Revista Veja comete “erro crasso de português” ao acusar ministro de cometer outro erro – que a Veja também comete

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A revista Veja publicou hoje, com destaque, que o ministro da Educação brasileiro teria cometido um “erro crasso de português”, por ter afirmado que “haverão mudanças” – o certo seria “haverá mudanças”, impessoal. O primeiro problema? Já no subtítulo da reportagem, a mesma Veja comete um erro (ver aqui) tão condenado por puristas quanto o cometido pelo ministro: separa com vírgula o sujeito do predicado: “Mendonça Filho, afirmou durante entrevista“. A gramática do português proíbe a vírgula nesses casos.

O segundo problema? Basta pesquisar nos arquivos da revista  para ver que a própria Veja comete, em suas reportagens, aquilo que chama de “erro crasso”: flexiona o verbo “haver”, impessoal, no plural. Em matéria desportiva, por exemplo, a Veja nos informa que  “Nas quartas de final da competição, haverão os seguintes confrontos: Estados Unidos – Canadá, Turquia – Rússia, …“. Sobre o clima, a revista conta que no “sábado já haverão períodos com sol à tarde“. E assim andam as coisas.

“De férias” ou “em férias”: qual o certo?

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Estou de férias ou em férias? Diz-se sair de férias ou sair em férias? A forma gramaticalmente correta é “de férias” ou “em férias”?

A forma tradicional em português, tanto em Portugal quanto no Brasil, é de fériasestou de fériassaí de fériasestaremos de férias; etc. Nesse caso, porém, como em tantos outros, abundam pela Internet sites de qualidade duvidosa, que, sem absolutamente nenhum embasamento linguístico ou gramatical, ensinam (erradamente) que a forma correta, ou preferível, seria “em férias”. Mentira.

No Brasil, o único gramático tradicional que abordou diretamente a questão foi Paschoal Cegalla, que ensina que a expressão tradicional é “de férias”: diz-se, ensina o gramático, “estar de férias”, como também se diz “estar de luto”, “estar de atestado (médico)”, etc.

Em Portugal, o tema é tratado no Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa (a correspondente portuguesa da nossa Academia Brasileira de Letras), que, no verbete “férias”, traz as expressões “estar de férias”, “entrar de férias”, “ir de férias” – todas com exemplos apenas com a preposição “de“, não “em“.

Por insegurança, porém, muitos brasileiros acabam cometendo uma hipercorreção (fenômeno que consiste em tentar “corrigir” algo que já estava correto, que não precisava de correção) e, quando querem falar “chique” ou escrever formalmente, trocam a corretíssima “de férias” por formas forçadas como “estar em férias”, “entrar em férias”. Embora tampouco esteja errada, “em férias” é menos usual, tem menos tradição e não é nem um pouco mais correta ou mais formal do que a tradicionalíssima forma “de férias“.

Diga (e escreva), portanto, sem medo: estou de fériasviajaremos de férias a Parisentrarei de férias na próxima segunda-feira; etc.

A omelete ou o omelete? O quiche ou a quiche?

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O certo é “o omelete ou “a omelete”? Diz-se “a musse de chocolate” ou “o musse de chocolate”? Uma quiche ou um quiche?

Em Portugal, assim como na própria língua francesa, esses três substantivos só são usados no feminino. É também essa a recomendação das gramáticas tradicionais: que se fale uma omelete espanhola, uma linda musse de maracujá (ou uma musse para o cabelo) e uma deliciosa quiche.

No Brasil, porém, é comum ouvir esses três substantivos no masculino: “o musse”, “um quiche”, “um omelete”.

Tão comum, na verdade, que o Vocabulário da Academia Brasileira de Letras e o Dicionário Houaiss já passaram a trazer “omelete” e “quiche” como substantivos de dois gêneros, admitindo, portanto, que diga a omelete ou o omeleteuma quiche ou um quiche.

E fizeram bem, nesse caso; isso porque o fato de um substantivo ser feminino em francês não implica que em português tenha de ter o mesmo gênero – basta pensar em crepe, outro prato francês, que na França é feminino (“la crêpe“), mas que em português virou um crepe.

Só falta à ABL e ao Houaiss, portanto, darem o mesmo tratamento à palavra “musse”, que, apesar de tradicionalmente se considerar feminina, se ouve no Brasil no masculino (o musse, um musse) com a mesma frequência que omelete e quiche.

Esse fenômeno – de alternância de gêneros gramaticais – parece ocorrer, no Brasil, com frequência com substantivos terminados em “e”: basta pensar em palavras ainda mais usuais, como alfacechampanhe grafite (de lapiseira) que, apesar de os dicionários ensinarem que só se deve dizer “a alface“, “um champanhe” e “a grafite“, se ouvem, em todos os meios, com os gêneros trocados: “o alface“, “uma champanhe” e “o grafite“.