A pronúncia de Alsácia: “Alzácia”?

alsa1

Alsácia é uma região da França, na fronteira com a Alemanha e com a Suíça, e cuja maior cidade é Estrasburgo. A pergunta recebida é como se pronuncia Alsácia em português – o “s” tem som de “z” (“Alzácia”) ou de “ss” (“Alssácia”/”Alçácia”).

Em francês (Alsace) e em alemão (Elsass), esse “sa” seguido de “l” tem som de “z” nesse nome. Por essa razão, há quem diga, também em português, “Alzácia“.

Mas, de acordo com os dicionários portugueses e brasileiros que indicam a pronúncia correta das palavras, a pronúncia em português é mesmo “Alssácia“:  o “s” de Alsácia tem o som de ss – como, aliás, é regra em se tratando de “s” após consoante; o “s” de Alsácia tem o mesmo som de outras letras s na mesma situação, como em “valsa”, “Celso” ou “malsucedido”.

Baleia-branca: comparando dicionários

beluga

O Houaiss é de longe o melhor e mais completo dos dicionários da língua portuguesa atualmente à venda. Isso não significa, porém, que o dicionário Houaiss não tenha erros – o Houaiss tem erros, e muitos. Já mostramos vários deles aqui (clique aqui para recordar alguns). Tudo bem; não há dicionário sem erros.

Um exemplo mais de erro no Houaiss é a definição de baleia-branca. Para o Aurélio, é simples: baleia-branca é um sinônimo de beluga, o animal da foto acima. Como se vê na foto, o nome faz sentido.

É o mesmo que diz o dicionário Michaelis – baleia-branca é beluga.

A portuguesa Porto Editora  diz que baleia-branca é o mesmo que “beluca” (grafia questionável, por, além de não ter uso em português se comparada a beluga, tampouco é um aportuguesamento preciso do russo, já que, embora usualmente transcrita por “kh”, a última consoante nada tem a ver com “k” ou “c” – em russo, a palavra soa mais próxima de belurra, com rr de Lisboa e do Rio de Janeiro).

Ademais, o dicionário da Porto Editora traz erro nesse e em todos os verbetes que tratam de animais, por trazer os nomes de famílias (no caso da beluga, “Delfinídeos”) com inicial maiúscula, o que contraria o Acordo Ortográfico, que não prevê maiúsculas nesses casos.

O também português dicionário Priberam não erra (nem acerta), já que nem mesmo traz o verbete baleia-branca. [Nota: após esta publicação, o Priberam adicionou o verbete baleia-branca.]

E o Houaiss, embora seja nosso melhor dicionário, erra na palavra. Dá, como primeiro sentido de baleia-branca:

baleia da fam. dos balenídeos (Balaena mysticetus), que ocorre nas águas frias do hemisfério norte [Espécie ameaçada de extinção.]”

O problema é que ninguém chama a espécie Balaena mysticetus de baleia-branca, e por uma muito boa razão:

Bowheads42

…a Balaena mysticetus é preta, e não branca. Só mais um pequeno lapso do Houaiss.

Pronúncia: Manchéster ou Mânchester?

220px-manchester_town_hall_from_lloyd_st

O recente atentado terrorista em Manchester, na Inglaterra, fez que o nome dessa cidade inglesa fosse citado ao longo da semana em todos os principais telejornais. Pouco habituados a tratar da cidade em outras situações, os repórteres brasileiros se referiram a ela com a pronúncia “Mânchester“, proparoxítona.

Em português, porém, o nome da cidade inglesa tradicionalmente sempre se pronunciou Manchéster – uma paroxítona, como a maioria das palavras portuguesas e aportuguesadas.

Era a lição, por exemplo, de Silveira Bueno, que em sua gramática, trazia o nome da cidade como exemplo de palavra paroxítona:

Página 35

Como prova da pronúncia tradicional paroxítona em português, o nome da cidade aparecia mesmo acentuado (“Manchéster”) em obras de renome como a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira e na compilação Obras de Eça de Queiroz, e mesmo em outras gramáticas antigas.

Terá sido sem dúvida a popularidade dos times de futebol da cidade – conhecidos internacionalmente, inclusive em português, por seus nomes originals em inglês, Manchester United e Manchester City – que fez que a pronúncia à inglesa, proparoxítona (“Mânchester“), tenha se disseminado no Brasil.

Países e o uso do artigo definido: lista completa de países

50_paises-del-mundo1.jpg

É complexa a questão do uso de artigo definido (“o”, “a”) com topônimos (nomes próprios de lugar) em português. O gramaticalmente, nesses casos, é seguir o uso culto tradicional – em outras palavras, é preciso aprender caso a caso.

Há, porém, tendências: os nomes de cidade em geral não levam artigo (“em São Paulo”), mas há exceções (“no Rio de Janeiro”), e os nomes de países em geral levam artigo.

Quem não está acostumado a lidar com certos nomes de países costuma cometer o erro de deixar de lado o artigo obrigatório: não se deve dizer que algo ocorreu “em Gâmbia“, “em Zâmbia“, “em Benim“, “em Brunei“, “em Malawi“, “em Papua Nova Guiné“, “em Serra Leoa“, “em Guiné-Bissau“, etc. O certo é usar o artigo: na Gâmbia, na Zâmbia, no Benim, no Brunei, no Malawi, na Papua Nova Guiné, na Serra Leoa, na Guiné-Bissau, etc.

Assim como no caso das cidades, há, porém, entre os países, exceções. Há várias ilhas (Cabo Verde, Cuba, Chipre, Granada, Madagascar, Malta), mas também muitos países continentes, como Portugal, Angola, Moçambique e Israel.

Segue abaixo a lista dos países que, de acordo com o Ministério das Relações Exteriores brasileiro (o Itamaraty) e com o dicionário Houaiss, não levam artigo.

PAÍSES MEMBROS DA ONU QUE NÃO LEVAM ARTIGO DEFINIDO, SEGUNDO O ITAMARATY E O HOUAISS:

Andorra, Angola, Antígua e Barbuda, Barbados, Belize, Cabo Verde, Chipre, Cuba, El Salvador, Fiji, Gana, Granada, Honduras, Israel, Liechtenstein, Luxemburgo, Madagascar, Malta, Maurício, Moçambique, Mônaco, Montenegro, Myanmar, Nauru, Omã, Palau, Ruanda, Santa Lúcia, San Marino, São Cristóvão e Névis, São Vicente e Granadinas, São Tomé e Príncipe, Singapura, Timor-Leste, Tonga, Trinidad e Tobago, Tuvalu, Uganda, Vanuatu.

PAÍSES MEMBROS DA ONU QUE LEVAM ARTIGO DEFINIDO, SEGUNDO O ITAMARATY E O HOUAISS:

A regra geral se aplica à maioria dos países do mundo. Assim, do mesmo modo que se diz “o Brasil”, deve dizer-se também com artigo: o Afeganistão, a África do Sul, a Albânia, a Alemanha, a Arábia Saudita, a Argélia, a Argentina, a Austrália, a Áustria, o Azerbaijão, as Bahamas, o Bangladesh, o Barém (ou Bahrein), a Belarus, a Bélgica, o Benim, a Bolívia, o Botsuana, o Butão, o Brunei, os Camarões, o Camboja, o Canadá, o Cazaquistão, o Chade, o Chile, a China, a Colômbia, as Comores, o Congo, a Coreia, a Costa do Marfim, a Costa Rica, a Croácia, a Dinamarca, a Dominica, o Egito, o Equador, a Eritreia, a Eslováquia, a Eslovênia, a Espanha, os Estados Unidos, a Etiópia, as Filipinas, a Finlândia, a França, o Gabão, a Gâmbia, a Geórgia, a Grécia, a Guiné, a Guiné-Bissau, a Guiné Equatorial, o Haiti, a Hungria, o Iêmen, as Ilhas Cook, as Ilhas Marshall, as Ilhas Salomão, a Índia, a Indonésia, o Irã, o Iraque, a Itália, a Jamaica, o Japão, a Jordânia, o Kosovoo Kuwait, o Laos, o Lesoto, a Letônia, o Líbano, a Libéria, a Líbia, a Lituânia, a Macedônia, o Malawi (ou Maláui), as Maldivas, o Mali, a Moldova, o México, a Papua Nova Guiné, o Quênia, o Quirguistão, as Seicheles, o Senegal, a Serra Leoa, a Sérvia, a Síria, a Somália, o Sri Lanka, a Suazilândia, a Suécia, a Suíça, o Sudão, o Suriname, a Tanzânia, o Tajiquistão, o Togo, a Tunísia, o Turcomenistão, a Turquia, a Ucrânia, o Uruguai, o Uzbequistão, o Vaticano, a Zâmbia, o Zimbábue.

Há ainda alguns países cujo uso é discrepante entre o Brasil e Portugal:

Países com que os portugueses usam o artigo, mas os brasileiros não:

  • brasileiros dizem “em Fiji”, “em Gana”, “em Honduras”, “em Liechtenstein”, “em Luxemburgo”, “em Maurício”, “em Mônaco”, “em Montenegro”, “em Ruanda”, “em Uganda”;
  • enquanto portugueses dizem “nas Fiji”, “no Gana”, “nas Honduras”, “no Liechtenstein”, “no Luxemburgo”, “na Maurícia” (no feminino em Portugal), “no Mónaco” (com acento agudo em Portugal), “no Montenegro”, “no Ruanda”, “no Uganda”.

Países com que os brasileiros usam o artigo, mas os portugueses não:

“Também” exige próclise – em Portugal e no Brasil, em textos formais e informais

Sans titre

Todo brasileiro e todo português sabe que uma das principais diferenças entre as variantes atuais do português brasileiro e do português lusitano diz respeito à colocação pronominal: enquanto na Idade Média havia grande fluidez e portugueses ora usavam o pronome átono antes do verbo, ora depois, a situação acabou se definindo ao longo dos séculos, mas de modo diferente nos dois países: em Portugal usa-se aproximadamente em 50% dos casos o pronome depois do verbo, mas deve vir obrigatoriamente antes do verbo (“também se manteve”) quando há na frase advérbios, conjunções, etc. Já no Brasil, em situações naturais, o pronome vem sempre antes do verbo.

Assim, todo brasileiro diz “Me dá”, “Nos vimos”, “Me queixei”, enquanto os portugueses dizem “Dá-me”, “Vimo-nos”, “Queixei-me”. Desde o século passado, nossos melhores cronistas, poetas, músicos, etc. usam próclises (pronomes antes do verbo), à brasileira (e que, na metade dos casos, coincidem com a forma “certa” em Portugal).

O mesmo não ocorre, porém, com a maior parte dos jornalistas brasileiros e de todos aqueles brasileiros que, querendo falar “chique” ou “difícil”, tentam imitar a colocação portuguesa – e que, nessa tentativa, sempre acabam cometendo erros ao usar mais ênclises (pronome após o verbo) do que os próprios portugueses.

Justamente por estarem simplesmente tentando imitar uma colocação pronominal que não lhes é natural, o que mais se vê nos jornais brasileiros hoje são ênclises erradas – erradas mesmo pela colocação gramatical portuguesa. Chovem casos como o da foto acima, em que o jornalista escreve “também manteve-se” – erro feio, pois consegue ao mesmo tempo violar a gramática tradicional portuguesa  (que determina que advérbios como “também” exigem a próclise, e não a ênclise) e falha ao não reproduzir o uso natural de nenhum falante, nem português, nem brasileiro.

Os jornalistas brasileiros hoje incorrem no pior tipo de erro gramatical, pois acertariam se escrevessem exatamente como falam (usando a brasileiríssima próclise), mas erram simplesmente por tentar parecer chiques, por tentar falar difícil. Seguindo a concepção vira-lata de que “se eu falo assim, deve estar errado” e de que “quanto mais diferente da fala, mais correto deve estar”, acabam criando ênclises inexistentes em Portugal e em qualquer norma culta da língua portuguesa.

sem-titulo

O mesmo ocorre com orações com a palavra “que“, ou “onde“, entre outras: a gramática portuguesa tradicional obriga, nesses casos, que se use o pronome antes do verbo (igual a como fazemos sempre no Brasil); todo português sempre falará e escreverá “que se deu“, “onde se viu“; mas alguns brasileiros, querendo escrever difícil, acabam inventando construções erradas como “que deu-se“, “onde viu-se” – erradas segundo toda e qualquer gramática portuguesa.

Em outras palavras: se não quiser passar vergonha, na dúvida, não invente; escreva do modo que lhe soar mais natural, do jeito que falaria. Quase sempre, estará certo.

“No Marrocos” ou “em Marrocos”?

marrakesh_

O correto é “em Marrocos” ou “no Marrocos”? Em outras palavras, o nome do país Marrocos leva artigo? As duas opções estão corretas: no Brasil, usa-se com artigo: o Marrocos, no Marrocos, do Marrocos; em Portugal, usa-se sem: em Marrocos, de Marrocos.

Mas por que essa diferença? Há uma explicação:

Como regra geral, os nomes de países levam artigo em português: a África do Sul, a Argentina, a China, a Colômbia, a Eritreia, o Japão, o México, a Zâmbia (há, porém, exceções, como Portugal); e, como regral geral, os nomes de cidades, em português, não levam artigo: diz-se “em São Paulo”, “em Brasília”, “em Lisboa”, “em Maputo” (há, também um pequeno número de exceções, como o Rio de Janeiro).

No caso de/do Marrocos, a questão é justamente que o mesmo nome, “Marrocos”, originalmente designava, em português, uma cidade – a atual Marraquexe (Marrakech) -, e posteriormente tornou-se o nome aplicado a todo o país.

Sim, tanto a palavra “Marrocos” quanto “Marrakech” têm a mesma origem, e é a atual cidade de Marraquexe que primeiro recebeu o nome, em português, de Marrocos; os portugueses chamavam de Marrocos a principal cidade dos antigos reinos muçulmanos do noroeste da África; chamava-se, assim, Reino de Marrocos ao reino centrado na cidade que os portugueses chamavam Marrocos, e os franceses, Marrakech.

Com a evolução da política local – o surgimento do país com suas feições modernas – e o passar do tempo, os portugueses passaram a usar o nome “Marrocos” apenas para se referirem ao país, e, para se referirem à cidade, a fim de evitar ambiguidade, foram cada vez mais adotando o nome francês, Marrakech.

Pelo contato próximo que sempre mantiveram com aquele país, porém, os portugueses mantiveram para com o nome do país o tratamento que sempre haviam dado ao nome, mesmo quando se referia apenas a uma cidade – o uso sem artigo: em Marrocos, de Marrocos.

Já os brasileiros, cujo contato com o reino árabe era muito menor, não tinham por que não acabar por “regularizar” o tratamento dado ao nome do país: do mesmo que modo que “o Egito”, “o Sudão”, “o Congo”, “o Chade”… “o Marrocos”.

Já à época do Brasil Império, no início de 1889,  encontra-se exemplo, no “Annuario publicado pelo Imperial Observatorio do Rio de Janeiro“, do uso com artigo:

Página 15

É esse (“o Marrocos”, “no Marrocos”, “do Marrocos”) o uso oficial no Brasil, que se vê tanto em órgãos governamentais quanto na imprensa e, entre outros, no dicionário Houaiss (verbete “marroquino”), ao passo que, em Portugal, mantém-se o uso histórico, sem artigo (“em Marrocos”).

Papua Nova Guiné: com ou sem hífen?

bd1f65e2bc57cc2a71bc271c5df08fdb

Uma boa mudança trazida pelo novo Acordo Ortográfico foi uma maior sistematização no uso dos hifens. O caso da Papua Nova Guiné, país situado ao norte da Austrália, era emblemático da confusão: embora o nome do país, em português, fosse “Papua-Nova Guiné“, era comum encontrar, em fontes sérias, grafias como “Papua Nova-Guiné“, ou mesmo “Papua-Nova-Guiné“.

Com o novo Acordo Ortográfico, não há dúvidas: como regra geral, determina o Acordo, os topônimos (nomes de lugares: países, estados, cidades, etc.) não levam hífen. Escreve-se, portanto, sempre sem hifens: Papua Nova Guiné.

 

Quem fica impotente broxa, não “brocha”

Num esforço para dissuadir a população do hábito do tabagismo, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária anunciou que passará a imprimir mensagens ainda mais enfáticas nos maços de cigarros, como a de que “Você brocha (se consumir este produto)”. O problema? De acordo com o dicionário Aurélio, o dicionário da Academia Brasileira de Letras, o professor Pasquale, dicionários de Portugal, etc., a grafia correta para “ficar impotente” é broxar, com xis – e não brochar, que tem outro significado.

Sans titre.png

Com o sentido de “não conseguir ter uma ereção“, “ser ou estar sexualmente impotente“, “ficar desanimado, sem forças“, a grafia correta é broxar, com x. Algo desanimador é algo broxante, também com “x” . É assim (com “x”) que o Dicionário Aurélio e os dicionários da Academia Brasileira de Letras e da Academia das Ciências de Lisboa – assim como os dicionários de Aulete, Luft, Bechara, Michaelis, Priberam, e do Professor Pasquale  escrevem as palavras “broxa”, “broxar”, “broxado” e “broxante”, em seus sentidos ligados à impotência sexual.

Existem os substantivos broxa e brocha, nomes de dois objetos diferentes: brocha, com ch, é um tipo de prego curto; enquanto broxa, com x, é um pincel pequeno.

broxa_versus_brocha

Já desde o século retrasado, sempre se fez diferença, em português, entre broxa e broxar com “x”  e brocha e brochar com “ch”; e foi sempre a forma com “x” a usada com o sentido informal de impotência sexual, disfunção erétil.

Brocha (com ch) é um tipo de prego, enquanto broxa, com x, é tanto o nome do tipo de pincel quanto um jeito informal de se referir a um “indivíduo sem potência sexual”. Aurélio, Caldas Aulete, Celso Luft, Evanildo Bechara, Michaelis, o Professor Pasquale e os dicionários da Academia Brasileira de Letras registram, assim, também o verbo broxar, com os seguintes significados: 1. pincelar, pintar; 2. perder a potência sexual; 3. (por extensão) perder o entusiasmo, desanimar.

O Dicionário Aurélio traz também o adjetivo broxante: 1. que torna alguém broxa (sexualmente impotente); 2. cansativo, importuno.

As formas com “x” são as únicas aceitas pelo Dicionário Aurélio, pelos Dicionários da Academia Brasileira de Letras e por todos os demais principais dicionários brasileiros – com a única exceção do Dicionario Houaiss – que, apesar de ser um dos melhores, maiores e mais completos dicionários da língua, tem, justamente por ser tão grande, muitos erros – como já vimos aqui.

E um dos erros do Houaiss é misturar broxas com brochas, contrariando toda a história da palavra na língua portuguesa. Todos os dicionários brasileiros do século XIX e XX que registraram a palavra o fizeram com “x”; mesmo na colossal Décima Edição do Grande Dicionário de Moraes, considerada o mais completo dicionário da língua portuguesa até hoje, encontram-se os sentidos de “pincel” e “sexualmente impotente” como significados de “broxa”, e não de “brocha“.

O mais recente Dicionário (o de 2009) da Academia Brasileira de Letras confirma o que sempre se ensinou: brocha, com “ch”, é só um prego; “broxa”, com “x”, é um pincel ou alguém impotente; e broxar é “ficar impotente”:

img_1293img_1295img_1297

Também o Dicionário da Academia portuguesa faz exatamente a mesma distinção: “broxar”, somente com “x”, é que significa “ficar impotente”, “desanimar”:

14905IMG_1331IMG_1330

Que broxa, como sinônimo de impotente, se escreve com x (e não com “ch”) é o que ensinam ainda os dicionários de Silveira Bueno (“broxar: perder a ereção; perder o interesse, o estímulo; broxante: que faz perder o estímulo ou interesse“), os de Celso Luft, os de Sacconi, o Michaelis, o Caldas Aulete, o Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa (da Enciclopédia Britannica), o Dicionário de Usos do Português do Brasil (2002), de Francisco Borba, e (foto a seguir) o Dicionário do Professor Pasquale (2009):

IMG_2242

Dicionário de Português Comentado pelo Professor Pasquale – 2009

Em seção em que inclui casos de “erros comuns da língua” e “dicas de português”, o Manual de Redação da Folha de S.Paulo menciona expressamente: “Broxa, com x, significa pincel grande e indivíduo sem potência sexual. Brocha, com ch, significa, entre outras coisas, prego curto de cabeça chata.

O Aulete, aliás, disponibiliza hoje livre acesso ao texto “original” de sua primeira versão, o que atesta que em 1881 em Lisboa (data e local de publicação do primeiro Aulete) já se registrava o uso de broxar, com “x”, com o significado de “Mostrar-se sexualmente impotente.

Também o Dicionário de Usos do Português do Brasil (DUPB), de Francisco Borba – o único dicionário brasileiro a usar um córpus técnico, de ocorrências efetivas de cada palavra na língua escrita, para escolher as palavras que definiria – traz broxarbroxantebroxada, todos apenas com “x”, nos sentidos que remetem a impotência sexual, com exemplos retirados da imprensa brasileira: “Nunca uma interrupção para o tempo técnico foi tão broxante.“; “Foi uma broxada que dei com uma amiga“; etc. Já o verbo brochar sequer aparece entre as 65 mil palavras mais usadas no Brasil registrada pelo DUPB; apenas o substantivo “brocha” aparece, mas em seu sentido próprio, de prego (também abonado por exemplo tirado da imprensa brasileira): “Veio a crise mexicana e o governo brasileiro, mais uma vez, viu-se pendurado na brocha.

Os Grandes Dicionários da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras trazem “brochar” como “costurar as páginas de um livro; pregar com brochas (pregos curtos)”. “Broxar”, com “x”, a Academia Brasileira de Letras define, por sua vez, como “mostrar-se sexualmente impotente”- conforme fotos a seguir:

IMG_9566IMG_9568

Em resumo: desde seu “nascimento” na língua portuguesa (o que ocorreu, conforme registros, antes de 1875), as palavras “broxa” e “broxar”, no sentido de “(ficar) impotente”, sempre se escreveram com “x” em português.

Quando usar “num” ou “em um”? “Numa” ou “em uma”?

Sans titreMachado de Assis (acima, em Memórias Póstumas de Brás Cubas), como todos os nossos bons escritores, sempre usou numnuma.


Há um tipo de pergunta sobre a língua que sempre me assusta – especialmente por chegar com alguma frequência: “quando posso usar “num” em lugar em “em um”?“; “existe mesmo a palavra “numa”?“; etc.

É, aparentemente, mais uma dessas “lendas urbanas” linguísticas dos tempos que correm: uma falsa ideia de que a contração “num” (ou, no feminino, “numa“) no lugar de “em um” (ou “em uma“) seria informal ou a ser evitada. Pois bem, não é verdade: da mesma forma que, em português, “em + o” dá “no”, “em + este” dá “neste”, etc., a preposição “em” seguida da palavra “um” resulta, em português culto, na forma contraída “num“.

A palavra num (e suas variantes numanunsnumas) são portanto formas corretas, históricas e formais – basta ler Machado de Assis (trecho acima) ou qualquer outro de nossos bons autores, brasileiros ou portugueses. Em Portugal, aliás, sempre se escreve “num” e “numa”, e essa obsessão por “desmanchar” todo num em em+um já é até vista como uma mania tipicamente brasileira e moderna (mas sem  justificativa gramatical, nem mesmo linguística, uma vez que, na fala, continua-se a dizer “num”).

Mas o fato é que, hoje, na imprensa brasileira, cada vez mais a contração “num” é substituída por “em um”, como se fosse mais “chique” escrever assim, separadamente. Pois bem, para que não fiquem dúvidas: não é; não é nem mais chique, nem mais elegante, nem mais formal escrever que alguém está “em um” lugar do que escrever que a pessoa está “num” lugar.

Pelo contrário, esse “desmanche” da contração, que hoje se vê no que se escreve no Brasil, nada mais é que uma clara hipercorreção – uma consciente e forçada tentativa de “corrigir” o que já estava absolutamente correto, achando, com isso, estar mais distante da língua falada e, portanto, mais próximo da língua culta.

Um grande erro, portanto, já que, como já dito, basta abrir nossos melhores textos de nossos melhores autores, de qualquer período, para ver que estes sempre usaram muito mais numnuma do que em umem uma.

Separar todos os nunsnumas, como parece ser a norma em certos jornais brasileiros, nada mais revela, portanto, que uma certa cafonice e uma insegurança linguística, ao inventar uma norma antinatural e que não é recomendada por nenhuma gramática ou bom autor.

A ironia é que, embora fujam sempre do “num” e “numa”, esses mesmos falantes inseguros não pensam em substituir “naquele” por “em aquele”, “neste” por “em este”, “nas” por “em as”.

(Isso leva a supor que o “medo” do num tenha uma origem diferente: pode ser o fato de que, popularmente, muitos brasileiros dizem num em vez de não – “eu *num quero“, o que é socialmente estigmatizado; talvez tenha sido o “medo” de deixar escapar um desse “num” (variante popular de não) que tenha feito que algum inseguro falante tenha optado por, pessoalmente, nunca mais usar num nenhum na escrita…)

Em resposta, portanto, à pergunta inicial – quando se pode usar “num” em lugar de “em um”, ou “numa” em lugar de “em uma” -, a resposta é: sempre. As formas contraídas num numa são as tradicionais da língua portuguesa, são de longe as mais usadas por nossos melhores escritores e não têm absolutamente nada de menos elegante, menos formal ou menos culto do que as menos naturais formas separadas “em um” e “em uma”.