxymorum” (língua em que a palavra é paroxítona: https://en.wiktionary.org/wiki/oxymorum) e não diretamente do grego antigo, pois o Dicionário Aurélio, o Grande Dicionário Houaiss (de 2001), o Dicionário Priberam e o Dicionário da Academia Brasileira de Letras nos dizem isso. Isso explicaria a dupla grafia da palavra, como também a existência da variante “oximóron”.

        Transcrevo aqui a etimologia da palavra ‘oximoro’, segundo o Grande Houaiss:

        “gr. oksúmoron,ou ‘engenhosa aliança de palavras contraditórias’, neutro substv. do adj. oksúmoros,os,on ‘que sob um aspecto simples encerra um sentido profundo, espirituoso com aparência de ninharia’, de oksús,eîa,u ‘agudo, sutil, fino’ e morós ‘embotado, embrutecido; insípido; tolo, louco, doido, sem bom senso’; pelo lat.tar. oxymorum,i ‘id’; a prosódia em port. segue preferencialmente a lat., e não a gr.”

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  3. Em Portugal, parece haver dupla grafia. Os dicionários apresentam as duas formas. Numa pesquisa rápida pelo Google, parece até que a palavra sem acento tem prevalência. No Ciberdúvidas, os consultores usam tanto uma como outra forma. Nestas coisas, eu sou pelos falantes, não me interessam lá os gregos ou os romanos.

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