Motosserra ou serra elétrica? O massacre da serra elétrica deveria ter outro nome

Eis uma postagem numa página de humor no Facebook:

Sans titre.png

A ótima piada acaba por levantar uma interessante questão linguística: de fato, por que chamamos, em português, de serra elétrica o objeto que não é movido a eletricidade, mas a gasolina?

Com efeito, segundo a Internet (por exemplo a Wikipédia e a Magazine Luiza), serra elétrica não é o mesmo que motossera; a motosserra é a movida a gasolina, em geral maior que a elétrica.

Desse modo, a suposta piada de Facebook acaba sendo uma ressalva de fato pertinente: a franquia de filmes The Chainsaw Massacre deveria mesmo, em português, ter sido chamada O Massacre da Motosserra, e não O Massacre da Serra Elétrica, como acabou sendo.

Possível culpa de alguns dicionários, como o Houaiss, que dizem que motosserraserra elétrica são sinônimos – não são, como, felizmente, se vê corretamente em outros dicionários, como o Aurélio e o Aulete.

O Houaiss erra, ainda, ao afirmar que a palavra surgiu em português “depois de 1975“; na verdade, surgiu bem antes disso, já que na edição de 05/08/1964 do jornal O Estado de S. Paulo encontro:

motosserra.png

A antiga “moto-serra”, atualmente, escreve-se motosserra – com dois ss, para manter o som inicial de “serra”.

Até antes disso, um termo que se chegou a usar no Brasil em lugar de motosserra (ou serra elétrica) foi “serra de corrente” – tradução literal (e pouco feliz) do inglês chainsaw.

Mas mesmo a motosserra não é uma invenção nossa – a pesquisa mostra que poucos anos antes da primeira aparição da nossa “motosserra”, começara também a aparecer nos países de língua espanhola a “motosierra“, a ponto de o boletim do departamento de Linguística e Filologia da Universidade do Chile ter publicado, sobre o prefixo “moto”, a observação de que este passava a usar-se para designar…

Sans titre

 

10 comentários sobre “Motosserra ou serra elétrica? O massacre da serra elétrica deveria ter outro nome

  1. No último parágrafo do texto, aparece a palavra “aparição”: “[…] poucos anos antes da primeira aparição da nossa “motosserra” […]”.
    Seriam “aparição” e “aparecimento” palavras de mesmo sentido, sinônimas perfeitas? Pergunto isso, porque já li algures que “aparição” teria seu uso para situações sobrenaturais e “aparecimento”, para situações reais.
    Caso assim seja, deveríamos ter lido acima “aparecimento” da motosserra, e não “aparição” da motosserra?
    Muito obrigado.

    Curtir

    • Certamente não. O sentido literal de aparição – o etimológico e o primeiro em todo dicionário sério – é “ato de aparecer”. Assim foi – e é – a palavra usada por nossos maiores escritores. Não consigo conceber que tipo de charlatão poderia querer “ensinar” (errado) que aparição só se refere a fantasmas… francamente, será ou ignorância ou má-fe. De todos modos, é um “ensinamento” tão indubitavelmente errado que eu tomaria com uma boa dose de desconfiança qualquer outra “lição” vinda da mesma fonte.

      Curtir

      • Eu gosto muito do seu blogue, que acompanho sempre, e acho que você está certo em desnudar os sábios caga-regras que há por aí, mas o acho severo demais às vezes.

        É muito comum, e é bem humano, que pessoas que julgam conhecer muito a língua, por lerem muito, por usarem bem a norma padrão (refiro-me à norma padrão idealizada mesmo, e não à norma culta real), creiam poder ensinar regras àqueles que, supostamente, sabem menos, porque não usam bem a norma padrão, embora usem bem a norma culta real.

        É relativamente (enfatizo o relativamente) recente a Linguística, e a diferença entre descritivismo e prescritivismo, entre norma padrão e norma culta real ainda é desconhecida de muitos dos que se dedicam ao estudo da língua apenas por meio da gramática tradicional e dos dicionários, que não poucos supõem ser os registros fotográficos da própria ideia, no sentido platônico, de língua portuguesa, da língua portuguesa pura, imaculada, sem erros, sem controvérsias, como deveria ser falada e escrita por todos, em todos os lugares e tempos.

        É claro que há charlatães, que sabem que estão defasados, mas que vivem há muito tempo de ensinar meias verdades a alunos incautos. Estes não estão dispostos a voltar aos bancos das universidades para refrescar a mente. Mas há muito mais pessoas que acreditam, honestamente, que o modo como falam, por muito cultas que sejam, é simplesmente errado quando contraria a regra que veem em alguma gramática tradicional. Essas pessoas lhe diriam que os erros não deixam de ser erros porque elas os cometem e que não os voltarão a repetir agora que sabem serem erros.

        Essas pessoas confundem descritivismo com facilitismo, com abonação ao erro, porque partem da premissa de que não só escrever, mas até falar, corretamente, a sua própria língua é mesmo difícil, algo que requer muito estudo. É uma premissa que parece ser confirmada pela diglossia: como até mesmo Fulano, estudado, tem certa dificuldade para falar conforme a norma, e soa mesmo artificial quando o faz, então, é claro que falar, corretamente, não pode ser algo natural, mas sim aprendido pelo estudo dedicado e contínuo da gramática.

        Ralhar com essas pessoas sem lhes falar sobre Linguística, sem lhes explicar que não existe A Língua Portuguesa Pura, que ela não repousa, imaculada, em lugar algum, nem em Fernão Lopes, nem nos Lusíadas, nem nos Maias, nem nas Memórias Póstumas de Brás Cubas, nem sequer no conjunto dessas obras todas, que a língua portuguesa é um contínuo que vai desde a fala dos falantes nativos de português com menor nível de escolaridade à fala e à escrita dos falantes nativos de português mais cultos, de todas as variantes nacionais dessa língua, e que não existe certo e errado absolutos, porque tanto é errado que um juiz fale, no tribunal, como falaria aos amigos, à beira da piscina, quanto que fale aos amigos, à beira da piscina, como falaria, no tribunal, enfim, ralhar com essas pessoas sem lhes deixar tudo isso claro é perda de tempo.

        Veja você que muitos dos que frequentam o seu site, e alguns o frequentam com assiduidade, há muito tempo, ainda dizem coisas como “o povo não sabe falar”, como se os brasileiros, por alguma tragédia de causas conhecidas, fosse o único povo constituído, exclusivamente, de mudos. É claro que querem dizer que “o povo não sabe falar corretamente”, o que não é menos equivocado, porque implica que os brasileiros são, por alguma limitação de que nenhum outro povo padece, os únicos incapazes de aprender, de ouvido, o jeito correto de expressar pensamentos congruentes, de modo que se façam entender pelos seus interlocutores.

        Chamar charlatães às (poucas) referências bibliográficas que essas pessoas costumam ter e em que se apoiam como se se tratasse de livros sagrados é, não raro, o jeito mais certo de as alienar, de perdê-las. E é mau que as percamos, porque continuarão presas a ideias equivocadas, cientificamente superadas. Melhor será explicar por que essas ideias são mesmo cientificamente superadas, porque talvez aí entendam que não se trata de apologia ao facilitismo nem de abonação ao erro nem de coisa de esquerdista.

        A propósito, é comum, nesses tempos bicudos de polarização ideológica, que muitos tomem gramáticas modernas, que já assimilaram os conceitos da Linguística, por obras de inclinação esquerdista, politicamente corretas, confusão que se deve, em parte, ao histrionismo do Marcos Bagno em certos trechos de algumas das suas obras, em que defende a ideia de que não existe neutralidade científica, donde mesmo as suas obras mais puramente acadêmicas não seriam neutras e refletiriam o seu posicionamento político.

        Não foi à toa que muitos criticaram mesmo as suas obras mais puramente acadêmicas por motivos políticos, ainda que, como linguista, e não há nessa observação nenhuma intenção de o diminuir, o Marcos Bagno não se afastasse, notavelmente, dos demais linguistas, brasileiros e estrangeiros, que estudam o português brasileiro. Diante disso, a ser verdade, sem ressalvas nem nuances, o que ele diz sobre a impossibilidade de neutralidade científica, devo concluir que todos os linguistas, brasileiros e estrangeiros, que estudam o português brasileiro, são esquerdistas como ele; se não o forem, só posso concluir que ele está errado quanto a isso e que é possível ser neutro o suficiente para chegar a conclusões que possam ser aceitas como cientificamente válidas mesmo por quem repudia as inclinações ideológicas dele. E não tenho dúvidas de que ele está errado quanto a isso, porque eu não ponho em causa quase nada do que ele escreveu como linguista, embora discorde dele ideologicamente com todas as forças com que sou capaz de discordar de alguém: eu tenho certeza de que ele me abominaria, como eu o abomino, politicamente, mas comprei a Gramática Pedagógica do Português Brasileiro, de que gostei muito, e que leio com prazer, exceto por poucos trechos em que, por razões ideológicas, ele perde as estribeiras e mete os pés pelas mãos.

        Eu já escrevi muito, mas é porque acho que aqui se resvala, de vez em quando, no mesmo erro do Bagno de alienar quem estaria pronto a aceitar o que é, do ponto de vista científico, consensual hoje em dia, se se lhe explicasse que, por muito bem intencionadas que fossem certos autores de antanho, e que talvez ainda sejam pelo menos alguns dos autores de hoje, as suas obras se assentam em visões cientificamente superadas da língua, até mesmo da norma culta, e que ninguém, nem mesmo os cultos dentre nós, escreve como prescrevem os gramáticos tradicionais, nem mesmo os gramáticos tradicionais ainda vivos!

        Curtido por 1 pessoa

        • Caro, obrigado e concordo com tudo – exceto com o ponto sobre esse eventual charlatão específico. Entendo perfeitamente quem defende uma regra artificial ou caduca porque assim aprendeu com um Rocha Lima, um Paschoal Cegalla, Celso Cunha, Bechara. Entendo quem se confunde ao ler o que defendia sobre a língua um Antenor Nascentes ou um Cândido de Figueiredo, sem recordar que ambos escreveram há quase um século, e para pensarmos o que um século representa em termos de língua, basta lembrar que há 5 séculos o português ainda era galego, e mais cinco antes ainda era latim. Mas não acho que mereçam condescendência eventuais autores vivos que inventam regras completamente sem sentido, e que não foram tiradas das obras de nenhum dos puristas anteriores, nem têm base nos clássicos, tendo saído pura e simplesmente de suas cabeças, mas que mesmo assim vendem como “regra de português” o que eles mesmos inventam. Esses não são outra coisa que charlatães.

          Curtir

        • De acordo, esses não são mesmo outra coisa que charlatães, mas as pessoas que os tomam por doutos na língua são suas vítimas, embora se deva reconhecer, a bem da verdade, que algumas dessas pessoas sejam vítimas de si mesmas, das suas próprias inclinações a valer-se da norma, padrão ou culta real, como símbolo de diferenciação social. É uma pena, porque nem sequer desconfiam de quão mais rica é a língua do que a sua norma, de quanta informação sobre o passado, o presente e até o futuro da língua há nos “erros” que se repetem, todos os dias, na boca de todos – até de quem pensa não os cometer.

          Um abraço, meu caro, e, se não passar por aqui até lá, desejo-lhe a si e à sua família Boas Festas!

          P.S.: Faltou hífen a Boas Festas? Bem, para o diabo com ele! (rs)

          Curtir

        • Caro, leio tanto alguns blogues portugueses, todos os dias, que soltei um “desejo-lhe a si e à sua família” em vez de “desejo-lhe a você e à sua família”! Parece que o uso de si e consigo para se referir ao interlocutor é um idiomatismo português de mais de cem anos: um leitor de um dos blogues que acompanho mencionou um texto de 1892 a respeito, intitulado “As frases do tipo ‘tenho dó de si’, ‘vou consigo’: sua origem e legitimidade”, de José Maria Rodrigues.

          Curtir

  2. A legitimidade de “Desejo-lhe a si e à sua família” é tanta quanto a de “Me chamo Jorge”, “Vou no banheiro” ou “Cheguei na praia” – a primeira frase (ainda que ache que sem o “lhe”, pois com “lhe” fica redundante), isto é, o uso de “si” em lugar de “você”, é completamente corriqueiro hoje no português lusitano, tanto quanto o são as outras três frases no português brasileiro, mas todas são consideradas igualmente erradas pela gramática normativa tradicional. Agora, quem sou eu para julgá-lo, mas acho que valeria a pena refletir sobre por que adota mais facilmente “erros” linguísticos portugueses do que os brasileiros…

    Curtir

    • A razão é simples: quando comecei a ler sobre Linguística, já escrevia como escrevo havia tempo demais para passar a fazê-lo de outra forma. Não é afetação nem nada, creia-me, até porque escrevo tudo quanto escrevo, do modo como escrevo, muito rapidamente, sem revisões posteriores. Introjetei a gramática tradicional.

      Depois de ler tudo o que li sobre Linguística, passei a respeitar tanto a fala brasileira, que é, em larga medida, também a minha, porque a minha fala foi muito menos afetada pela gramática tradicional, quanto a escrita culta brasileira, mas, e não sei se você há de convir comigo nisto, por que raios eu, agora, começaria a pensar para escrever de outra forma, se escrevo da forma como o faço sem esforço?

      Me expressar assim, iniciando frase com pronome oblíquo, da mesma forma que faço todos os dias quando falo, é que me obriga a parar um pouco para pensar, para decidir escrever assim.

      Sim, pode parecer-lhe estranho, mas é como se eu falasse, naturalmente, uma língua, e escrevesse, naturalmente, em outra; é como se fossem distintas as partes do cérebro responsáveis pela expressão oral e pela expressão escrita. E imagino que devam ser mesmo distintas, o que pode explicar alguma coisa.

      Curtido por 1 pessoa

      • Perfeita explicação; é o que ocorre também, creio, comigo e com quase todos os leitores daqui da página. Só não concordo que seja automático e que saia mais natural escrever “Expressar-me” do que “Me expressar”, de jeito nenhum. O que admito, sim, é que, depois de tantos anos de cabresto, chega a chocar a visão ver um pronome átono com inicial maiúscula – e a isso se soma, é claro, a vontade de que nossos pares, o que nos leem, não vão pensar que somos da maioria inculta da população que não foi à escola e não aprendeu a regrinha (sobre a qual ainda escreverei aqui um dia, é claro, já que mesmo entre os melhores autores portugueses de séculos atrás, como o padre António Vieira, encontramos frases que começam como “Me disseram que…”).
        Por outro lado, não encontro justificativa mesmo para um brasileiro que gosta de (e se diz habituado a) escrever na norma culta seguir os portugueses nos “erros” modernos deles, como “si” sem ser reflexivo, a não ser uma vontade inconsciente de “soar” como um português, de se sentir um igual entre eles.

        Curtir

        • Ora, você quer pegar no meu pé? 🙂
          Já lhe disse que me saiu, porque me exponho muito à variante portuguesa. E não faz muito que me correspondia, com alguma regularidade, com portugueses, sobre história medieval. Mas, assim que li o comentário, depois de publicado, dei pelo erro – porque, para nós, é mesmo erro -, tanto que me emendei.
          Me dê (ousemos, quase cem anos depois de “Pronominais”…) algum crédito: não estou entre os caga-regras, apesar de seguir as regras cagadas pela gramática tradicional, e, na verdade, invejo quem escreve com naturalidade conforme a norma culta real brasileira.
          Vou contar-lhe (diacho!, saiu assim, em vez de vou lhe contar, por muito que lhe custe acreditar, embora nunca me saia da boca senão vou lhe contar) um episódio pessoal ilustrativo do que escrevi. O meu irmão, que escreve muito bem, mas é publicitário e, até por isso, tem um estilo mais jovial, me mostrou uma carta que escreveu à então namorada, hoje mulher, e invejei mesmo a fluidez do texto, que eu chegava a escutar, com a voz dele. Reler algumas cartas que já escrevi, inclusive à minha mulher, chega a ser estranho, porque eu não ouço a minha própria voz.
          Caso de divã, não é mesmo? Mas eu era daqueles nerds que prestavam atenção à aula, que estudam gramática a sério, e, antes de ler sobre Linguística, já me tinha habituado havia muito a escrever assim.
          Não tenho vontade nem consciente nem inconsciente de soar como um português, embora não lhes tenha a mesma animosidade que muitos dos defensores da norma culta real brasileira lhes têm, o Bagno entre eles, para ficar com o mesmo exemplo. Na verdade, não lhes tenho animosidade alguma nem tampouco, à diferença dos brasileiros mais apegados às raízes portuguesas da nossa cultura ou mesmo de parte da nossa ascendência, nenhum sentimento de ligação especial: o que tive, e ainda tenho, que me fez ler muitos blogues portugueses e me corresponder com portugueses foi interesse em comum por alguns períodos da história medieval.
          Cuidado para não meter a todos que pensam assim ou escrevem assado em caricaturas que todos temos em mente quando generalizamos casos particulares que seriam mais corretamente tratados como tais.

          Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s