Usar ou não usar vírgula antes de “etc.”? A tradição e a pronúncia mandam usar

etc

Já escrevemos anteriormente sobre a palavra etcétera, aportuguesamento da expressão latina et caetera, cujo significado literal em latim é o de “e outras coisas” (et = e; caetera, que posteriormente evoluiu a cetera = outras coisas).

Há três questões sobre pontuação que podem surgir em relação ao uso da forma abreviada “etc.”:

“Etc.” sempre leva ponto final: o termo “etc.” é abreviação de “etcétera” ou “et caetera“; como toda abreviação, portanto, deve sempre levar um ponto – mesmo antes de vírgula, como se vê no segundo exemplo da imagem acima, de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Ao terminar uma frase, basta um único ponto, que já serve tanto para marcar a abreviação quanto para concluir a frase.

Não se usa “e” antes de “etc.”: na fala, não se diz “e etcétera“, razão pela qual naturalmente tampouco se escreve “e” antes de “etc.” – nenhum mistério até aqui.

Uso da vírgula antes de “etc.”: a principal dúvida surgida recentemente com relação ao uso de “etc.” diz respeito ao uso, ou não, de vírgula antes de “etc.”. A dúvida, assim, é se se deve escrever:

Adoro frutas: gosto muito de comer peras, maçãs, uvas, etc.

Ou:

Adoro frutas: gosto muito de comer peras, maçãs, uvas etc.

É possível aceitar que as duas formas são corretas, que nenhum dos dois usos constitui um erro de português – mas apenas uma das duas formas corresponde efetivamente à pronúncia e ao uso tradicional em português.

Basta reler a frase de exemplo acima, sobre frutas, para ver que apenas uma das duas corresponde à boa pronúncia que se ouvirá de um falante de português: todo falante normalmente dirá “peras, maçãs, uvas, etcétera” – com uma audível pausa entre “uvas” e “etcétera”, equivalente às pausas existentes entre “peras” e “maçãs” e entre “maçãs” e “uvas”. Essa pausa, as regras de pontuação da língua portuguesa ensinam, é marcada por uma vírgula.

E é exatamente assim que sempre se escreveu em português. Basta abrir qualquer livro de Machado de Assis, ou de José de Alencar, ou de Joaquim Manuel de Macedo, ou de Guimarães Rosa, e se verá que esses grandes autores brasileiros sempre usaram, muito, “etc.” – sempre com vírgula antes.

E bastaria igualmente abrir as obras dos grandes autores portugueses – Eça de Queiroz, Garrett, o padre Amaro – para verificar que também os clássicos portugueses sempre usaram uma vírgula antes de “etc.”:

Sans titre.png

Para ir além: basta também abrir as melhores gramáticas da língua portuguesa, como a de Celso Cunha & Lindley Cintra ou a de Bechara, para ver que a abreviação “etc.” vem, nelas, sempre precedida de vírgula:

Sans titre

Para finalizar, basta recordar que existe um instrumento legal que regulamenta oficialmente a ortografia da língua portuguesa: o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. E, como se pode ver da leitura do seu texto, o Acordo Ortográfico – assim como os acordos anteriores, por ele substituídos – sempre traz uma vírgula antes de “etc.”.

Por tudo isso, não resta dúvida de que a tradição, em português, sempre foi a de usar vírgula antes de “etc.” – o que faz perfeito sentido, pois reflete perfeitamente a pronúncia natural. Causa estranheza, a qualquer falante português ou brasileiro, omitir na fala a necessária pausa antes de “etcétera”.

Se o uso da vírgula antes de “etc.” sempre foi consensual, de onde veio, então, o modismo recente de alguns de omitir essa vírgula? Por que surgiram, recentemente, defensores de escrever “maçãs, uvas etc.” assim, sem vírgula?

São, na maioria dos casos, vítimas de alguns dos já conhecidos charlatães linguísticos – aqueles que tentam “corrigir”, à força, todo e qualquer aspecto da língua que não lhes parece suficientemente “lógico”.

Trata-se do mesmo tipo de gente, por exemplo, que defende que se diga “risco de morte”, invencionice dos tempos da Internet, porque a expressão usada há séculos em português, “risco de vida”, não lhes parecia suficientemente “lógica”.

São os mesmos que também têm ajudado a proliferar traduções literais do inglês como “Não cometi qualquer erro” ou “Não ignorei qualquer instrução“, em vez de usarem as corretíssimas construções “Não cometi nenhum erro” e “Não ignorei nenhuma instrução”, com as duplas negativas que são características do português; isso porque, na compreensão limitada desses “pensadores” modernos, “duas negativas resultam num positivo“. Talvez seja assim – em matemática, e até na língua inglesa, mas em português, como nas demais línguas neolatinas, a tradição de séculos é a de que duas palavras negativas, ou até três ou mais, apenas reforçam uma negação.

Esses “pensadores” modernos ignoram, portanto, séculos de história da língua portuguesa, e todo o legado dos clássicos portugueses e brasileiros, e preferem seguir aparentes regrinhas básicas de lógica. São esses mesmos “pensadores”, enfim, que um dia perceberam, extasiados, que, se “et caetera” em latim significa “e outras coisas”, a palavra “etcétera” conteria intrinsecamente um “e”, e como normalmente não se usa vírgula antes de “e” em português, não se deveria usar vírgula antes de “etc.”.

Sentindo-se descobridores da pólvora, passaram a defender a “correção” da língua com base na sua lógica – em geral, inclusive, com sentimento de superioridade sobre todos os pobres mortais que, “ignorantes”, continuassem a usar vírgula antes de “etc.”.

Como já vimos em outros tantos textos por aqui, o problema desses racionalistas é achar que a língua é um probleminha básico de lógica. Não, senhores, a língua é o que é: o resultado de uma evolução natural e não controlada ao longo de séculos, que tem mecanismos de funcionamento interno precisos, mas que não necessariamente coincidem com o que parece mais lógico a quem tentar analisá-la com métodos aristotélicos.

Se a língua fosse perfeitamente lógica, seria errado dizer “Não veio ninguém” – mas a frase é absolutamente correta em português, e se alguém disser que essa frase significa o mesmo que “Veio alguém“, errado claramente estará o ouvinte, que será alguém que ignora o funcionamento da língua.

Do mesmo modo, se a língua fosse lógica – e ainda levasse em conta o latim -, “suicidar-se” seria uma redundância terrível, já que “sui“, em latim, já significa literalmente o mesmo que “se”. A língua, porém, não está nem aí para a lógica simplista e para eventuais redundâncias oriundas do latim, de modo que, se alguém, tentando “consertar” a língua, disser “Ele  suicidou“, estará cometendo um erro de português: a forma correta, em português, exige o “se” (o certo será “Ele suicidou-se”, em Portugal,  e “Ele se suicidou”, no Brasil).

Esse tipo de raciocínio demasiadamente literal, limitado, é o mesmo que está por trás do modismo recente de omitir a vírgula antes de “etc.”.

A melhor recomendação, assim, é continuar com a vírgula antes de “etc.” nas enumerações, em concordância com a fala culta, que obrigatoriamente faz uso de uma pausa antes de “etcétera”, e como sempre fizeram os grandes autores e clássicos portugueses e brasileiros, os bons gramáticos dos dois lados do Atlântico e o próprio Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

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