O champanhe ou a champanhe? Uma champanhe ou um champanhe? Masculino ou feminino?

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O certo é o champanhe ou a champanhe? Diz-se uma champanhe ou um champanhe? Resposta: de acordo com o Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras e com dicionários brasileiros (como o Houaiss) e portugueses (como o Priberam), tanto faz: é tão correto dizer e escrever “o champanhe” e “um champanhe” quanto “a champanhe” e “uma champanhe”.

A palavra vem do francês: champanhe de verdade é a bebida espumante produzida na região de Champagne, na França. É um tipo de vinho, e é por isso que, em francês, o substantivo é masculino: diz-se “um champanhe”, como redução de “um vinho champanhe”, isto é, “um vinho da região de Champagne” (em francês, “gn” tem a pronúncia do nosso “nh”).

Foi assim, no masculino, que o substantivo entrou em Portugal, e foi assim que chegou ao Brasil. Mas, sobretudo no Brasil, o que ocorreu foi que, entre todas as classes sociais e entre gente de todas as escolaridades, a palavra se tornou comum de dois gêneros: passou-se a ouvir tanto “uma champanhe” quanto “um champanhe”, tanto “a champanhe” quanto “o champanhe”.

Há explicações possíveis para essa alternância de gênero: houve, por exemplo, os puristas da língua, que, antes de se preocuparem com a influência do inglês, temiam horrorizados o francês, quando essa língua tinha uma influência que hoje não mais tem. E por isso esses puristas diziam que essa terminação em “e”, típica do francês, não era típica do português, e que portanto, palavras francesas como champanhe – assim como nuancemadamevitrine, avalanche – em português deveriam ser adaptadas com “a” final, terminação mais “portuguesa”: deveria dizer-se, portanto, “nuança”, “madama”, “vitrina”, “avalancha”… e “champanha”.

Os puristas de uma língua, aqueles que acreditam que a maioria dos falantes são uma ameaça para a própria língua que falam e que é sempre preciso guiá-los, sofrem de um mal – quase sempre o tempo, o passar dos anos, os ridiculariza e mostra que estavam errados; a língua e o mundo avançam mostrando que seus medos, e eles próprios, eram desnecessários. Foi o que aconteceu com as propostas “madama”, “vitrina”, “avalancha”, “nuança” e “champanha”, que acabaram relegadas, tanto em Portugal quanto no Brasil, apenas aos dicionários, sem uso real, substituídas pelas formas que, com a preferência da população, acabaram ganhando a preferência até dos dicionários – madame, vitrine, avalanche, nuance… e champanhe.

No caso de champanhe/champanha, porém, os puristas acabaram dando um tiro no pé: defendiam que a grafia melhor era “champanha”, mas queriam que o substantivo fosse masculino, como na França. Ora, qualquer criança brasileira ou portuguesa sabe que a quase totalidade das palavras portuguesas terminadas em “a” é feminina, mas não masculina; “se o ‘certo’ é champanha, então é palavra feminina: a champanha, uma champanha“, deve ter pensado muita gente inteligente, seguindo a perfeita lógica da língua.

Ao querer “corrigir” à força algo da língua que não precisava de correção, esses puristas parecem ter reforçado uma instabilidade que os deixaria desgostosos. Passou-se a ouvir, entre gente de todos os meios e classes sociais, tanto “o champanhe” quanto “a champanhe”, “uma champanhe”. A tal ponto que, como já vimos, há décadas a Academia Brasileira de Letras oficializou o duplo gênero da palavra, no que foi seguida pelos dicionários.

E fizeram bem a Academia e os dicionários, porque o fato de um substantivo ser feminino em francês não implica que em português tenha de ter o mesmo gênero – basta pensar em crepe, outro item gastronômico francês, que na França é feminino (“la crêpe”), mas que em português virou um crepe. E fizeram bem também porque deram a “champanhe” o mesmo tratamento que o dado a outros substantivos terminados em “e”, que no Brasil alternam entre o feminino e o masculino, como o omelete ou a omelete ou a quiche ou o quiche.

E, certo de que haverá quem ache um absurdo a Academia Brasileira de Letras, o Houaiss e demais dicionários terem “oficializado” o uso indiferente de “a champanhe” ou “o champanhe”, por achar que a forma masculina é a legítima, já que  a palavra entrou no português como um substantivo masculino, convém então lembrar que os substantivos terminados em “e” têm uma instabilidade de gênero histórica em português – é algo que se vê hoje em “grafite” (um grafite para lapiseira ou uma grafite?), mascote, diabete(s), alface, etc. -, mas que nada mais é que o mesmo por que passaram, em português, os substantivos “árvore” e “ponte”, entre outros.

Sim, basta lembrar que em português antigo tanto “árvore” quanto “ponte” eram masculinos – como ainda o são em espanhol, francês, italiano. De tanto as pessoas usarem, “errado”, “uma ponte”, “a ponte”, “uma árvore”, “a árvore”, essas formas “erradas” passaram a ser as corretas. É o mesmo que ocorreu parcialmente com champanhe décadas atrás – é um fato da língua que é indiferente, portanto, dizer hoje “a champanhe” ou “o champanhe”.

“Boas festas” não leva hífen – ao desejar boas festas, use sempre sem hífen

(Adendo: logo após esta postagem, o dicionário Houaiss corrigiu o erro que havia no dicionário: o editor-chefe do Houaiss admitiu o erro e acaba de tirar o hífen, errado, que vinha em boas-festas como forma de cumprimento – ver abaixo)

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O jornal Correio Braziliense deve achar que estamos no Dia da Mentira, porque hoje compartilhou tuíte de sua consultora de português dizendo, simplesmente: “Boas-festas se escreve assim — com hífen”. Erro feio da consultora, erro grave do Correio Braziliense: na verdade, boas festas não leva hífen.

Sempre que for desejar boas festas a alguém, o correto é sem hífen: “Boas festas!” – do mesmo modo que se escreve “Bom dia”, “Boa tarde”, “Boa noite”, sempre sem hífen.

A regra é tão simples que deveríamos parar por aí – boas festas, boa noite, bom dia não levam hífen, ponto. Isso porque isso cobre quase 100% dos casos em que se escrevem as expressões “boas festas” e “boa noite”, “bom dia”, “boa tarde”…

A confusão da consultora deve vir do fato de que até existe um único caso em que pode ser correto usar hífen em “boas-festas” (e em “bom-dia”, etc.) – mas nunca quando se está desejando algo a alguém. A tal exceção é quando se toma a frase toda como um substantivo – mas isso não se restringe a “boas festas”, aplicando-se na verdade a qualquer frase tomada como um substantivo:

João me deu um boa-noite seco.

Não aguento mais ouvir a Helena repetindo feliz-natal-e-próspero-ano-novo vinte vezes por dia.

Abra a porta, só vim te dizer boas-festas.

Em todos esses casos, porém, o hífen poderia ser trocado por aspas – o que é mesmo a forma mais comum hoje em dia:

João me deu um “boa noite” seco.

Não aguento mais ouvir a Helena repetindo “feliz Natal e próspero ano novo” vinte vezes por dia.

Abra a porta, só vim te dizer “boas festas”.

Esse raríssimo caso em que o uso de hífen seria aceitável, como se viu, nada tem a ver especificamente com a expressão “boas festas” – e é um caso tão raro e específico que mais vale a pena não mencioná-lo, e simplesmente ensinar que “boas festas” não leva hífen, que é a regra geral.

Afinal, se a exceção faz até a consultora de português de um grande jornal se confundir e errar, é porque a menção a essa exceção tão peculiar de fato confunde.


Adendo: possivelmente o erro da consultora se deveu ao fato de, como muitas vezes ocorre com consultores linguísticos, ter confiado cegamente no Houaiss e tratado o dicionário como palavra divina, sem saber, como sabemos todos os visitantes daqui da página, que o Houaiss, como todo dicionário, tem milhares de erros. Logo após fazer a postagem aqui, alertei o coautor e atual responsável pelo Houaiss, Mauro Villar, do erro, que prontamente respondeu admitindo o erro e informando que já fez a correção sugerida por esta página:

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O nome oficial da Rússia em português não é Federação Russa

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Outra tradução que revela que muito do que se escreve no Brasil e em Portugal sobre relações internacionais é pura tradução apressada do inglês é o tratamento geralmente dado à Rússia como “Federação Russa“. Esse não é o nome do país – é apenas a tradução direta do inglês Russian Federation, inapropriada em língua portuguesa.

Como a gramática russa é distinta da nossa, o nome do país pode ser traduzido como “Federação Russa” em algumas línguas, como o inglês, e como “Federação da Rússia” em outras, como as línguas latinas. É por isso que, nas traduções oficiais da constituição do país, se vê que, embora o nome oficial seja Russian Federation em inglês, em francês a forma oficial é Fédération de Russie; do mesmo modo, em espanhol, a forma oficial é Federación de Rusia; e em português, o nome do país é Federação da Rússia – e não Federação Russa.

É Federação da Rússia que usa o próprio governo russo em português, como se vê nas páginas de suas embaixadas no Brasilem Portugal, em Angola, etc.; é também a forma usada pelo governo brasileiro, pelo governo português, pelo governo angolano, etc.

Não existe, em português, a “Federação Russa” – apenas em traduções descuidadas do inglês.

Por outro lado, estão também errados os que acham que “Rússia” é uma nomenclatura incorreta ou informal, e que o correto é sempre usar, em vez de “Rússia”, a forma longa “Federação da Rússia”. “Rússia” é tão informal quanto “Brasil”, “Portugal” ou “Suécia” – que são os nomes comuns, ou formas curtas, das formas longas ou oficiais “República Federativa do Brasil”, “República Portuguesa” e “Reino da Suécia”. Nos mesmos contextos em que se usaria “Brasil” em vez de “República Federativa do Brasil”, portanto, é perfeitamente correto chamar simplesmente “Rússia” à Federação da Rússia.

Imprensa brasileira: Abbas é “presidente da Palestina” ou “presidente palestino” (e não “presidente da Autoridade Palestina”)

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É facílimo ver que praticamente inexiste cobertura jornalística brasileira de fatos internacionais – o que se lê nos jornais e portais brasileiros são quase sempre simples traduções semiamadoras da imprensa de língua inglesa.

Isso fica óbvio, por exemplo, na tradução errada, tão frequente em artigos preguiçosos na mídia brasileira, de “International law” como “lei internacional”. Não existe uma lei internacional; a tradução correta é “direito internacional”; o que frequentemente se viola é “o direito internacional” – do mesmo modo que estudar “Law” significa estudar Direito, e não “lei”.

A mesma técnica de tradução preguiçosa se revela em quase todos os textos brasileiros que mencionam Mahmoud Abbas como o suposto “presidente da Autoridade Nacional Palestina“, ou “presidente da Autoridade Palestina” – quando o título por ele usado é “presidente do Estado da Palestina”, que pode ser resumido como “presidente palestino”, ou “presidente da Palestina”.

A Organização das Nações Unidas e a maioria dos países do mundo, inclusive o Brasil, reconhecem o Estado da Palestina e, por essa razão, tanto a própria ONU quanto o governo brasileiro (e os da maioria dos países do mundo) naturalmente chamam seu presidente de “presidente palestino”, “presidente da Palestina”, “presidente do Estado da Palestina” – da mesma forma que chamam a Shimon Peres e a seu sucessores “presidente israelense”, “presidente de Israel” ou “presidente do Estado de Israel”. O Brasil, a ONU e a maioria dos países do mundo reconhecem igualmente o Estado de Israel e o Estado da Palestina.

Só os governos dos Estados Unidos e de alguns países da Europa ocidental, como o britânico, não reconhecem o Estado da Palestina, por pressão de Israel (e do mesmo modo que dezenas de países árabes e muçulmanos não reconhecem o Estado de Israel). Como os seus governos não reconhecem o Estado da Palestina, as imprensas americana e britânica não chamam Mahmoud Abbas de “presidente da Palestina” e nunca falam em “Estado da Palestina”, ou na Palestina como um país. Mas não faz o menor sentido que também a imprensa brasileira siga a prática americana e britânica, quando o governo brasileiro (e, reitera-se, a própria ONU) chama Abbas de “presidente da Palestina”, título de fato usado pelo próprio, e mantém mesmo relações diplomáticas com o Estado da Palestina.

Sobretudo porque isso sabidamente não se deve a um posicionamento político ou ideológico da imprensa brasileira, mas à simples tradução preguiçosa de notícias da imprensa de língua inglesa.