Octagésimo ou octogésimo? Octagenário ou octogenário?

Houaiss

Octagésimo ou octogésimo? Octagenário ou octogenário? Um tempo atrás, publicamos aqui na página texto sobre como, apesar de a maioria das pessoas espontaneamente dizer “octagenário” ou “octagésimo”, com “a” (“octa-“), os dicionários apenas registravam “octogenário” e “octogésimo”, com “o” (“octo-“).

O que isso significa? Para a maioria dos falantes cultos, a conclusão (errada) a tirar disso seria que, se não vêm nos dicionários, as palavras “octagenário” e “octagésimo” não existem; e que, portanto, quem as usa comete um erro.

Isso porque a maioria dos falantes atribui aos dicionários atributos que eles não têm, nem dizer ter: o de conter todas as palavras da língua, e o de serem verdade absoluta, sem erros.

É erro supor que, se uma palavra não vem nos grandes dicionários, ela não existe ou não pode ser usada. O próprio Aurélio, na introdução de sua obra, afirma que, mesmo o enorme “Aurelião” é, em termos de abrangência, uma obra inframédia – isto é, que contém menos da metade das palavras em uso na língua. Dicionário nenhum traz, nem pretende trazer, todas as palavras de uma língua.

A equipe do Houaiss, por outro lado, admite sem receio que nem tudo que vem em seu dicionário está correto – as pessoas tendem a achar que, se está assim no dicionário, é porque é assim, mas, como vemos com frequência aqui na página, mesmo após 17 anos do lançamento do Grande Dicionário do Houaiss, ainda há nele um número incontável de erros e imprecisões – o que importa não é encontrar um dicionário sem erros (o que nunca existiu nem existirá), mas que a equipe de editores do Houaiss se mantém até hoje em trabalho diário de correção e aperfeiçoamento do material.

Foi precisamente o que fez o editor do Houaiss, por exemplo, quando o autor desta página lhe apontou, que não fazia sentido os dicionários modernos não trazerem as palavras octagenáriooctagésimo, uma vez que ambas tinham todo o necessário para vir num dicionário: estavam formadas corretamente, segundo os princípios da formação de palavras do português; e tinham amplo uso, inclusive entre falantes cultos, e em produção escrita.

As palavra estão bem formadas porque, desde os gregos e romanos, havia alternância entre os prefixos octa- e octo- para se referir ao número oito, e essa alternância se manteve em português: um exemplo disso é que, enquanto um animal com oito patas é chamado octópode, quem ganha oito vezes o mesmo campeonato é chamado octacampeão. Muitas vezes, inclusive, as duas formas se alternam: uma figura geométrica de oito lados, por exemplo, pode ser chamada, em português, octógono ou octágono.

Não apenas existe o prefixo “octa-” ao lado de “octo-“, mas a palavra octágono tem amplo uso, atual e há séculos, em português. Bastou-me juntar um pouco de material a respeito, mostrando que as palavras eram usadas por bons autores hoje e há séculos, e já tinham mesmo figurado em dicionários séculos atrás, para que (como se vê na imagens acima e abaixo, extraídas hoje da versão digital do dicionário), o Houaiss tenha decidido que era correto incluir as palavras “octagenário” e “octagésimo” como sinônimas de “octogenário” e “octogésimo” – mostrando inclusive que as formas com “a” são usadas desde antes de 1720:

Houaiss

O que isso tudo significa? Em primeiro lugar, que as palavras octagenáriooctagésimo, que muitos palpiteiros da língua diziam até hoje serem incorretas apenas por não virem em dicionários, são corretas.

Em segundo lugar, o exemplo de hoje serve como lembrete de duas importantes lições da língua: que todos os dicionários têm erros, lacunas e omissões; e que o fato de uma palavra não vir nos dicionários não significa que ela não exista, não seja correta ou não possa ser usada – pelo contrário, os dicionários são os primeiros a admitir que nunca conseguiriam abarcar todas as palavras corretas da língua, e que nem é esse o seu propósito.

A origem da palavra “tiete” (e de “tietar”, e “tietagem”)

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Só no Brasil é que se usa o verbo “tietar” com o sentido de bajular um ídolo, aproximar-se de alguém de quem se é fã. O verbo vem da palavra “tiete”: um tiete ou uma tiete é um fã ou admirador muito devoto. Mas de onde veio o substantivo tiete?

A origem de uma palavra é o que se chama etimologia. Saber a etimologia exata de uma palavra é, em geral, tarefa ingrata: na maioria dos casos, a etimologia é incerta, e muitas origens que circulam pela Internet (e mesmo muitas que estão nos dicionários) são simplesmente erradas.

Quem recorrer, por exemplo, ao dicionário Houaiss para saber a origem de “tiete” lerá, na parte de etimologia, que a o termo é “atribuído ao hipocorístico Tiete (admiradora do cantor brasileiro Ney Matogrosso)“.

O problema? A informação é falsa. O próprio cantor Ney Matogrosso, ex-vocalista do grupo Secos & Molhados, participou, em 2010, de documentário sobre outro grupo musical da década de 1970, chamada Dzi Croquettes (seus integrantes aparecem na foto acima), e no próprio documentário se esclarece que o termo “tietes” foi criado e disseminado pela banda Dzi Croquettes, e não pelos Secos & Molhados ou para se referir especificamente a qualquer fã de Ney Matogrosso.

O problema torna-se ainda maior graças à confiança cega que a maioria das pessoas têm nos bons dicionários, como é o caso do Houaiss; a maioria dos brasileiros acha que um dicionário como o Houaiss ou o Aurélio não erra nunca – tendem a confiar cegamente em tudo que leem nele, e disseminam o que neles vem como se verdade fosse. Pela Internet, por exemplo, há dezenas de páginas que simplesmente repercutem a informação errada dada pelo Houaiss – de que “tiete” viria de uma fã de Ney Matogrosso – como se fosse verdade.

Como vemos sempre aqui na página, o Houaiss é um excelente dicionário – de longe o melhor dicionário de português existente hoje -, mas, apesar disso, tem erros – muitos erros, centenas de erros. Já vimos dezenas de erros do Houaiss aqui – vários e vários deles foram corrigidos pela própria equipe do Houaiss após termos tratado deles aqui, mas ainda assim, pelo próprio tamanho e pela natureza da obra, continua a haver e é provável que sempre haverá erros.

Não existe dicionário perfeito, sem erros – o importante, assim, é simplesmente não levar dicionário algum como uma espécie de “livro sagrado”, acima de falhas e erros.

O problema é ainda maior na medida em que os próprios responsáveis por outros dicionários sofrem desse mal de acreditar em tudo que vem no Houaiss – com grande frequência os responsáveis por dicionários menores tendem a simplesmente copiar tudo o que vem no Houaiss acriticamente. É o que em geral faz o dicionário Priberam, de Portugal, por exemplo – que diz que tietar vem do antropônimo (nome de pessoa) “Tiete”. O problema? Apesar de no Brasil haver gente com quase todo tipo de nome possível e imaginável, sequer há no Brasil pessoas chamadas “Tiete” (como se pode ver na página do IBGE). “Tiete” não é um antroponônimo.

Voltando à história da palavra “tiete”: segundo os próprios membros do Dzi Croquettes, a palavra era usada por uma amiga da banda, para se referir a uma conhecida chata, e com o tempo os músicas passaram a usá-la em fins da década de 1970 para se referir aos fãs mais chatos, até que passou a designar todos os fãs – possivelmente na esteira de vários outros termos para fãs terminados em “-ete” que já eram usados no Brasil desde anos antes, como “chacretes”:

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(É, aliás, um processo de processo de formação que até hoje dá frutos no Brasil: existem hoje luletes, neymarzetes, etc.)

Em 1979, a revista Istoé mencionava as chamadas “tietes” e o termo derivado, “tietagem, um termo ainda distante do novíssimo Aurélio, mas abertamente em voga na cidade do Rio de Janeiro”, mas é em 1981, na voz de Gilberto Gil, que todo o Brasil passará a conhecer a palavra “tiete” – Gil lançou naquele ano a canção “Tietagem”, que já se inicia “ensinando” o significado do novo vocábulo:

Você sabe o que é tiete?
Tiete é uma espécie de admirador
Atrás de um bocadinho só do seu amor
Afins de estar pertinho, afins do seu calor

Hoje eu sou o seu tiete
Às suas ordens, ao seu inteiro dispor
De imediato aonde você for eu vou
No ato, no ato
Pro mato, pro motel, de moto ou de metrô

Tititititi
Como é bom tietar
Seu amor inatingível
Tititititi 
E se você deixar
Eu farei todo o possível
Pra alcançar o nível do seu paladar