Pronúncia de “mise en place”

Contam-me que “em programa de culinária ontem de manhã, a atriz Claudia Ohana discutiu com Ana Maria Braga sobre um termo em francês muito falado na cozinha, mise en place, que quer dizer colocar em ordem os ingredientes antes de seu preparo.”

No vídeo, vemos que Claudia Ohana pronuncia “mise en plá” e “ensina” a apresentadora (que pronuncia “mise en place”, corretamente, “mizampláss”) com o argumento de que a atriz sabe falar francês, e que em francês se diz “plá“. Está errada.

É surpreendentemente comum isso de que quem corrige arrogantemente os outros costuma ser quem está errado; no caso, Ohana, que diz que “é que eu sei falar francês” estava errada: “place” se pronuncia mesmo “plass“, e não “plá”.

(Talvez ela tenha confundido place, lugar, com plat, prato, que de fato se pronuncia plá em francês.)

De resto, programas de culinária já renderam dúvidas interessantes aqui na página, como aquelas sobre os neologismos crocância empratar e empratamento.

 

O Mali (país africano), República do Mali – não “em” Mali, “de” Mali

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Algumas páginas de notícias brasileiras noticiaram ontem um atentado “em” Mali. É o mesmo erro dos jornais que falam de algum acontecimento em” Benim. É português tão errado quanto dizer que algo aconteceu “em Paraguai“, ou “em México“, ou “em Egito“, ou “em Brasil“. Em regra, em português, os nomes dos países levam artigo – o atentado ocorreu no Mali, isto é, no país africano cujo nome oficial é República do Mali (nunca “de Mali).

“Gratuíto” ou “gratúito”: quem corrigia é que estava errado

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A maioria de nós em algum momento ouviu na escola que a pronúncia mais popular no Brasil da palavra gratuito – gra-tu-í-to, com acento no “i” – estaria errada, e que a pronúncia “correta” só podia ser “gratúito” (gra-túi-to), com força no “u”. A explicação seria que assim se pronunciava em latim.

Por si só já seria problemática a ideia de que quase toda a população naturalmente pronuncie errado uma palavra. A maneira considerada “correta” de pronunciar uma palavra, em qualquer língua, é geralmente simples reflexo da maneira como a maioria da população a pronuncia. Por essa razão, é mesmo normal que pronúncias “oficiais” mudem, de acordo mudanças de hábitos dos falantes.

Há 50 anos, por exemplo, a pronúncia “correta” de senhora era “senhôra”, com ô fechado, que é como até hoje se diz em Portugal. Mas no Brasil, de tanto as pessoas pronunciarem “senhóra”, essa acabou se tornando o modo correto de pronunciar senhora no Brasil. Trezentos anos antes, o “correto” em português era pronunciar “tchuva” e “tchave“, mas de tanto as pessoas pronunciarem “xuva” e “xave“, essas viraram as pronúncias corretas para chuvachave.

Ainda assim, professores corrigem quem pronuncia “gratuíto”, repetindo a lição de um gramático que, há mais de um século, escreveu que, uma vez que a palavra vinha do latim gratuĭtus, e que em latim esse “i” era breve, seria incorreto que falantes de português hoje dessem ênfase a esse “i”. Outro raciocínio já por si questionável.

Mas o problema não acaba aí: o problema maior é que o gramático que disse que a pronúncia correta deveria ser “gratúito” por causa do latim estava errado – como hoje admitem os estudiosos, houve um erro de quem recomendou “gratúito“: “gratuito” em latim não era grātuĭtus, com a marcação curva que indicaria que o “i” era breve, mas sim grātuītus, com o marcador reto que indicava que o “i” era longo. Ou seja: a pronúncia correta em latim (e isso pode ser hoje conferido em qualquer livro de latim) era gratuítus, com ênfase no “i”, e não gratúitus, com ênfase no “u”.

Se recordassem ainda que, ao contrário do que muitas vezes se ensina, o português não veio diretamente do latim, mas sim do galego, teria também servido darem uma olhada em nossa língua-mãe: em galego, até hoje, a pronúncia (e a grafia) oficial é gratuíto (ver aqui), e não o gratúito dos puristas equivocados.

Ou seja: por um erro de alguém (e também por culpa dos muitos gramáticos e professores que não verificaram a correção da falsa regra que ajudavam a disseminar), durante mais de um século se ensinou que a pronúncia mais popular no Brasil para a palavra gratuito estava errada, por supostamente divergir do latim – quando na verdade a pronúncia gratuíto é a exatamente a que respeita o latim.

E, como veremos em outros textos, não são poucos os casos como esse: em que, havendo divergência entre como fala o povo e o que ensinam alguns gramáticos, uma verificação responsável acaba por revelar que o povo é que tinha razão, e que, ao tentar “corrigir” à força algum suposto “erro de português”, gramáticos inadvertidos erraram, passaram adiante seu erro e acabaram por causar dano à língua e aos falantes.

Vocabulário: pangolim (em Moçambique, alacavuma)

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A página inicial do Google Brasil traz hoje um jogo com um casal de pangolins. O pangolim é o mamífero da foto acima, coberto de escamas e que se alimenta de formigas; pouco conhecido no Brasil, seu nome vem do malaio.

Em inglês, francês e em muitas outras línguas, escreve-se pangolin, com ene (para variar, está errado no dicionário Priberam), mas, em português, pangolim termina com -m. Isso porque é uma regra da língua portuguesa que palavras portuguesas ou aportuguesadas que terminam com som nasal (em geral escrito -n em outras línguas) são escritas, em português, com -m. É por isso que a capital da Alemanha, escrita Berlin em alemão (e em inglês, francês, etc.) escreve-se Berlim em português – o mesmo valendo para o país africano – Benim, não Benin.

Mia Couto, o mais conhecido escritor moçambicano, faz diversas menções ao pangolim em seus livros – segundo conta Mia Couto, “em muitas regiões da África se acredita que o pangolim habita os céus, descendo à terra para transmitir aos chefes tradicionais as novidades sobre o futuro“. Em suas obras, chama o pangolim por um sinônimo moçambicano: alacavuma, que vem de halakavuma, palavra bantu – na etimologia do dicionário da Porto Editora, sobra uma letra, e não faz sentido a separação em duas acepções – ambas tratam, afinal, do mesmo animal. Mas é, pelo menos, o único de nossos dicionários que traz esse sinônimo, próprio de um país que fala português.

A origem da palavra “bambolê”

O português é uma das únicas línguas no mundo que criou um nome próprio para o bambolê,  o “aro geralmente de plástico, com aproximadamente 1 m de diâmetro, usado como brinquedo, que, com um impulso, gira em torno do corpo, da perna ou do braço“.

No resto do mundo, usa-se o nome inglês, hula hoop – por exemplo em francês, em italiano, em espanhol, em polonês, etc.

O nome inglês vem da junção de hoop, aro em inglês, a hula (ou hula-hula), nome de “dança típica do Havaí, que apresenta seis passos básicos seguidos por movimentos ritmados dos quadris e dos braços” (nomes que o Priberam desconhece e que a Porto Editora só acolhe no dicionário de inglês-português, mas com definição errada – não é uma dança só feminina).

Já bambolê é um muito bem-sucedido invento brasileiro, criado no séc. XX a partir do verbo “bambolear”, balançar-se, mover-se mexendo os quadris, que tem registro em português desde pelo menos 1649.