“Hein” ou “hem” ou “em”? Como se escreve “hein”? Hem? Em? Êim? Heim? Ein?

Muita gente pergunta como se escreve aquela silabazinha que se usa ao final de uma frase para reforçar uma pergunta – aquela, do “Que bonito, hein?“, ou “Tá podendo, hein?“. Usadas sobretudo na linguagem oral, não raro a vemos escrita, na Internet, das mais variadas formas: “Que bonito, hem?”, “Tá podendo, em?”, “heim“, “ein“, “en“, “eim“, etc. Mas, afinal, existe um jeito certo de escrever esse “eim” usado como pergunta?

Resposta: O jeito certo de escrever o som que se coloca ao final de uma pergunta é “hem” – forma que se encontra em dicionários, gramáticas e é inclusive, oficializada no texto do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Os dicionários, atualmente, admitem também a grafia “hein“, que nos chegou há muito tempo do francês, e quemas frisam que a forma correta é mesmo “hem”. É incorreto o uso de qualquer outra forma: não se deve escrever heimhenehneim, ou em.

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Sim, a verdade é que mesmo as interjeições têm uma grafia correta, “oficial”. No caso da silabazinha que se coloca após uma pergunta para reforçá-la, pronunciada “êim” ou “êin” (um “ei” com final nasalizado), os dicionários e gramáticas tradicionais determinam que a escrita correta é “hem“.

E por que “hem” e não “hein”, “ein”, “heim”, “eim”, etc? Pela simples razão de que esse som, o de “-êim“/”-êin” nasalizado final, deve ser escrito “-em” (em palavras com mais de uma sílaba, com acento: “-ém”). É uma regra da ortografia do português. Basta pensar na palavra “vem”, que rima com esse “hein”. Ou em “trem”, “bem”, “tem”.

A palavra “hem” está inclusive nos Dicionários e no próprio Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras. Já na primeiríssima edição do Aurélio, lá estava a palavra: hem, interjeição, que “denota não haver a pessoa entendido bem o que lhe falaram, ou ter ficado indignada ou surpresa com o que ouviu; pode equivaler também a ‘não é verdade?’. Hem é ainda a forma recomendada pelas gramáticas tradicionais – que condenavam o uso, que se faz, no Brasil e em Portugal, há muito tempo, da forma “hein“, copiada diretamente do francês.

Nas mais recentes edições do Aurélio e do Houaiss, a alternativa “hein” passou a ser incluída, tamanho é o seu uso, mas remetendo para a forma clássica portuguesa, hem.

Para sedimentar qualquer dúvida, o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, para além de todas as regras mais conhecidas de todos, eliminou definitivamente qualquer dúvida que poderia haver quanto à grafia da interjeição em questão; o Acordo Ortográfico traz, especificamente, exemplos de “interjeições escritas com a letra hhã?, hem?, hum!.”

É por essa razão, também, que outras grafias que por vezes se veem – como em ou en ou ein – também são incorretas para grafar a interjeição. As duas únicas formas de fato registradas em dicionários são hein, forma francesa, e hem, forma legítima portuguesa.

16 comentários sobre ““Hein” ou “hem” ou “em”? Como se escreve “hein”? Hem? Em? Êim? Heim? Ein?

  1. Caro Administrador,

    Já lhe perguntaram algumas vezes qual é o melhor dicionário do mercado, e respondeu que não se sentia à vontade para recomendar nenhum, porque o mais completo não é atualizado há muito, e o mais atualizado não é o mais completo.

    Faço-lhe outra dessas perguntas aborrecidas: qual é a melhor gramática normativa e qual é a melhor gramática descritiva do português brasileiro? Há alguma gramática descritiva do português brasileiro comparável em abrangência e qualidade à Gramática do Português da Fundação Calouste Gulbenkian?

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    • Do “Gramática do Português” da Fundação Calouste Gulbenkian, soube apenas uma coisa, que lá se dizia que, segundo a norma canónica, não se pluralizavam os apelidos. Risquei imediatamente da minha lista.

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      • Prezado Mário,

        Não lhe parece um pouco extremo riscar da sua lista uma obra apenas por este motivo?

        Não sei se é mesmo tão abrangente nem se é tão boa quanto li dizerem que é, e apenas li o que disseram a respeito dela, porque não a comprei nem a vi em livrarias no Brasil, de modo que não posso descartar a possibilidade de que esse erro reflita a qualidade geral da obra, mas é possível que não, é possível que seja uma pequena nódoa numa obra de resto boa, lembrando que se trata de gramática descritiva, e não normativa.

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    • Pessoalmente, não consigo ter uma única gramática (ou dicionário) de confiança, pois todos têm erros e lacunas – o ideal é ter uns 3 ou mais livros de base e comparar o que dizem sobre cada tema (é o que costumo fazer eu, mas sei que não é nada prático para quem quer respostas e não tem tanto tempo a perder). Muitas muito boas gramáticas foram escritas no Brasil no século passado – o problema justamente é que seus autores já morreram, e as obras não tiveram atualização à altura. A única grande gramática (meio descritiva, meio normativa) que está mais ou menos atualizada é a do Bechara – é, sem dúvidas, boa, mas claramente há partes desatualizadas e lacunas importantes. Mas é o que temos hoje.

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      • E da Gramática da Gulbenkian você gostou? Estou querendo adquirir uma boa gramática descritiva, e não normativa, do português europeu, para conhecer a norma culta real da variante europeia do português.

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        • Caro Anónimo Galego,

          Eu sei que, na sua pergunta por gramáticas descritivas das variantes africanas, asiáticas e galega da nossa língua (a propósito, penitencio-me pelo erro de me referir ao português europeu como a variante europeia da nossa língua, porque há duas variantez europeias com o galego), não houve nenhuma crítica velada ao meu interesse específico pela variante portuguesa do português, mas me senti compelido a justificar que perguntei apenas por gramática descritiva dessa variante por supor, quiçá incorretamente, que as demais não tenham ainda gramáticas descritivas voltadas ao público em geral, até porque é recentíssimo esse gênero de publicação, com esse escopo: do português de Portugal, só conheço mesmo a gramática descritiva da Gulbenkian, e do do Brasil, não mais que as do Ataliba de Castilho, Mário Perini e Marcos Bagno, se é que se pode dizer que sejam mesmo voltadas para o público em geral. O que há muito são artigos acadêmicos, capítulos de livros, dissertações de mestrado e teses de doutorado sobre questões específicas das normas padrão, culta urbana real, popular etc., mas não gramáticas descritivas específicas da norma culta urbana real que visam a abranger todo o possível, à semelhança de um compêndio gramatical tradicional. Na verdade, até me surpreendeu a publicação da Gulbenkian, porque, a julgar pelas interações que tive com portugueses e pela maior parte das respostas do Ciberdúvidas, eu imaginava que os estudos linguísticos em Portugal fossem pouco desenvolvidos comparativamente aos estudos tradicionais da língua a que se dedicavam as Faculdades de Letras (até este nome é indicativo da ênfase no beletrismo oitocentista). Tenho visto de uns tempos para cá que não é bem assim, que a Edite Prada e o Carlos Rocha do Ciberdúvidas escreveram algumas respostas extensas e bem elaboradas já de uma (duma) perspectiva acentuadamente linguística, e não exclusivamente tradicional, mas ainda me parece que a maioria dos portugueses parece acreditar haver pouca diferença entre a língua que falam e a que escrevem, que é mesmo muito menor que a existente entre a que os brasileiros cultos falam e a que os brasileiros cultos escrevem, mas não tão pequena quanto alguns portugueses parecem achar. Lembro-me de ter percebido topicalização na fala espontânea de portugueses, estratégias cortadoras em vez do uso normativo de pronomes relativos como cujo, dentre outras coisas que são ditad próprias do português falado brasileiro. E fiquei com a impressão de que, conquanto siga verdadeiro que é considerável a distância entre a fala culta do PE e a fala culta do PB, ela é menor do que sugerem linguistas mais radicais, como o Marcos Bagno, o qual assume, expressamente, que é política a decisão de considerar uma variante uma língua diferente das demais variantes a partir de determinado ponto de diferenciação, e que é a decisão que ele tomou: considera o português brasileiro uma língua própria. Sem discordar de que haja um quê de político nessa decisão, porque não há nenhum critério cientificamente neutro para dizer que a partir de determinado percentual de diferença, e somente a partir desse determinado percentual, é que se pode dizer que uma variante se tornou uma língua autônoma, sou levado a lembrar que mesmo decisões políticas têm de se justificar racionalmente com base em critérios sindicáveis ao escrutínio público, e não só da comunidade dos linguistas, mas também da que lhe é exterior, já que se trata de uma questão política, e não, ao menos não apenas, científica. E é justamente porque as diferenças, por muito numerosas e profundas que sejam, e são, ainda são, não obstante, tão poucas e pouco relevantes que ninguém sente realmente estar diante de línguas diferentes, é que essa decisão política é percebida por muitos, eu entre eles, como artificial, forçada e, portanto, arbitrária. Dizer que se está diante de línguas diferentes porque os brasileiros têm dificuldade de entender, inicialmente, os portugueses é exagero retórico, porque há não poucos textos em que os próprios portugueses dizem ter dificuldade de se estenderem uns aos outros, quando de regiões diferentes, ou mesmo quando conversam com um conterrâneo de pronúncia muito cerrada.

          Enfim, perguntei por gramáticas descritivas do PE para saber, afinal de contas, se há mesmo uma rachadura tectônica na placa do português, e, ainda, se o seu tamanho já justifica falar de língua brasileira.

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        • Entom, atualmente, apenas á gramáticas do Brasil, Portugal e na Galiza? Ainda nom á nengũa d´Angola, de Moçambique, de Cabo Verde…
          Tenho d´admitir que no tema das gramáticas, nom sou um experto (todo o contrário). A única gramática que conheço da Galiza é a do Freixeiro Mato. Imagino que algũa terá d´aver; mais nom tenho nem ideia.
          De Portugal e do Brasil já apontáchedes vários autores, mais eu nom vi (ainda) nengũu africão ou asiático. Por isso, pergunto se existe algũa gramática por lá.

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  2. Eu não sou fundamentalista, aceito muito bem as opiniões diferentes, e até tenho grande gosto. Não há nada que me dê mais prazer do que uma boa discussão sobre o que quer que seja. Que discordem de mim, é o que eu peço. Mas tem de haver alguma racionalidade, alguma boa-fé. É de ficar embasbacado, como é possível fazer tal afirmação conhecendo um pouco que seja a nossa literatura? Não consigo entender.

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