Colocação pronominal com palavras proparoxítonas – proibida a ênclise?

“Tomei conhecimento de uma norma da língua culta, que desconhecia, que proibiria o uso da ênclise com verbos proparoxítonos. É isso mesmo? Fiz uma busca rápida, mas não consegui encontrá-la nos materiais que consultei.”

mito

Há, efetivamente, numerosas páginas na Internet que, em resumos sobre colocação pronominal, em meio a regras sobre o uso da próclise e da ênclise, trazem a suposta “regra” de que, com formas verbais proparoxítonas, a norma seria a próclise (ver aqui, aqui, aqui, etc.). Assim, segundo essa “regra”, seria incorreto dizer púnhamo-lo, fizéssemo-lo.

Mas, como tantas vezes ocorre, a verdade é que se trata de mais uma mentira da Internet, mais um dos muitos falsos erros de português, os erros “inventados”. Não existe absolutamente nenhuma regra da gramática que proíba ênclise ou próclise com palavras proparoxítonas – aliás, inexiste qualquer regra de colocação pronominal que leve em conta quantas sílabas a palavra em análise tem.

Como tantas vezes se vê por aqui, são inúmeras as mentiras que circulam pela Internet a respeito (não apenas) da gramática da língua portuguesa. São várias falsas regras, disseminadas irresponsavelmente em blogues e páginas até supostamente sérias – mas que não têm absolutamente nenhum respaldo em gramáticas de verdade.

É o caso da falsa regra das proparoxítonas – que aparece até em coluna do consultor de português do grupo Globo, aqui – mas que está absolutamente errada. Segundo qualquer gramática de verdade, portuguesa ou brasileira, é completamente possível a ênclise com formas proparoxítonas – como se vê na conjugação do verbo “pôr” na Gramática de Evanildo Bechara, da Academia Brasileira de Letras:

Sans titre

Ou, na mesma Gramática, na conjugação do verbo “apiedar”, que traz “apiedáramo-nos”, “apiedássemo-nos”, etc.:

Sans titre

A verdade é que formas assim são muito mais comuns em Portugal do que no Brasil, simplesmente porque as ênclises são muito mais comuns em Portugal, enquanto no Brasil a colocação pronominal padrão é a próclise. Mas dizer que palavras proparíxonas obrigam a próclise, ou que existe qualquer regra gramatical que trate disso, é simplesmente mentira.

12 comentários sobre “Colocação pronominal com palavras proparoxítonas – proibida a ênclise?

    • Sim, admito que comentei por desconhecimento. São questões que me passam ao lado. Já agora eu diria uma frase do género: “Apiedássemo-nos nós dos pobres, e o seu sofrimento seria abrandado”. O exemplo é fraco, mas a ideia é esta.

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      • É verdade, Mário, não me lembrei dessa possibilidade, talvez porque não se ouça comumente dos meus compatriotas, que talvez a escrevessem, não em registro formal ordinário, mas em registro religioso ou literário. Diríamos “Se a gente se apiedasse/(nós) nos apiedássemos dos pobres”, e escreveríamos, formalmente, “Se nos apiedássemos”.

        Mas imagino que, exceto talvez por “a gente”, que aí não se usa tanto quanto aqui, vocês diriam e escreveriam algo parecido com o que nós, em registro formal, escreveríamos, não? Ou é comum que se diga e se escreva assim: Fizéssemos-nos bem um ao outro, e Amália e eu ainda estaríamos juntos”?

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      • “Fizéssemos-nos bem um ao outro, e Amália e eu ainda estaríamos juntos” é uma frase perfeitamente possível no português de Portugal. Mas poderíamos, obviamente, dizer, em vez disso: “Se tivéssemos feito/fizéssemos bem um ao outro, Amália e eu ainda estaríamos juntos”. As construções “Se a gente se apiedasse/(nós) nos apiedássemos dos pobres” são também comuns em Portugal.

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    • Pois os galegos nom temos nengum probrema n´usalas esdrúxulas e, nisses casos, usámola ênclise. Inda que a Galiza é ũa comunidade bilingue. Todos dominámolo castelão, coma calquer outro castelão-falante nativo. De feito, na Galiza á bastantes pessoas que falam castelão; sobretudo canto menor é a idade. Talvez isso ajude coas pronúncias das proparoxítonas.
      Eu nom sei cal é a pronúncia “real” num galego livre da influência do castelão (ista só se conserva bem nalgũus velhos); peró, atualmente, os galegos pronunciamos tôdalas vogais e nom temos nengum probrema coas esdrúxulas “comuns”. É dizer, se topares-te cũa palavra que nom viche na tua vida ou que nom tés incorparada ò teu vocabulário (ou que case nunca a usas), pode aver algum probrema. Mais isso é normal e a sílaba tônica pouco influi.

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      • Caros Mário e Anónimo Galego,

        Perdoe-me tê-los induzido em erro: nenhum brasileiro tem dificuldade em pronunciar as esdrúxulas, isto é, as proparoxítonas. São as sobresdrúxulas que nos causam, ou ao menos me causam, alguma dificuldade, tanto por serem inexistentes na fala e raras na escrita quanto por serem pronunciadas sem supressão de nenhuma vogal.

        Eu sinto como que se tivesse de falar mais depressa para pronunciar “apiedássemo-nos” como sobresdrúxula, porque, se a digo devagar, sinto que ponho a tônica uma vez em na sílaba acentuada, e outra, em “mo”.

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  1. Por que os brasileiros andades inventando regras até o ponto de nom saberdes o que é verdade ou o que é mito? Nom vos era melhor colocalos pronomes como fazedes na fala? Aforraríades ũus cantos probremas e isse método é 100% seguro.

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    • Todos os povos inventam regras sobre as línguas que falam.

      O caso no Brasil é que a norma tradicional ainda é muito calcada na norma europeia do século XIX, de que a norma brasileira da mesma época não se afastava tanto quanto hoje. Mas como ninguém fala nem escreve conforme essa norma (nem mesmo os portugueses do século XXI a seguem), os que dizem defendê-la resvalam, frequentemente, em hipercorreções, das quais algumas se tornam “regras”.

      Já é tempo mesmo de adequar as gramáticas brasileiras à norma culta brasileira do português, mas nem mesmo esta adequação porá fim aos mitos que, como disse, são inventados pelos falantes de todas as línguas ou de todas as variantes da mesma língua.

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      • Quer um exemplo de mito em que muitos brasileiros e portugueses acreditam e que faz, à primeira vista, todo o sentido, razão por que ainda hoje não poucos acadêmicos, brasileiros e portugueses, o defendem como se verdadeiro fosse?

        É o mito das raízes africanas e indígenas do português brasileiro, baseado nas condições sociodemográficas do Brasil colonial. Segundo esse mito, como os brancos falantes nativos do português eram minoria relativamente aos negros, índios e mestiços, estes teriam aprendido daqueles um português simplificado, um pidgin, que mais tarde daria origem a um crioulo ou semi-crioulo, o qual, com a maior exposição à norma europeia, após a proibição de Pombal às línguas gerais e à intensificação da migração de portugueses, caminharia em direção a essa norma, mantendo, todavia, reestruturações reveladoras das influências indígenas e africanas. Esse mito é ainda hoje muito forte, porque havia mesmo, no Brasil colonial, condições favoráveis a que se desenvolvesse tal processo.

        Mas já há algumas décadas, pesquisadores brasileiros e estrangeiros têm argumentado que as reestruturações simplificadoras por que passou o português brasileiro são comparáveis, em quantidade e qualidade, às que passaram línguas que nunca estiveram em situação de contato prolongado com outras, de modo que não podem ser atribuídas a reestruturações reminiscentes de processos de crioulização. É o argumento, por exemplo, do linguista sueco Mark Parkvall, que afirma que as mudanças por que passou o sueco não são menos radicais que aquelas por que passou o português brasileiro: a redução dos paradigmas verbais e de concordância nominal, característica geralmente relacionadas com processos de crioulização, foi muito mais marcante no sueco que no português brasileiro.

        O Mark Parkvall, que é estudioso dos crioulos, diz que nem sequer em Helvécia, cujos habitantes descendem de escravos dos suíços e alemães que fundaram esse povoamento no sul da Bahia no início do século XIX, se fala algo que poderia ser considerado crioulo ou mesmo semi-crioulo, apesar de a história do lugar ter sido altamente propícia a que isso ocorresse. Mesmo em Helvécia, cujo dialeto é usado como indício por quem defende a hipótese de que as diferenças do português brasileiro relativamente ao europeu se devam a um processo prévio de crioulização ou semi-crioulização que não chegou a completar-se, mesmo lá o que houve foi um processo leve de reestruturação.

        O linguista americano John McWorther, que também é especialista em crioulos, diz a mesma coisa, e afirma que o português brasileiro está muito mais próximo do europeu que o africânder está do holandês, e que mesmo o português brasileiro popular, muito afastado da norma padrão europeia, sofreu um processo de reestruturação leve, de modo que nem mesmo as variantes mais estigmatizadas do português brasileiro poderiam ser consideradas crioulos ou semi-crioulos.

        O linguista alemão Volker Noll escreveu importante obra sobre o assunto, em que sustenta a mesma tese: as diferenças entre o português brasileiro e o europeu se devem a fatores de mudança internos à própria língua portuguesa, desde as suas origens mais remotas, no galego medieval.

        E por que resolvi falar deste mito em particular? Porque, nos estudos sobre variação, é muito comum que se comparem registros diferentes do português brasileiro e do europeu. Eu mesmo já li em obras do linguista brasileiro Marcos Bagno comparações entre a norma urbana culta brasileira (que é o modo como os brasileiros cultos realmente falam) e a norma padrão europeia (que é como as gramáticas do português europeu prescrevem que se escreva, e não como os portugueses cultos realmente falam).

        Eu tenho para mim que, à medida que se façam mais e melhores estudos dos diferentes registros regionais, rurais e urbanos, do português europeu popular, se vai reforçar essa tese de que muitos dos traços supostamente específicos ao português brasileiro são partilhados com mais de um dialeto do português europeu e também com o galego.

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