A bacharel ou a bacharela? O feminino de bacharel é…

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Fulana é bacharel ou bacharela? Há quem ache que o certo é sempre “bacharel”, para homens e mulheres, e que “bacharela” é um neologismo, ou “coisa de feminista”, ou simplesmente “erro de português”. Estão completamente errados: de acordo com o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) da Academia Brasileira de Letras, com o Dicionário Aurélio, com o Dicionário Houaiss e com os demais dicionários brasileiros e portugueses, o único feminino correto de bacharel é bacharela, enquanto a palavra “bacharel” só pode ser usada no masculino (“um bacharel”, e não “uma bacharel”).

Todas essas obras listam “bacharel” como substantivo masculino (e não comum de dois gêneros, como “estudante”, “gerente” – o que quer dizer que não aceitam a forma “a bacharel“) e indicam como único feminino correspondente a forma “bacharela”:

Houaiss

Apesar disso, é um fato que hoje a maioria das mulheres prefere dizer-se “bacharel”, e não “bacharela”, e que a forma invariável é a mais usada na imprensa e na sociedade em geral, mesmo em meios acadêmicos – o que indica que a língua está em processo de mudança.

Essa mudança é um processo comum a vários substantivos da língua portuguesa, que tradicionalmente tinham formas próprias para o feminino (“a oficiala”, “a parenta”, “a poetisa”), mas que, de tanto as pessoas “incorretamente” os usarem invariáveis (“a oficial”, “a parente”, “a poeta”), tiveram essas formas invariáveis aceitas pelos dicionários.

Do mesmo modo que hoje dicionários e vocabulários já aceitam “a oficial” e “a poeta“, é certo que em algum momento próximo passarão a aceitar oficialmente “a bacharel”. A ironia apenas é que há gente dita conservadora que repudia a forma “bacharela” por achá-la uma invencionice ou um modismo, sendo que na verdade “a bacharela” é que é a forma tradicional da língua, mais antiga e conservadora do que “a bacharel”.

(Exatamente como no caso de “presidenta”, que a despeito da ignorância de muitos, é forma mais antiga e tradicional na língua do que “a presidente”.)

8 comentários sobre “A bacharel ou a bacharela? O feminino de bacharel é…

  1. Caro Dicionário,

    Não seria o caso, e não é retórica a minha pergunta, porque eu realmente desconheço a resposta, de substantivos que eram, há muito, invariáveis, passaram a ser variáveis e voltaram a ser invariáveis?

    Explico-me. É forte em português a tendência para fazer variarem conforme o gênero as palavras em geral, donde supus que algumas, invariáveis em fases iniciais da formação da língua ou no latim medieval ou mesmo no latim clássico, tivessem passado a variar com o tempo e, recentemente, de meados do século XX para cá, ou mesmo mais recentemente, voltado a ser invariáveis. É ou era o caso de presidente, por exemplo, que passou de particípio presente e, portanto, invariável no latim para substantivo, também inicialmente invariável (suponho que o fosse, não sei se o era), numa fase mais antiga do português, para substantivo variável desde, pelo menos, o século XIX, para substantivo invariável em alguma altura do século XX, voltando, finalmente, a ser substantivo controversamente variável no século XXI, e digo controversamente porque há mesmo controvérsia, independentemente da posição que se assuma.

    Eu não sou caga-regras. Para mim, basta que a palavra se forme de acordo com os processos tradicionais de formação das palavras em português para que eu a considere aceitável, mas até esse critério eu dispenso se a força do uso me obriga a fazê-lo, como no plural de gol, que não é goles nem góis, ou no plural de hífen (embora eu escreva hífenes, como os portugueses, por escolha pessoal).

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        • Exato: não no Brasil, porque o uso não é esse – e nem poderia ser, porque aqui já existe a palavra “goles” (é o plural de gole), que se pronuncia “góles”, com ó aberto, enquanto gol e gols se pronunciam com ô fechado.

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        • Nom conhecia que avia um “gole”. Polo que pesquisei nos dicionários, acho que é sinônimo de “grolo”. Na Galiza usamos ista verba, polo que acô nom temos nengum “gole” co que confundi-lo.
          Recapitulando:
          Galiza: gol – goles
          Portugal: golo – golos
          Brasil: gol – gols

          Acô cada ũu fai o que lhe peta. Parece que nom sabemos ponher-nos d´acordo.

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    • Caro Anônimo brasileiro,

      Sim, a maioria desses substantivos/adjetivos com terminações diferentes de “o” ou “a” eram invariáveis na transição do latim popular para o galego-português primitivo; vemos que já após a separação do galego e do português ainda dizíamos “mulher espanhol”, e não “espanhola”, por exemplo. Mas, conforme a língua se formou e adquiriu gramática própria, as flexões masculino/feminino se tornaram regra: espanhol/espanhola, camponês/camponesa; como já vimos, as primeiras gramáticas mandavam mesmo flexionar ídolo em ídola. Em textos bastante antigos encontramos, também, comedianta.

      Foi ao longo do século passado que a situação parece ter se invertido: parece que, pelo caráter patriarcal da sociedade, várias dessas palavras quase só se usavam em relação a homens (bacharel, oficial, general, marechal, presidente, ídolo), de modo que as palavras femininas eram desconhecidas do grande público (embora constantes dos dicionários, gramáticas e obras de bons escritores). Quando mulheres finalmente começaram a chegar a vários desses postos, causava tanta estranheza o feminino (simplesmente por não ser frequentemente ouvido até então) que essas mulheres passaram a ser chamadas pelas formas masculinas (bacharel, oficial, etc.), mesmo contrariando as gramáticas. Como já vimos aqui, grande parte da imprensa brasileira e portuguesa chegou mesmo a chamar Margareth Thatcher de “a primeiro-ministro”, simplesmente porque nunca antes tinham ouvido “primeira-ministra”.

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