Luiz ou Luís? Com acento ou sem?

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Luiz ou Luís? No Brasil, em 2010, Luiz, com z, era o 11º nome masculino mais comum, e Luís, com s, estava na 13º posição.

É comum se perguntar por que há tantos rapazes de nome “Luiz, com z” e tantos outros cujo nome é “Luís, com s”.

A verdade é que a dupla grafia tem a mesma origem que a de muitos outros nomes e sobrenomes portugueses com duas formas vivas no Brasil – como o sobrenome Souza ou Sousa.

A raiz da questão está no fato de que a língua portuguesa foi uma das últimas grandes línguas a ter normas ortográficas oficiais. Apenas no início do século XX estabeleceu-se uma ortografia oficial. Até então, cada um escrevia mais ou menos como quisesse – não apenas os nomes, mas todas as palavras da língua.

Pouco mais de cem anos atrás, portugueses e brasileiros estabeleceram as bases da ortografia moderna. Padronizou-se, assim, a grafia dos substantivos comuns – estabeleceu-se que se deveria escrever, por exemplo, “mesa”, e não “meza”.

Os portugueses foram ainda além, e estabeleceram uma única grafia correta para todos os nomes e sobrenomes – nem Luis nem Luiz, todo português com um desses nomes deveria a partir de então chamar-se Luís.

Um processo desses era naturalmente mais fácil de ser feito num país com as dimensões de Portugal do que no Brasil, e o governo português levou a sério a questão: não apenas todos os portugueses vivos e já mortos tiveram as grafias de seus nomes “atualizadas”, como, desde então, todo português ou portuguesa apenas pode ser batizado com um nome pré-aprovado, constante de uma lista de nomes autorizados. Qualquer pessoa nascida em Portugal, assim, pode ser batizada “Tiago”, “Matheus”, “Jorge”, “Luís”, mas não “Thiago”, “Matheus”, “George”, “Luiz”.

No Brasil, nunca ocorreu esse processo de padronização forçada dos nomes, e as grafias antigas foram mantidas.

A forma Luiz nunca foi substituída por “Luís” – pelo contrário, “Luiz”, com z, mantém-se como um dos nomes mais comuns de brasileiros, à frente de Luís.

E isso que dentro da conta do nome “Luís” são contados ainda os muitos brasileiros cujo nome é “Luis”, sem acento, forma histórica de Luís – basta lembrar que, até pouco mais de cem anos atrás, não existiam as regras de acentuação que temos hoje. É por isso que outras formas tradicionais – ainda comuns no Brasil – são Sergio ou Antonio, sem acento, enquanto em Portugal esses nomes obrigatoriamente levam acento.

(Pelas regras ortográficas atuais, Luís precisa de acento se se escrever com “s”, mas Luiz, com “z”, não precisa de acento.)

Pelas regras ortográficas de 1943, estabelecia-se que “os nomes próprios personativos, locativos e de qualquer natureza, sendo portugueses ou aportuguesados, estão sujeitos às mesmas regras estabelecidas para os nomes comuns“; com base nisso, os nomes de muitos brasileiros mortos passavam a ser escritos com a moderna grafia portuguesa após a sua morte.

A regra era útil em tempos pré-Internet, em que não havia jeito fácil de consultar se o nome do político ou autor sobre quem se escrevia era “Luiz” ou “Luís”. Hoje em dia, podendo-se facilmente confirmar a grafia corretamente usada por alguém, a regra deixara de ter utilidade para tornar-se um complicador.

Na reforma ortográfica de 1990, essa antiga regra foi, assim, deixada de fora; nas palavras de Evanildo Bechara, “representante brasileiro para o Acordo Ortográfico”, pelas normas ortográficas em vigor, preserva-se a grafia original dos nomes próprios – quem nasceu e morreu Luiz, portanto, continuará a ser Luiz após a morte.

9 comentários sobre “Luiz ou Luís? Com acento ou sem?

  1. É bastante triste que um blog como este escolha incentivar a nossa já enorme balbúrdia ortográfica dos nomes próprios. No Brasil vige um absoluto caos na ortografia dos nomes próprios, com efeitos deletérios até mesmo na alfabetização das crianças e mesmo assim alguns escolhem deliberadamente incentivar essa maluquice. Não se trata de querer impedir, como em Portugal, que pais escolham dar a seus filhos nomes como “Luiz” ou “Thereza”, mas sim de estabelecer que essas são pura e simplesmente formas ortograficamente erradas. Parece-me, porém, que este blog optou por decretar que as regras ortográficas já não mais se aplicam para nomes próprios, sendo sua grafia agora absolutamente livre. Todavia, essa é uma interpretação torta do AO1990, que em nenhum momento estabelece tal nova norma. Aliás, o AO1990 foi omisso quanto à grafia dos nomes próprios e em nenhum momento houve uma revogação de regras ortográficas no que tange aos nomes próprios. A propósito, em que fonte estão essas declarações de Bechara quanto à grafia de nomes próprios? E outra: na próxima edição d’Os Lusíadas como estará a grafia do nome de seu autor? Estou curioso.

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    • Não fiz aqui escolha alguma, apenas conto os fatos – é você quem gostaria que eu mentisse ao público, dizendo existir alguma regra que mande mudar a grafia de brasileiros mortos, quando essa regra simplesmente não existe. Agora, se é para entrar na substância, a verdade é que, tendo vindo ambas do germânico Ludwig, não existe embasamento histórico ou etimológico para dizer que “Luiz” seja “ortograficamente” forma mais ou menos correta que “Luís”.

      Quanto às suas duas perguntas: 1) ouvi-o da boca do próprio Bechara, mais de uma vez (por exemplo na Flip 2009 – http://colunas.cbn.globoradio.globo.com/platb/blogdasimonemagno/2009/07/16/eca-de-queiros-ou-eca-de-queiroz/ ), mas posso pedir a ele que coloque por escrito, se isso o satisfizer; 2) a grafia do nome do autor dos Lusíadas em qualquer livro seu estará LUIS DE CAMÕES, como o próprio grafava. Dizer que ele escrevesse “Luiz” com z ou “Camoens” com n é mentirinha de Internet, das que não resistem a uma simples olhadela nas capas das versões originais d’Os Lusíadas.

      Se concorda que é absurdo proibir pais de darem aos filhos nomes como “Luiz” ou “Felipe” (sim, até este último é proibido em Portugal), parece-me que o único ponto em que você não concorda com o texto, a única coisa que o motiva a escrever-nos é o desejo de que uma das duas formas que dão nome a cerca de 1 milhão de brasileiros seja oficialmente considerada “errada”. É uma necessidade, um prazer – de ouvir que uma forma é certa e a outra errada – que identifico em muitos leitores da página e em muita gente interessada pela língua, e até entendo ser mais prazeroso descobrir que só há uma resposta certa do que ter de contentar-se com a resposta de que as duas formas são corretas. A verdade, porém, é que, para desgosto dos puristas (e meu próprio, que já fui um purista), em muitos casos a língua portuguesa não oferece uma única resposta correta, mas mais de uma opção igualmente válidas – tinha pago ou pagado, ajuntar ou juntar, embaçado ou embaciado…

      E não é privilégio do português – na Alemanha há centenas de milhares de Jakobs e centenas de milhares de Jacobs, e nenhuma das duas formas é considerada mais ou menos correta; na Inglaterra há igualmente Louis e Lewis, com a mesma pronúncia e a mesma origem; por que só no Brasil precisaríamos obrigatoriamente decretar que uma das duas formas – que existem em português há mais de cinco séculos -, Luiz ou Luís, seja incorreta? Lamento dizer, mas a história e a etimologia não permitem dizer que Luiz seja pior do que Luís; são, assim como Louis e Lewis, derivações históricas do mesmo Ludwig germânico.

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      • Não sou um linguista, mas creio que podemos aqui, a grosso modo, estabelecer um paralelo com o direito romano que é muito mais antigo que a gramática portuguesa.

        De modo simplificado, no direito público só é permitido fazer aquilo que está previsto na lei, enquanto no direito privado tem-se a liberdade de fazer tudo aquilo que não é proibido na lei.

        Como bem diz o administrador do blogue, em Portugal há proibição de certas grafias, obviamente devido à legislação lá vigente. Provavelmente haverá punição para o infrator.

        Cá entre nós não há esta exigência legal. Portanto, os nomes dos recém-nacidos são de escolha privativa dos pais. E sendo assim, é livre o direito grafar “Luiz” ou “Luís”, “Tereza” ou “Teresa” e até são muito comuns “Setembrino” (ex-prefeito de Vitória), “Amazonino” (governador do Amazonas), “Maicon” e “Maiquel” (devido ao cantor Michael Jackson), “Rolando”, “Cornélio”, “Marciano”, “Último” (eu conheço um pessoalmente), “Sepúlveda Pertence” (ex-ministro do STF), “Índio do Brasil” (ex-vice na chapa de José Serra), “Remedios”, sem falar no presidente “Barak”. Há alguns anos vi no Jornal Nacional que um pai flamenguista colocou no filho o nome “Zicomengo” e na filha “Flamena”. Tem até pessoas que carregam “Júnior” no nome sem que o pai tenha o mesmo nome: aconteceu com o “Kevinson Júnior”, cujo pai é Rafael. E acredite se quiser: tem “Leidi Dai”. Acredito que como há “Beyonce” não demora aparecerá “Beytwice”, da mesma forma “Neil Young” e “Neil Old”, “Muhammad” e “Muhamglad”, etc.

        Mas, consolemo-nos: no Brasil há a lei federal nº 6015 de 1973 que diz:

        “Art. 55. Quando o declarante não indicar o nome completo, o oficial lançará adiante do prenome escolhido o nome do pai, e na falta, o da mãe, se forem conhecidos e não o impedir a condição de ilegitimidade, salvo reconhecimento no ato.

        Parágrafo único. Os oficiais do registro civil não registrarão prenomes suscetíveis de expor ao ridículo os seus portadores. Quando os pais não se conformarem com a recusa do oficial, este submeterá por escrito o caso, independente da cobrança de qualquer emolumentos, à decisão do juiz competente.”

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        • Ia ser o tema da próxima postagem – que os portugueses insistiram em escrever “Filipe”, mas no fim das contas a pronúncia lá evoluiu para “Felipe”. Já no Brasil depende, ouve-se “Felipe” em SP e no Sul, Filipe em outras regiões (onde também se diz piqueno, futibol, etc., contra pequeno, futebol em SP e no Sul). Apenas provando, mais uma vez, que os puristas (que tentaram impor “Filipe” à força, pela origem latina) estavam errados – já que, em português, “e” pode ser pronunciado “i”, mas “i” não deveria ser pronunciado “e”.

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        • Eu digo Filipi e também piquenu (como se está tratando de como se fala, grafei a última sílaba com “u”, porque acho que não se ouve pequenO, com “o”, nem no Sul do país), assim como mininu, para menino.

          Eu só discordo do que disse sobre “i” não dever ser pronunciado “e”, porque se trata duma evolução de pronúncia, que, em si, não é certa nem errada. Assim como o “oe” pronunciado “oa”, em coelho, ou o “ei” pronunciado “ai”, em madeira, que se ouve em Lisboa e arredores.

          Se nos ativéssemos a regras rígidas sobre como isto ou aquilo deveria ser pronunciado em português, teríamos de condenar o som peculiar que, no Centro-Sul, damos ao dê e ao tê antes do i, que, até onde sei, não é latino nem se encontra em nenhuma outra língua românica.

          Não podemos cair no polo oposto do mesmo erro dos puristas e dos lusófilos, porque isso também seria erro.

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        • Claro, mas a questão é que o “e” é normalmente pronunciado “i” lá e cá, mas o “i” não é normalmente pronunciado “e” nem lá nem cá. Se a pronúncia portuguesa tivesse evoluído de modo que fosse normal pronunciar “i” como “e”, seria uma evolução da língua, mas mesmo entre ele a pronúncia do primeiro i de Filipe é considerada uma exceção.

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