A bacharel ou a bacharela? O feminino de bacharel é…

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Fulana é bacharel ou bacharela? Há quem ache que o certo é sempre “bacharel”, para homens e mulheres, e que “bacharela” é um neologismo, ou “coisa de feminista”, ou simplesmente “erro de português”. Estão completamente errados: de acordo com o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) da Academia Brasileira de Letras, com o Dicionário Aurélio, com o Dicionário Houaiss e com os demais dicionários brasileiros e portugueses, o único feminino correto de bacharel é bacharela, enquanto a palavra “bacharel” só pode ser usada no masculino (“um bacharel”, e não “uma bacharel”).

Todas essas obras listam “bacharel” como substantivo masculino (e não comum de dois gêneros, como “estudante”, “gerente” – o que quer dizer que não aceitam a forma “a bacharel“) e indicam como único feminino correspondente a forma “bacharela”:

Houaiss

Apesar disso, é um fato que hoje a maioria das mulheres prefere dizer-se “bacharel”, e não “bacharela”, e que a forma invariável é a mais usada na imprensa e na sociedade em geral, mesmo em meios acadêmicos – o que indica que a língua está em processo de mudança.

Essa mudança é um processo comum a vários substantivos da língua portuguesa, que tradicionalmente tinham formas próprias para o feminino (“a oficiala”, “a parenta”, “a poetisa”), mas que, de tanto as pessoas “incorretamente” os usarem invariáveis (“a oficial”, “a parente”, “a poeta”), tiveram essas formas invariáveis aceitas pelos dicionários.

Do mesmo modo que hoje dicionários e vocabulários já aceitam “a oficial” e “a poeta“, é certo que em algum momento próximo passarão a aceitar oficialmente “a bacharel”. A ironia apenas é que há gente dita conservadora que repudia a forma “bacharela” por achá-la uma invencionice ou um modismo, sendo que na verdade “a bacharela” é que é a forma tradicional da língua, mais antiga e conservadora do que “a bacharel”.

(Exatamente como no caso de “presidenta”, que a despeito da ignorância de muitos, é forma mais antiga e tradicional na língua do que “a presidente”.)

23 comentários sobre “A bacharel ou a bacharela? O feminino de bacharel é…

  1. Caro Dicionário,

    Não seria o caso, e não é retórica a minha pergunta, porque eu realmente desconheço a resposta, de substantivos que eram, há muito, invariáveis, passaram a ser variáveis e voltaram a ser invariáveis?

    Explico-me. É forte em português a tendência para fazer variarem conforme o gênero as palavras em geral, donde supus que algumas, invariáveis em fases iniciais da formação da língua ou no latim medieval ou mesmo no latim clássico, tivessem passado a variar com o tempo e, recentemente, de meados do século XX para cá, ou mesmo mais recentemente, voltado a ser invariáveis. É ou era o caso de presidente, por exemplo, que passou de particípio presente e, portanto, invariável no latim para substantivo, também inicialmente invariável (suponho que o fosse, não sei se o era), numa fase mais antiga do português, para substantivo variável desde, pelo menos, o século XIX, para substantivo invariável em alguma altura do século XX, voltando, finalmente, a ser substantivo controversamente variável no século XXI, e digo controversamente porque há mesmo controvérsia, independentemente da posição que se assuma.

    Eu não sou caga-regras. Para mim, basta que a palavra se forme de acordo com os processos tradicionais de formação das palavras em português para que eu a considere aceitável, mas até esse critério eu dispenso se a força do uso me obriga a fazê-lo, como no plural de gol, que não é goles nem góis, ou no plural de hífen (embora eu escreva hífenes, como os portugueses, por escolha pessoal).

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        • Exato: não no Brasil, porque o uso não é esse – e nem poderia ser, porque aqui já existe a palavra “goles” (é o plural de gole), que se pronuncia “góles”, com ó aberto, enquanto gol e gols se pronunciam com ô fechado.

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        • Nom conhecia que avia um “gole”. Polo que pesquisei nos dicionários, acho que é sinônimo de “grolo”. Na Galiza usamos ista verba, polo que acô nom temos nengum “gole” co que confundi-lo.
          Recapitulando:
          Galiza: gol – goles
          Portugal: golo – golos
          Brasil: gol – gols

          Acô cada ũu fai o que lhe peta. Parece que nom sabemos ponher-nos d´acordo.

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        • Aparentemente isso não lhe incomoda muito (cada um escrever como lhe apraz, sem concordância ou coordenação com os demais), já que criou sua própria ortografia individual, com “istas”, “ũus” e “avias”, que não segue mais ninguém no mundo.

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        • Cada ũu é livre de fazê-lo que lhe pete. Isso nom me incomoda. O que me incomoda é a falta de “acordo”, tanto na Galiza como nos demais países da CPLP. O Acordo Ortográfico do 1990 nom serviu pra rem (em que se unificou a língua?) e a ortografia oficial da Galiza segue a receber críticas, mesmo antre os seus utentes (Por que “esprinte” e nom “blogue”?).
          Eu poderia usar a grafia do “Acordo”, a isolacionista ou a da AEG. Mais, de que me serviria? Se a língua estivesse efetivamente unida, entom seguiria o modelo de todo o mundo; mais isso nom parece que aconteça. Simplesmente, nom existe um “todo o mundo”. Diria que isse “mundo” está bastante dividido, pode que até dividido demais.
          Que eu estou a escrever cũa ortografia individual e criando um debate desnecessário? Talvez, peró vendo a cantidade de debates e propostas ortográficas que á (a da RAG, AEG, AGPL, Portugal sem Acordo, Portugal com Acordo, Brasil…); nom vejo tam desnecessário introduzir um novo debate nem que vaia causar algum mal. Tenho as minhas razões prás minhas escolhas e irei defender os meus argumentos, polo menos enquanto nom aver ũa situaçom de “estabilidade”. Ou até que alguém me faça ver que estou errado. Mais ninguém me dixe porque nom deveria usar “averia”, “iste” ou “ũa”; além do clássico “ninguém os usa”. Isso a mim é-me igual. Ademais de que, nom se usa na escrita, pois na fala o conto é bem diferente. O que quero som “razões linguísticas”; com base na etimologia, na istória do nosso idioma (dende os primeiros registos escritos, na Idade Média) e com base na fala. E, como mencionei, inda nom atopei nengum argumento que demostre que estou tam errado.
          Seja como for, posso bradar todo o tempo; peró, ò final, o poder está nas mãos dos de sempre (os políticos). Fôrom os políticos os que oficializárom a proposta ortográfica da Real Academia Galega e os que tamém introduzírom o Acordo do 1990 em Portugal, tam questionado por lá. Iles seguirám a fazê-lo que lhes peta. E isso é que me incomoda. Que o povo fai o que lhe peta? Está no seu direito, se achar que leva razom. Mais os políticos teriam de saber escoitar a opiniom do povo e dos expertos. Algo que tenho as minhas dúvidas de que estejam fazendo.

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        • Caro anónimo galego,

          Eu era dos mais conservadores em questões linguísticas, até que comecei a ler sobre Linguística e deixar de ter uma visão essencialista da língua, que nunca foi, não é nem será uma só: mesmo ao tempo dos cânones, falavam-se muitos galegos, muitos portugueses, da arraia-miúda à corte, da Corunha ao Faro. E é preciso lembrar sempre isto: nunca nenhuma língua foi um monólito, em tempo algum, em nenhum lugar, de modo que não vejo mal algum em que escreva como lhe apetece, desde que se faça entender, porque, obviamente, a sua intenção, como a de qualquer um que escreva a outrem, é fazer-se entender.

          E isso não é muito diferente do que se passava no português até 1911, quando surgiu a primeira ortografia oficial. Até então, seguiam-se ortografias tradicionais, no plural mesmo, que variavam ao longo do tempo, de uma região para outra, de uma classe social para outra, excluída a maioria dos falantes, que até muito recentemente, do ponto de vista histórico, era analfabeta.

          Grandes escritores dão-se a liberdade de escrever algumas coisas com lhes dá mais jeito, como lhes apetece, e se chama à sua liberdade “licença poética”, mas ao comum dos mortais, ao amigo e a mim, a poesia não nos dá licença. Não aceito isto: sem escrever de qualquer jeito, respeitando, em geral, a evolução histórica da ortografia da minha língua, dou-me a liberdade de escrever como quero, como me apraz. E ainda que não o fizesse, a língua se transformaria de qualquer maneira, por muito que se tentasse congelá-la na forma que tinha ao tempo de Camões.

          Enfim, o que se tem de fazer é evitar cunhar palavras esdrúxulas, que não respeitam nem a ortografia etimológica nem a pronúncia, mas se se tem ambos os critérios ou pelo menos um deles em vista, se se é capaz de se fazer entender, então, não vem mal algum ao mundo que sejamos idiossincráticos, desde que tomemos alguns cuidados, para evitar chamar idiossincráticos ao que são, simplesmente, erros nossos, como o meu de pensar que hífenes era preferível a hifens (e de grafar hífens com acento, esquecendo-me de uma regra básica de acentuação).

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    • Caro Anônimo brasileiro,

      Sim, a maioria desses substantivos/adjetivos com terminações diferentes de “o” ou “a” eram invariáveis na transição do latim popular para o galego-português primitivo; vemos que já após a separação do galego e do português ainda dizíamos “mulher espanhol”, e não “espanhola”, por exemplo. Mas, conforme a língua se formou e adquiriu gramática própria, as flexões masculino/feminino se tornaram regra: espanhol/espanhola, camponês/camponesa; como já vimos, as primeiras gramáticas mandavam mesmo flexionar ídolo em ídola. Em textos bastante antigos encontramos, também, comedianta.

      Foi ao longo do século passado que a situação parece ter se invertido: parece que, pelo caráter patriarcal da sociedade, várias dessas palavras quase só se usavam em relação a homens (bacharel, oficial, general, marechal, presidente, ídolo), de modo que as palavras femininas eram desconhecidas do grande público (embora constantes dos dicionários, gramáticas e obras de bons escritores). Quando mulheres finalmente começaram a chegar a vários desses postos, causava tanta estranheza o feminino (simplesmente por não ser frequentemente ouvido até então) que essas mulheres passaram a ser chamadas pelas formas masculinas (bacharel, oficial, etc.), mesmo contrariando as gramáticas. Como já vimos aqui, grande parte da imprensa brasileira e portuguesa chegou mesmo a chamar Margareth Thatcher de “a primeiro-ministro”, simplesmente porque nunca antes tinham ouvido “primeira-ministra”.

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      • Eu, pessoalmente, prefiro fazer o feminino de palavras rematadas em -o trocando isse -o por
        -a: ministra, presidenta, mecânica, música, ídola, médica, comedianta, pilota, soldada, sargenta…
        E máis: sempre que se possa formar um feminino, prefiro usá-lo: bacharela, generala, marechala, parenta…
        Se a palavra remata em -a no masculino, pois entom deixo-a invariável; coma poeta (o/a poeta) ou meganha (o/a meganha). O -isa parece-me d´anciãs (opiniom pessoal).

        O do uso é importante, mais os usos podem-se. Se os meios usam as formas femininos (como tem de ser), deixarám de ser desconhecidas e, em pouco tempo, o que vai causar estranheza é nom usar o feminino. Por exemplo, na Espanha, antes nom existiam nem enfermeiros nem médicas. Cando a situaçom começou a mudar, pro primeiro criárom ũa nova denominaçom (auxiliar técnico sanitário, ATS) e pro segundo usárom “a médico” (como se pode ver em dobragens d´á ũus anos). No entanto, co tempo a situaçom se normalizou e passárom as regras de calquer outro ofício. Oje, ATS está completamente extinto e “a médico” causaria estranheza. Agora usa-se o enfermeiro e a médica com total normalidade.
        Isto que acabo de comentar tamém aconteceu, nos primeiros momentos; com presidente, ministro… Mais, co tempo, o novo esceário acabou por assumir-se e fez que oje usemos presidenta ou ministra como se fossem femininos de calquer outra palavra.
        Assim é como funciona. No ano 2017, dizemos a piloto, a soldado, a general… pola simples razom de que á poucas pilotas e militares de gênero feminino. Mesmo assim, a pilota cada vez é máis usado (talvez o fato de que cada aja máis mulheres tenha a sua importância. É máis se som competitivas e estám nas posições de cabeça. Elena Rosell, María Herrera, María de Villota, Carmen Jordá, Susie Wolff, Simona de Silvestro, Marta García…). No campo militar… com efeito, nom se usa a soldada. Peró eu que diria que tampouco se usa “a soldado”. Á pouquíssimas mulheres militares. Se issa situaçom mudar nos próximos anos, quiçais tamém mudem os usos. Mais nom é doado, já que é ũa das profissões nas que é melhor á que estar fisicamente. Ademais de que nom vejo que aja moito interesse por parte das mulheres. Já nom vejo que os omens tenham interesse… (bom, é que termos um exército é um completo atraso prá construçom dum mundo pacífico. Além de ser perigoso e d´arriscar a tua vida em guerras inúteis, com mortes sem nengum sentido)

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      • Caro Dicionário,

        Acho que você queria remeter-me para outra página do Ciberdúvidas, pois essa trata de outro assunto. Não pude ler, portanto, as vozes sensatas que advogam a adoção do plural brasileiro, mas lhe explico a minha preferência pelo plural português: não gosto de encontros consonantais, de modo que, se os puder evitar, os evito.

        Ainda que tenha de buscar na variante europeia uma alternativa? Sim, que não tenho com isto nenhum problema. Ainda que não me entendam? Não, porque seria ridículo, mas convenhamos que não é este o caso. Ainda que cause algum estranhamento? Sim, porque, ainda que eu não seja escritor nem seja renomado em nada, tenho uma relação afetuosa e pessoal com a minha língua e me permito escrever nela com liberdade, desde que me faça entender, que é o propósito de quem quer que escreva a outrem, e desde que não cunhe palavras esdrúxulas, desrespeitosas da índole da língua.

        Hífenes desrespeita a índole da língua? Ignoro-o, e posso muito bem passar a escrever hífens novamente, se as razões me convencerem, porque ainda subordino o meu ouvido, que prefere hífenes a hífens, a outros motivos que me são mais caros ao coração: eu conheço pouco ou mesmo nada de etimologia, mas razões etimológicas (mas não pseudo-etimológicas) costumam convencer-me, porque gosto de ouvir os ecos da Grécia e de Roma na minha língua. É idiossincrático, mas não há autoria sem alguma idiossincrasia, não concorda?

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        • Queria remeter-lhe exatamente para essa página – é uma das muitas em que o mesmo consultor, Silvas Filho, repete que, com a língua “unificada”, ele, como português, poderá “usar algumas das soluções brasileiras, que considero preferíveis [às que vinham, por exemplo, no Dicionário de 2001 da Academia das Ciências de Lisboa) (exemplos: toalete [em vez de toilete], hifens [em vez de hífenes], estresse [em vez de stresse], Iugoslávia [em vez de Jugoslávia], etc.).”

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        • Quanto a dizer que prefere hífenes a hifens para evitar o encontro “ns” – sim sabe que é com “ns” que você – e eu, e todos os portugueses – fazemos o plural de todas as dezenas de milhares de palavras portuguesas terminadas em “m”, não? Nuvens, viagens, homens, afins, boletins, bombons, sons.

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        • Esse meu erro, e era mesmo erro, a que chamava idiossincrático, me levou a lembrar-me de uma reflexão, que não é minha, mas com a qual concordo, sobre algumas consequências deletérias do discurso pedagógico modernista relativista.

          Que não se imagine que se vai defender aqui a pedagogia de antanho, que infundia terror, sem inspirar respeito algum, nos alunos. Não, o autoritarismo pedagógico foi-se, e muito tarde, sem deixar saudades. Mas às vezes me parece que se jogou fora o bebê junto com a água da bacia, que é o respeito pelo mestre por ser alguém que sabe mais, o que é a condição primeira do aprendizado: admitir, humildemente, que se sabe menos e ter disposição de aprender. Hoje, é comum que ignorantes corrijam quem sabe mais com a arrogância que só mesmo a ignorância lhes permite. Aqui mesmo, não poucos leitores já o corrigiram incorretamente, eu entre eles. Mas eu reflito depois, dou o braço a torcer, porque, na verdade, nem é mesmo o caso de dar o braço a torcer, porque não se trata de disputa, e aprendo. E por isso, sou-lhe muito grato, professor. Eu sei que, em tempos de cinismo, essas palavras soam a pieguice e quiçá até a sabujice, mas são, pura e simplesmente, e o pura e simplesmente não são aqui gratuitos, a velha e boa virtude da gratidão.

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        • Gratidão, se me permite acrescentar, não só pelo conhecimento que partilha conosco, mas também e principalmente pelo tempo de que dispõe para isso, que é o que de mais valioso alguém pode oferecer a outrem, tanto ou mais que o conhecimento.

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