Vai ou irá? Irá fazer ou vai fazer? Existe o futuro com “irá”?

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Quem lê a imprensa brasileira nos tempos que correm é obrigado a topar, quase diariamente, com um modismo linguístico condenado inclusive pelos manuais de redações desses próprios jornais: o futuro com “irá” + verbo no infinitivo.

Tome-se qualquer verbo em português – por exemplo, o verbo “fazer”. As gramáticas tradicionais ensinam duas formas de conjugá-lo no futuro do presente: a forma sintética, considerada formal (“Ele fará“; “Nós faremos“; etc.), e a locução com o presente do verbo “ir”, menos formal: “Eu vou fazer”, “Nós vamos fazer”.

Na gramática, não existe a forma híbrida “Ele irá fazer“, “Nós iremos fazer“. Sua popularização e seu uso em substituição da locução tradicional é invencionice de quem não quer usar as formas usuais e corretas (“Ele vai defender”, “Ela vai comer”), mas sabe que as formas no futuro sintético (“Ele defenderá”, “Ela comerá”) se tornaram demasiadamente “pesadas”, solenes demais para a maioria dos contextos.

Resultado dessa insegurança com a própria língua tem sido a proliferação das locuções com “irá”, como nos exemplos acima. Evite o modismo, e fique, com segurança, com a locução tradicional, com o verbo “ir” no presente – “ela vai vir“, “eu vou abrir” – ou, se se desejar formalidade, “ela virá“, “eu abrirei“.


É possível traçar um paralelo entre a situação do fará/vai fazer (e do pseudocultismo “irá fazer”) com a questão, já tratada aqui, dos passados do tipo “tinha feito”/”fizera”/”havia feito”.

Assim como ocorre com o futuro, também para esse tipo de passado a língua portuguesa oferece tradicionalmente duas opções: uma sintética (numa palavra só) e uma locução de mesmo significa – como fizera (que significa o mesmo que “tinha feito”), comera (o mesmo que “tinha comido”), soubera (o mesmo que “tinha sabido”).

Exatamente como aconteceu com o futuro, a forma sintética acabou rareando no uso cotidiano, e por isso ganhou ares de ser “formal demais”. Sem problema, já que a língua tinha uma forma mais palatável, sob a forma de locução: em vez de fizeracomerasoubera é possível dizer tinha feitotinha comidotinha sabido. Mas, exatamente como tem ocorrido com o futuro, muita gente acaba evitando a corretíssima (e portuguesíssima) construção com “tinha” mais particípio, para tentar encontrar uma “saída do meio” no espanholismo que é a construção com “havia” (leia mais a esse respeito aqui).

18 comentários sobre “Vai ou irá? Irá fazer ou vai fazer? Existe o futuro com “irá”?

    • Mesmo sabendo que, se abrir bons livros de clássicos portugueses e brasileiros, verá que eles usam “vai” + verbo no infinitivo, e não “irá” + verbo no infinitivo? Gosta de usar uma forma sem tradição na língua, só porque ela (equivocadamente) lhe parece mais “chique”?

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  1. Não me parece mais chique, parece-me mais correta, pois estou referindo-me ao futuro irá, e não ao presente vai, é por isso que prefiro fará e irá.

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    • Ele entendeu que você defende o uso de irá fazer, mas acima você deixa claro que prefere fará. Irá fazer, como modismo, foi precursor do “a nível de”, gerundismo, “por conta de” e, agora, do insuportável EM+ infinitivo, que desconsidera totalmente a regência tradicional e “taca” em em qualquer lugar (feliz/triste em fazer, disposição em fazer, comprometido em fazer… – é só ler os jornais). Falta generalizada de leitura.

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  2. Que bom ler este post. De tanto ver o tal hibridismo a torto e a direito, usado mesmo em rodas de revisores e editores de textos, já estava pensando que o problema era eu, e não esse frankenstein oral. Acho que para o uso coloquial ele é aceitável, porém me incomoda que o hibridismo grudou as ventosas em todo tipo de texto, até em escritos que supostamente seguem a norma culta.
    Você conhece outras referências para recomendar sobre o assunto?

    Curtido por 1 pessoa

    • Não acho aceitável nem em uso coloquial, pois é um exemplo de hipercorreção. Nenhuma outra língua latina desenvolveu essa bobagem, e duvido mesmo que exista em Portugal. O que mais me surpreende é que tem gente que pensa que “vai” como auxiliar de futuro é errado; existe tal e qual em espanhol e francês (não em italiano) e é equivalente a going to.

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  3. É ridículo preferir “vai” fazer a “irá” fazer, e, pior ainda a “fará, quando na fala e ainda pior na escrita.
    Vai fazer, Vou jogar, Vou comer… É o que se faz no Inglês: Will do, Will play, Will eat… pois, em inglês o futuro é sempre com “Will” antes do verbo.
    Em português existe o futuro simples do verbo:
    Fará, jogarei, comerei.
    Do que adianta aprendermos os verbos no tempo futuro do indicativo e depois ficarem inventando essas regras ? Não é pedantismo, é falta de leitura e conhecimento para escrever corretamente, o que acontece com 99% dos brasileiros.
    Afinal, fazer o correto no Brasil é incorreto, é chato… Infelizmente.

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    • Sorry, mas sua afirmação quanto ao inglês está simplesmente errada. E “vai” como auxiliar de futuro está absolutamente dentro da norma culta (idêntico em francês e espanhol). O que é inconcebível é usar o futuro do indicativo (aliás, o verdadeiro WILL) na fala, não existe. Concordo quanto à falta de leitura generalizada e à “chatice” de cumprir regras no Brasil
      PS – I will do it tomorrow – I am going to do it tomorrow – I’m doing it tomorrow (3 formas de futuro)
      WILL é mais formal pois tem tom declaratório, de promessa, futuro longínquo, decisão imediata.

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  4. Pingback: Ter ou possuir? É errado usar o verbo “possuir”? Por quê? | DicionarioeGramatica.com

    • Ridículo ensinar que o futuro do verbo é pesado.
      Nas mídias faladas e escrita não usam mais o futuro do presente dos verbos, mas tudo é “vai”:
      Vai fazer, vai jogar, vão comer (fará, jogará, comerão), por exemplo.
      Em inglês existe o “Will”, antes dos verbos, mas nossa língua não é o inglês. Em português existem os verbos em seus tempos próprios, mas esses apedeutas insistem em não utilizar, empobrecendo a cada dia nossa cultura já tão inculta

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