“Ambos”, com ou sem artigo: ambos lados ou ambos os lados? Ambas formas ou ambas as formas?

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“Ambos lados” ou “ambos os lados”? “Ambas mãos” ou “ambas as mãos”? Quando a palavra “ambos” (ou “ambas”) vem acompanhada de um substantivo, o artigo definido obrigatório: em português, o correto é escrever “ambos os lados”, “ambas as mãos”, “ambos os países”, “ambas as formas” – sempre com o artigo definido.

As formas sem artigo podem ser facilmente encontradas… em espanhol. É na língua de Cervantes que se diz “ambos países“, “ambas formas“, “ambos lados“, “ambas perspectivas“, etc., sem artigo entre a palavra “ambos” e o substantivo. Quem fala (ou lê muito) espanhol precisa, portanto, tomar cuidado para evitar replicar em português a construção castelhana.

As palavras “ambos” e “ambas” em português podem vir sem artigo apenas quando estão “sozinhas”, isto é, quando não vêm diretamente acompanhadas de substantivo: “Visitei as cidades de Mérida e Tulum; ambas são muito bonitas”.

“O tesão” ou “a tesão”? Tesão é masculino ou feminino?

O correto é “o tesão” ou “a tesão”? Tesão, no sentido de excitação sexual, etc., é substantivo masculino ou feminino?

Basta abrir o Dicionário Aurélio ou o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras para ver que a palavra tesão, em português, é um substantivo de dois gêneros – isto é, é tão correto dizer “a tesão” quanto “o tesão”, “uma tesão” quanto “um tesão”:

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Dicionário Aurélio:

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O mesmo se vê no Dicionário Priberam, de Portugal, ou no Dicionário Michaelis, que também afirmam que tesão é tanto substantivo feminino quanto masculino.

Há gente que, por ignorância, ri de quem fala ou escreve “a tesão”, “uma tesão”, por serem formas hoje minoritárias. Grande atestado de ignorância, uma vez que, como ensina o Aurélio (foto acima), tesão vem de tensione, isto é, é uma simples deformação de “tensão”, palavra feminina.

Vai ou irá? Irá fazer ou vai fazer? Existe o futuro com “irá”?

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Quem lê a imprensa brasileira nos tempos que correm é obrigado a topar, quase diariamente, com um modismo linguístico condenado inclusive pelos manuais de redações desses próprios jornais: o futuro com “irá” + verbo no infinitivo.

Tome-se qualquer verbo em português – por exemplo, o verbo “fazer”. As gramáticas tradicionais ensinam duas formas de conjugá-lo no futuro do presente: a forma sintética, considerada formal (“Ele fará“; “Nós faremos“; etc.), e a locução com o presente do verbo “ir”, menos formal: “Eu vou fazer”, “Nós vamos fazer”.

Na gramática, não existe a forma híbrida “Ele irá fazer“, “Nós iremos fazer“. Sua popularização e seu uso em substituição da locução tradicional é invencionice de quem não quer usar as formas usuais e corretas (“Ele vai defender”, “Ela vai comer”), mas sabe que as formas no futuro sintético (“Ele defenderá”, “Ela comerá”) se tornaram demasiadamente “pesadas”, solenes demais para a maioria dos contextos.

Resultado dessa insegurança com a própria língua tem sido a proliferação das locuções com “irá”, como nos exemplos acima. Evite o modismo, e fique, com segurança, com a locução tradicional, com o verbo “ir” no presente – “ela vai vir“, “eu vou abrir” – ou, se se desejar formalidade, “ela virá“, “eu abrirei“.


É possível traçar um paralelo entre a situação do fará/vai fazer (e do pseudocultismo “irá fazer”) com a questão, já tratada aqui, dos passados do tipo “tinha feito”/”fizera”/”havia feito”.

Assim como ocorre com o futuro, também para esse tipo de passado a língua portuguesa oferece tradicionalmente duas opções: uma sintética (numa palavra só) e uma locução de mesmo significa – como fizera (que significa o mesmo que “tinha feito”), comera (o mesmo que “tinha comido”), soubera (o mesmo que “tinha sabido”).

Exatamente como aconteceu com o futuro, a forma sintética acabou rareando no uso cotidiano, e por isso ganhou ares de ser “formal demais”. Sem problema, já que a língua tinha uma forma mais palatável, sob a forma de locução: em vez de fizeracomerasoubera é possível dizer tinha feitotinha comidotinha sabido. Mas, exatamente como tem ocorrido com o futuro, muita gente acaba evitando a corretíssima (e portuguesíssima) construção com “tinha” mais particípio, para tentar encontrar uma “saída do meio” no espanholismo que é a construção com “havia” (leia mais a esse respeito aqui).

“Por que” obriga próclise, “porque” também

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Já dissemos várias vezes aqui na página que as próclises erradas são dos erros mais feios cometidos por brasileiros, porque, diferentemente daqueles erros cometidos por quem não teve oportunidade de estudar, usar uma próclise errada é “proeza” cometida apenas por aqueles que tentam “falar difícil” ou “escrever bonito”… e acabam fracassando na empreitada.

É o erro cometido pelo jornalista da Folha de S.Paulo na matéria acima – cuja título é “Por que celebra-se a Páscoa?” – e por todos aqueles que supostamente revisam, editam e aprovam as matérias publicadas. Uma regra básica de colocação pronominal é que a palavra “que” obriga a próclise – isto é, obriga que o pronome venha antes do verbo. A única forma correta é “Por que se celebra a Páscoa?“.

Como a palavra “que” obriga próclise, é errado, portanto, escrever “Foi o que deu-se naquele dia“. A única forma correta, tanto em Portugal quanto no Brasil, é “Foi o que se deu naquele dia“. E a ironia é que todo brasileiro fala naturalmente assim, corretamente. Só erra quem tenta uma inversão para “escrever bonito”.

A palavra que obriga próclise também quando vem sob a forma de por que, em perguntas, e mesmo sob a forma porque, em resposta. Em resumo, em perguntas com “por que” sempre se deve usar o pronome átono antes do verbo.

O mesmo vale para a palavra porque, tudo junto: a palavra atrai obrigatoriamente o pronome átono. Seria errado, portanto, começar uma resposta com “Comemoramos a Páscoa porque recorda-se…“. Não. A única forma correta, em bom português, é “Comemoramos a Páscoa porque se recorda…”. Não é tão difícil, Folha. É só não inventar.