“No Marrocos” ou “em Marrocos”?

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O correto é “em Marrocos” ou “no Marrocos”? Em outras palavras, o nome do país Marrocos leva artigo? As duas opções estão corretas: no Brasil, usa-se com artigo: o Marrocos, no Marrocos, do Marrocos; em Portugal, usa-se sem: em Marrocos, de Marrocos.

Mas por que essa diferença? Há uma explicação:

Como regra geral, os nomes de países levam artigo em português: a África do Sul, a Argentina, a China, a Colômbia, a Eritreia, o Japão, o México, a Zâmbia (há, porém, exceções, como Portugal); e, como regral geral, os nomes de cidades, em português, não levam artigo: diz-se “em São Paulo”, “em Brasília”, “em Lisboa”, “em Maputo” (há, também um pequeno número de exceções, como o Rio de Janeiro).

No caso de/do Marrocos, a questão é justamente que o mesmo nome, “Marrocos”, originalmente designava, em português, uma cidade – a atual Marraquexe (Marrakech) -, e posteriormente tornou-se o nome aplicado a todo o país.

Sim, tanto a palavra “Marrocos” quanto “Marrakech” têm a mesma origem, e é a atual cidade de Marraquexe que primeiro recebeu o nome, em português, de Marrocos; os portugueses chamavam de Marrocos a principal cidade dos antigos reinos muçulmanos do noroeste da África; chamava-se, assim, Reino de Marrocos ao reino centrado na cidade que os portugueses chamavam Marrocos, e os franceses, Marrakech.

Com a evolução da política local – o surgimento do país com suas feições modernas – e o passar do tempo, os portugueses passaram a usar o nome “Marrocos” apenas para se referirem ao país, e, para se referirem à cidade, a fim de evitar ambiguidade, foram cada vez mais adotando o nome francês, Marrakech.

Pelo contato próximo que sempre mantiveram com aquele país, porém, os portugueses mantiveram para com o nome do país o tratamento que sempre haviam dado ao nome, mesmo quando se referia apenas a uma cidade – o uso sem artigo: em Marrocos, de Marrocos.

Já os brasileiros, cujo contato com o reino árabe era muito menor, não tinham por que não acabar por “regularizar” o tratamento dado ao nome do país: do mesmo que modo que “o Egito”, “o Sudão”, “o Congo”, “o Chade”… “o Marrocos”.

Já à época do Brasil Império, no início de 1889,  encontra-se exemplo, no “Annuario publicado pelo Imperial Observatorio do Rio de Janeiro“, do uso com artigo:

Página 15

É esse (“o Marrocos”, “no Marrocos”, “do Marrocos”) o uso oficial no Brasil, que se vê tanto em órgãos governamentais quanto na imprensa e, entre outros, no dicionário Houaiss (verbete “marroquino”), ao passo que, em Portugal, mantém-se o uso histórico, sem artigo (“em Marrocos”).

18 comentários sobre ““No Marrocos” ou “em Marrocos”?

  1. Há quem ainda diga Cidade de Marrocos em referência a Marraquexe? Seria despropositado fazê-lo? Se se argumentar que quase ninguém saberá que Marraquexe era Marrocos, responda-se que quase ninguém, à parte os mais cultos, sabe que existe Marraquexe, muito menos que fica no Marrocos, donde me parece que seria aceitável chamar Cidade de Marrocos à Marraquexe, tal como se chama Cidade do México à capital do México.

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      • Só mesmo a de satisfazer um prazer “purista” / “protetivo” da língua. Eu sou bastante purista, mas um purista que não caga regras aos outros: escrevo ou falo como o faço, mas não exijo que ninguém mais o faça nem condeno ninguém por não o fazer.

        Curtido por 1 pessoa

        • Aliás, acho deselegante corrigir erros aos outros em público, e só o faço, mesmo em particular, quando o erro é do tipo que constrangeria alguém de quem gosto ou com quem me importo se continuasse a ser cometido, o que não é o caso, por que nem se trata de erro. Eu é que seria visto como doido por dizer “Cidade de Marrocos”, embora isso não me importe em nada: assim como não imponho regras aos outros, não admito que mas imponham.

          Curtido por 2 pessoas

      • É melhor mesmo Cidade do Marrocos que Cidade de Marrocos. Ocorreu-me, todavia, que as demais cidades a que se chama Cidade de + nome do país são capitais dos seus países, como a Cidade do México e a Cidade do Panamá, o que não é o caso de Marraquexe, mas não acho que a possibilidade de induzir alguém em erro neste caso seja suficiente para preterir a forma portuguesa, já que, como eu disse, só uns poucos falantes sabem da existência desta cidade, e menos ainda são os que sabem qual é a sua capital, e estes, ao ouvirem Cidade do Marrocos, não só não serão induzidos em erro como hão de querer saber que cidade é essa e, ao serem informados de que é Marraquexe, por que é que lhe chamamos Cidade do Marrocos. Eu mesmo chamava Marraquexe à cidade, mas, agora, nas raríssimas vezes em que tiver de me referir a ela, chamar-lhe-ei Cidade do Marrocos.

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    • Portugueses e brasileiros dizem e escrevem em Angola. Portugueses dizem e escrevem em França, em Espanha e, salvo engano, em Itália; nós dizemos e escrevemos na França, na Espanha e na Itália. Mas há convergência quanto a “em Angola”. Imagino que até pelo cacófato “Na Angola” = Nangola..

      Curtido por 1 pessoa

  2. Pingback: Uso do artigo definido com nomes de países – lista de países | DicionarioeGramatica.com

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