Anões ou anãos? Qual o plural correto de anão?

anãos.png

O plural de “anão” em português pode ser “anãos” ou “anões”; as duas formas estão corretas.

Anunciou-se hoje que as novas traduções brasileiras dos livros de J. R. R. Tolkien, autor de O Senhor dos Anéis, usarão o plural “anãos”, em vez de “anões”. Invencionice dos tradutores? Não: segundo todos os dicionários e gramáticas de Portugal e do Brasil, a palavra “anão” tem dois plurais corretos: anãos e anões.

Nem sempre foi assim; embora hoje a forma mais usada seja “anões“, originalmente “anão” fazia parte do grupo de palavras como “mão”, “irmão” e “cristão”, que só admitem plural em “-ão”: mãos, irmãos, cristãos… e anãos.

No entanto, esses casos são minoria: a maioria dos substantivos portugueses terminados em “ão” tem plural em “ões”: ação/ações, produção/produções, coração/corações, etc. Isso faz que as pessoas com frequência acabem errando o plural de algumas exceções menos usadas, como “refrão” e “anão”, e acabem, por erro, empregando um plural em “ões” etimologicamente incorreto. Mas algo que o português e todas as línguas vivas têm em comum é que – para o desespero dos puristas -, quando a maioria dos falantes cultos acaba cometendo um mesmo erro, esse erro acaba deixando de ser percebido como erro, e passa a ser aceito como forma correta.

É o que aconteceu com o plural de anão: o plural que era errado, “anões”, ficou tão popular que passou a ser considerado a forma correta, e a forma que era originalmente a única correta, “anãos”, ficou tão rara que muitos falantes hoje chegam a achar que está errada, por desconhecerem a história da palavra.

No texto “Plural das palavras terminadas em -ão” é apresentada a explicação histórica de por que existem esses plurais diferentes para a terminação “ão” em português – e apresenta-se até uma regra que permite “intuir” qual a forma correta (“O plural de guardião é guardiãos ou guardiães?“, por exemplo). Clique aqui para ler a explicação.

O patinete ou a patinete? Um patinete ou uma patinete? Patinete é feminino ou masculino?

Sans titre

O certo é dizer “um patinete” ou “uma patinete”?

Quem abrir o dicionário Houaiss, entre outros, poderá surpreender-se, ao ver que, lá, patinete é considerado um substantivo feminino – embora no Brasil praticamente só se use no masculino: “um patinete”, “o patinete”. O dicionário Michaelis contraria o Houaiss e traz patinete como substantivo masculino, como é usado no Brasil:

Sans titre

O que explica a divergência? A evolução da língua – nisso, o Michaelis está à frente do Houaiss.

Ao longo de toda a história do português, sempre houve grande oscilação no gênero de palavras terminadas em “e”. “Ponte” e “árvore”, por exemplo, eram palavras masculinas em português (dizia-se “o ponte” e “o árvore”), como ainda são em espanhol, italiano e francês. No uso, os falantes de português acabaram usando essas palavras no feminino – e com tanta frequência, que o que no começo era um erro acabou virando a norma.

Esse tipo de mudança, que já ocorria séculos atrás, continua até hoje: tempos atrás, por exemplo, ocorreu com “omelete” e “quiche” – dois substantivos que vieram do francês, língua em que são femininos, entraram em Portugal, onde continuam a ser femininos, mas no Brasil viraram, pouco a pouco, masculinos – hoje, todos os dicionários brasileiros admitem que se diga “o omelete” e “o quiche”, ao lado das formas “originais” “a omelete” e “a quiche”, que, de tão raras, já começam a causar estranheza a quem as ouve.

É o mesmíssimo o caso de patinete. Como “omelete”, veio diretamente do francês, língua na qual é feminino; em Portugal, entrou como feminino, e como feminino entrou no Brasil, mas no Brasil virou masculino.

Prova dessa mudança é que há hoje 52 900 resultados para “o patinete“, entre aspas, no Google – mais de dez vezes mais do que para “a patinete“.

Entre os bons autores brasileiros contemporâneos, só encontramos patinete no masculino: é assim que usam, entre outros, Lygia Fagundes Telles, o “imortal” (membro da Academia Brasileira de Letras) Alberto da Costa e Silva e, já em 1968, Luis Fernando Verissimo.

“Patinete” parece estar, assim, no mesmo caminho de “omelete”: já foi feminino, hoje pode ser usado nos dois gêneros, mas, no Brasil, o gênero mais ouvido é o masculino, sendo que o feminino causa mesmo estranheza. Haverá, é claro, os puristas que se revoltarão com essa “mudança”, por desconheceram a regra mais básica dos estudos das línguas: que toda língua com falantes vivos está sempre em constante processo de mudança, e que tudo que hoje é regra já foi erro.

Querer lutar contra “o patinete” ou “o omelete” acaba sendo como ter tentado lutar, séculos atrás, contra “a árvore” e “a ponte”, sob o argumento purista de que essas duas palavras eram masculinas em latim, tinham entrado como masculinas em português e não podiam mudar de gênero “de repente” só porque cada vez mais pessoas aderiam a esse “erro”.

Ao fim, como sempre ocorre nas línguas vivas, o erro da maioria acabou virando a norma – e do mesmo modo que “ponte” e “árvore” mudaram de gênero, “omelete” e “patinete” seguem hoje o mesmo caminho.