Tinha ganho ou tinha ganhado? O que realmente dizem as gramáticas:

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De acordo com todas as grandes gramáticas brasileiras e portuguesas do século passado e deste século – e com gramáticos vivos, como o professor Pasquale -, são corretas as formas “tinha ganho”, “haver ganho”, “ter ganho”.


Uma atriz brasileira escreveu, na Internet, que estava muito feliz por “ter ganho o Troféu Imprensa”… e um internauta tentou corrigi-la, dizendo que o certo devia ser “ter ganhado”, e não “ter ganho”.

Só que o metido corretor é que estava errado: bastaria ter aberto qualquer gramática para aprender que “tinha ganho”, “ter ganho”, “haver ganho”, etc. são formas corretas.

Esse é o problema do ensino “decoreba” de hoje em dia: em vez de de fato ler gramáticas, simplesmente decoram-se fórmulas e “regrinhas” que, na vida real, não funcionam, pois são cheias de exceções. É o caso da suposta regrinha, fácil de aprender mas de pouca utilidade (pois se aplica apenas a poucos casos), segundo a qual os verbos “ter” e “haver” sempre exigiriam o particípio longo (“tinha imprimido”, “ter fritado”), e os verbos “ser” e “estar”, sempre os particípios curtos (“foi impresso”, “está frito”).

Por essa lógica, alguns concluem, preguiçosamente, que “ter ganho” está errado. “Preguiçosamente”, porque lhes bastaria abrir uma gramática de verdade para verem que a tal regra tem várias exceções – entre as quais, precisamente, o verbo ganhar.

Como se lê nas tradicionais gramáticas dos já falecidos mestres Rocha Lima, Paschoal Cegalla, Napoleão Mendes de Almeida e Said Ali, ou nas gramáticas dos ainda vivos Evanildo Bechara (da Academia Brasileira de Letras) ou professor Pasqualeos verbos “ganhar”, “gastar” e “pagar” admitem o uso de suas formas curtas (ganho, gasto e pago) mesmo com “ter” e “haver”. São corretas, portanto, formas como “tinha ganho”, “tinha pago” e “tinha gasto”.

A interpretação equivocada deriva de uma leitura apressada daquilo que de fato dizem os gramáticos – vide o que diz Rocha Lima, em sua Gramática Normativa da Língua Portuguesa, a esse respeito: “O particípio regular de alguns verbos emprega-se junto do verbo ter; e o particípio irregular, não só com ter, mas também com ser. Exemplo: Tenho aceitado (ou aceito) trabalhos demais.

O brasileiro Celso Cunha e o português Lindley Cintra, os dois coautores daquela que é até hoje a gramática mais citada em Portugal e no Brasil (a Nova Gramática do Português Contemporâneo), são ainda mais taxativos: segundo eles, nos casos específicos dos verbos ganhar, gastar e pagar, as formas longas (ganhado, gastado e pagado) já de tal modo caíram em desuso que, para esses autores, só se devem usar, hoje, as formas curtas ganho, gasto e pago.

Em resumo, o comentarista metido que tentou corrigir a expressão “ter ganho” por “ter ganhado” foi duplamente infeliz: de um lado, todos os gramáticos brasileiros e portugueses admitem unanimemente ser correta a expressão “ter ganho”; e, de outro lado, é a expressão “ter ganhado“, que ele quis usar para parecer chique, que nem todos os gramáticos aceitam, pois, na opinião de alguns, seria já obsoleta desde o início do século passado.

Ou seja: como ocorre com alguma frequência, aquele que se meteu a corrigir outro alguém (com base numa regrinha decorada que não revela conhecimento da língua, mas sim sua ignorância) é que estava errado. Para variar.

13 comentários sobre “Tinha ganho ou tinha ganhado? O que realmente dizem as gramáticas:

  1. Eu coido que ainda se segue usando “tinha ganhado”, “terei pagado” ou “tivesse gastado”. Polo menos, na Galiza. Nom vejo razom pra considerá-las inválidas. Penso que as duas formas (ganhado/ganho, gastado/gasto…) têm de ser corretas.

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  2. Caro Anónimo Galego,

    Usam-se também no Brasil. A minha família é de uma pequena cidade no Estado de Minas Gerais, onde se continua a dizer tinha pagado, gastado e ganhado.

    Por isso, acho sempre temerário dizer que isto ou aquilo não se diz no Brasil: pode-se não dizer nos grandes centros urbanos onde se editam os livros de referência, mas se diz em pelo menos algum rincão do Brasil.

    Até a conjugação dos verbos na segunda pessoa do singular ainda se usa em alguns lugares, como no Pará, se não me engano.

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    • Então não aconteceu o contrário, mas o mesmo que no Brasil. Releia o texto: aqui, tinha gastado caiu em desuso há décadas, é considerado errado por muitos, mas ainda se usa, muito menos que tinha gasto, mas se usa.

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    • Entristece-o, mas não afasta a pertinência desse texto, porque se usam os particípios, nas suas formas regulares ou irregulares, em vários casos em que não se usa nem se pode usar o pretérito mais-que-perfeito, como, por exemplo, quando se conjugam os verbos no pretérito perfeito composto do indicativo (tenho gastado, tenho pagado, tenho ganhado), no futuro do presente composto do indicativo (terei gastado, terei pagado, terei ganhado), no futuro do pretérito composto do indicativo (teria gastado, teria pagado, teria ganhado) e em outros tantos tempos compostos do indicativo e do subjuntivo.

      Curtido por 1 pessoa

        • Então é o mesmo que em português europeu e brasileiro, mas morreu na fala e na escrita deste último, exceto na muito monitorada. Eu não falo pelos portugueses, mas já vi muita TV portuguesa e li muitos textos portugueses, e posso dizer, com alguma segurança, que o mais-que-perfeito sintético não é nem de longe tão frequente quanto o composto também em Portugal: ao menos na TV portuguesa, quase nuncq ou mesmo nunca ouvi alguém dizer ganhara, pagara ou gastara, seja em programas de entretenimento, seja em telejornais, cuja linguagem é mais formal que a daqueles.

          Aliás, peço-lhe licença, Anónimo Galego, para me dirigir a eventual leitor português, de quem gostaria de saber se não é ao menos parcialmente correta a impressão que tenho de que, mesmo mas telenovelas portuguesas, não se reproduz fielmente a fala coloquial portuguesa, ao menos não tão fielmente quanto as telenovelas brasileiras procuram reproduzir a fala coloquial brasileira. É que, nos programas de entretenimento ao vivo, em que a interação é espontânea, o português falado é menos cuidado, quero dizer, segue menos a norma gramatical tradicional portuguesa que o falado nas telenovelas, em que, na verdade, os atores reproduzem textos que decoraram.

          No Brasil, a distância entre o texto monitorado e a fala espontânea é muito maior que em Portugal, mas mesmo em Portugal me parece haver uma distância maior que a geralmente admitida pelos portugueses. Talvez isso se deva em parte a que a sociolinguística seja, se não estou em erro, bem menos forte em Portugal que no Brasil.

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        • E tem o mesmo sentido que em português europeu e brasileiro? Pergunto porque, em espanhol, há um tempo do modo subjuntivo (conjuntivo, para os portugueses) com terminação idêntica ao do pretérito mais-que-perfeito simples português (ganhara, pagara, gastara), mas que equivale ao pretérito imperfeito do subjuntivo do português (se eu ganhasse, pagasse, gastasse).

          Quando os galegos dizem eu ganhara, gastara, pagara querem dizer “eu tinha ganhado, gastado, pagado”, como na frase “Quando você saiu do restaurante, eu já pagara (tinha pagado) a conta”, ou querem dizer “se eu gastasse menos, teria mais”, como no espanhol “si yo gastara menos, tendría más”?

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